Com Howe Gelb por Lisboa. Casacos, música, sorrisos e o céu do Arizona

Pretty in pink.

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O boné tipicamente americano dá lugar a uma farta cabeleira grisalha, o casaco de cabedal a um blazer de pura lã de recorte aprumado e os jeans substituídos por calças de fazenda. Um fato italiano de pele de lagarto, igualzinho a um que o contrabaixista que o acompanha também tem, comprado há 10 anos em Düsseldorf e a necessitar urgentemente de substituto. Preocupação pré concerto para Howe Gelb – que nessa noite tocaria no Musicbox e que transformou o que seria uma hora pelos bares do Cais do Sodré numa sessão pela tarde fora em modo style advisor por dois bimbos que mal sabem o significado da palavra pandã.

Experimente este agora, aconselha o Senhor João. Está a ver, tem um corte muito mais distinto. É azul é certo, mas sabe que o castanho está tão na moda como outrora pato com laranja foi comida gourmet. E repare neste pormenor do bolso. Não gosta? Trocamos já por este lenço, mas não vem incluído. “What do you think guys?”, pergunta Howe Gelb. Aturdidos, a cofiar a barba e a dar uma de entendidos – disseram-nos que é assim que os hipsters argumentam – num inglês de Google Translator, balbuciamos qualquer coisa como: “Extraordinary!”.

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Um fato em Lisboa.

O castanho continua a ser a cor de eleição. Um pedido para reservar o casaco azul de corte clássico e a promessa de voltar à Rua do Alecrim. David Bowie, Talking Heads, o Duke e as Big Bands e os Devo, inevitavelmente – a imagem como parte da música. Indissociáveis. Subimos a calçada e praguejamos. A chuva e a Hugo Boss. “Boss sucks!”. O Karma devolve sem contemplações – é sempre assim. Aquele castanho, finalmente. O castanho gasto de segunda mão na Ás de Espadas, as cotoveleiras, sem chumaços, sem centímetros a mais nem nos ombros, nem nas mangas. só poderia ser Boss. Sem antídoto contra o karma resta-nos afogá-lo numa imperial em tasco do Carmo. Desfiar conversa, sem setlist, deixar que o acaso faça o seu trabalho e o racismo não interfira.

Umas palavras sobre o Musicbox e o décimo aniversário. “Só 10? Estão a começar. Os primeiros 10 anos são para treinar, os 10 seguintes para celebrar e os últimos 10 para desfrutar como nunca. Terão que ir até aos 30 como eu fiz. Reparei que pequenos lugares como este têm a melhor música. A música que toco é mais íntima e sinto-me mais perto dos espectadores, sinto que toco melhor, ouve-se melhor e, de certa forma, há um ambiente próximo dos velhos clubes de jazz”, assegura-nos o músico norte-americano.

E Gelb esmiuça: “As músicas estão dentro de mim, o que tenho de fazer é parar e deixar que tudo saia. Nos Giant Sand temos uma espécie de política de porta aberta. Tal como andámos hoje à procura do fato é exactamente como estabelecemos as colaborações, sem uma ordem pré definida. Simplesmente vais, procuras o que se chama de sinais, as coincidências, e eles aparecem à tua frente. Por quem? Porquê? Não sei. Talvez a melhor palavra para definir o processo seja ‘Happenstance’. Durante o teu caminho tens de ser suficientemente atento, para simplesmente dizer: ‘Vem agora comigo, tocamos e gravamos’. Não há regras. Sou contra planear. Planear insulta o futuro. Planear é o início do racismo, porque exclui à partida. Quando colaborámos com músicos de Gospel e Flamenco não foi com o objectivo de nos apropriarmos dessa cultura, ou estilo musical, mas sim para servir de porta para que estes entrassem no que se convencionou chamar de indie rock. Foi a única forma deste tipo de público poder ouvir Gospel ou Flamenco“.

Um casaco nem sempre é só um casaco.

“Nesta tour, em que toco sozinho, propus um desafio a mim mesmo: construir o álbum a partir de canções inacabadas. Daí que cada noite seja um concerto diferente. É uma espécie de retribuição. Só posso dar o que consigo absorver. Eu apresento o que tenho e espero que as pessoas digam: ‘Não é assim que deves fazer, é melhor se fores por aqui’. Este é o segundo passo contra o racismo”, acrescenta.

Sobre Lisboa – perguntamos -, há algum aspecto que gostasses de focar nas tuas canções? “Tenho reparado na fisionomia dos portugueses. As caras são feitas para sorrir. Não sei se é da estrutura óssea da face, mas está feita para sorrir. Têm um sorriso incrível. E eu aprecio um sorriso bonito”. E em relação ao recente episódio com a Pitchfork… “Sabes o que é? É uma forquilha, é o que o Diabo tem na mão. O terceiro passo contra o racismo é combater estes instrumentos do Diabo”.

Em Tucson [onde Gelb vive] qual seria o passeio ideal? Ir à procura de fatos? “O primeiro que têm de experimentar é a comida. A comida mexicana é verdadeiramente viciante, o molho é diferente em cada restaurante. Estes molhos são como heroína. Com tortilla chips e depois com o prato principal é impossível não ficar viciado. Podia-se fazer uma Salsa Tour, sobretudo nesta parte sul do Arizona em redor do deserto de Senora. Outra coisa que devem fazer é simplesmente parar, não fazer nada e apreciar o céu. O céu é enorme. É tão grande que também estou viciado na abertura que ele proporciona. Não é como aqui em que se construiu ao longo de diferentes civilizações e não há este sentido de infinito, porque foi interrompido pelos diferentes edifícios. O céu em Tucson é grande, dá-nos uma sensação de vazio”.

Entre o piano e a guitarra há muitas diferenças na composição? Gelb responde com generosidade: “A guitarra é muito primitiva, se reparares a forma como a pegas é imediata e é como uma espingarda, tem impacto; talvez por ser um legado da cultura espanhola, não sei. O piano é mais elegante, há mais a acontecer lá dentro. As cordas do piano têm determinados sobre tons que, neste momento, me interessa explorar. Quero entrar no som do piano”.

Pinta aos molhos.

Mudamos de tom e questionamos: será um passo contra o racismo eleger Bernie Sanders e também lutar contra esta narrativa criada pelo Trump? “Na minha opinião Trump não espera ser eleito. Desde que os investimentos que faz tenham o nome dele associado e que apareça nos media já faz com que, para ele, tenha valido a pena. Tudo é feito com o objectivo de aumentar os seus lucros. A primeira coisa que fez foi um reality show e se ele conseguir ser extravagante sabe que capta imediatamente a atenção da comunicação social. É, claramente, uma estratégia de marketing. Ao utilizar argumentos disparatados, ao chamar a Sarah Palin, origina espectáculo. E espectáculo é publicidade de borla. É possível que ele ganhe, no fundo todos sabemos que tudo é possível. Lembram-se de quando George W. Bush foi eleito pela primeira vez? Todo o processo foi insano. Naquela altura estávamos incrédulos com o que acontecia na Florida.’Isto não pode estar a acontecer’, dizíamos. A seguir todo o processo no Supremo Tribunal. Da segunda vez, contra Kerry, e o que se passou no Ohio. Bernie Sanders tem com ele o elemento surpresa, a capacidade de reverter a situação. É possível que ganhe. Mas mesmo que ganhe a Hillary pelo menos o lema será Make Love not War, com os Republicanos será sempre Make war“. A palavra definitiva contra o racismo é amor? “Sem dúvida, quando amas e partilhas esse amor não há disponibilidade para o racismo”.

Mais uma rodada. “Saúde”, “À nossa”, ou “Viva”, palavras que ficavam curtas como as mangas do primeiro casaco. Optámos por “Eleitions”, expressão inventada por Howe, à qual devemos responder com o sonoro “That’s right Jack!”. Em troca damos a conhecer a expressão tão portuguesa “desenrascar”.

Serviço personalizado.

Eleitions!” e “That’s right Jack!” Repetiram-se, não no Estádio, que fechara as portas uns dias antes, mas em tasca do Bairro Alto. Afinal duas constantes preenchiam os pensamentos: a avidez de ouvir mais histórias – e tantas tem – e uma pausa para nova decisão: comprar ou não um segundo casaco. Por entre o speedball dos pobres (cerveja + café), a recordação do avô austríaco e das origens dinamarquesas da família. Tempo também para falar da aptidão inusitada – pelo menos para um descendente de dinamarquesa – que o filho tem para jogar com os pés, não só futebol no meio da comunidade mexicana, mas também voleibol, o que levava o treinador adversário a questionar as regras. Agora optou pelo basquete. Decididamente o futuro não se pode prever.

O regresso. O senhor João, os blazers e a dúvida dissipada. Melhor companhia para um casaco castanho? Um casaco azul. Satisfação estampada no rosto, os habitantes de Tucson também apresentam uma estrutura óssea que aguenta bem um sorriso e, novamente, o “That’s right Jack!”. Com moscatel. Nós os três e o senhor João. Um brinde em homenagem aos novos casacos, ao de pele de lagarto que se vai empacotar de regresso a casa e aos momentos imprevistos. Porque se planear é um acto de racismo, viver o inesperado é exercício de liberdade.

Ready to burn the house down.

Livro de elogios.

Howe was in the house.

Gelb has feft the building.

Retoques finais.

Classic rock n’ roll.

Está feito.

Looking good.

À nossa…e ao meu casaco novo.

Howe Gelb actuou em Lisboa integrado na programação dos 10 anos do Musicbox.

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