Fotos íntimas de meninos do Brooklyn e suas motos
Viagem

Fotos íntimas de meninos do Brooklyn e suas motos

A porto-riquenha Ysa Pérez e seus jovens amigos no fim de um verão.
YP
fotos por Ysa Pérez
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
9.4.18

Ysa Pérez é uma fotógrafa retratista e documental nascida em Porto Rico e criada em Rochester, Nova York. No fim do verão de 2017, ela passou um tempo em South Williamsburg conhecendo melhor um grupo de garotos do Brooklyn.

Eu estava levando uma amiga para a estação de trem Marcy quando vi dois caras passarem com motos de trilha.

Larguei minha amiga lá mesmo e perguntei se podia tirar fotos deles. “Como vocês se chamam?”, falei. “Kay” e “Noah”, responderam. Os dois ficaram se olhando, mas alguns minutos depois eu estava na garupa do Noah indo para a casa do Kay. Era muito tarde da noite para fotografar, mas eu queria me apresentar, conhecê-los melhor e estabelecer uma amizade.

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Nos dias seguintes, formei um laço com o Kay, apelido para Kahlil, pela internet e aparecendo aleatoriamente no prédio dele. Mas a gente vivia se desencontrando. Certo dia, recebi uma chamada de Kahlil. Ele se desculpou, me dizendo que o Dia do Trabalho tinha sido muito louco, e perguntou se eu podia passar na casa dele.

Kahlil.

Cheguei num conjunto habitacional que nunca tinha visto com cinco ou seis outros caras que eu não conhecia. Reconheci Kay, ou 'Lil, perto de sua moto, Baby Blue, e sabia que ia dar tudo certo. Ele era meu contato, meu cara, meu novo amigo. Ele explicou que eu não era da polícia, que eu só estava tentando me enturmar e tirar algumas fotos.

Fotos Difíceis de Guardar

Naquele dia conheci todo mundo. Chris, o zoeiro do grupo, era um doce. No nosso segundo encontro, depois de me ver sofrendo com o peso, ele se ofereceu para carregar minha bolsa – ninguém faz isso. Joel tinha cabelo escuro e lindos olhos verdes, o que concordamos que é algo bem raro para caras hispânicos. Ted era um pouco tímido, mas quando falava, era sempre algo de valor. Eu não me importava porque era de fora. Eu só estava feliz em dividir o espaço deles, compartilhar o mundo deles. Ele morava com o irmão mais novo, TyTy, que me impressionou com seu estilo e maturidade. Jared e Daris, amigos deles, às vezes também apareciam. Esses eram os principais suspeitos. Meus caras.

Nas semanas seguintes, dediquei muita energia para participar e experimentar aquele mundo. Eu era a “moça da câmera” para os amigos deles, e, às vezes, a mãe tentando comprar pizza pra todo mundo. Enquanto eles me conheciam, eventualmente me tornei parte da gangue, rindo e brincando como verdadeiros amigos. Kahlil e eu nos ligamos principalmente por nosso amor mútuo por Baby Blue. Ele parava na frente do meu prédio, acelerando a moto, e eu descia, sem fazer perguntas, e pulava na garupa tipo “Vamos!” Eu sabia que ele estava do meu lado como eu estava do lado dele. Ele confiou em mim o suficiente para deixar uma estranha entrar em seu quarto, me apresentou para os pais e amigos, e me mostrou seu mundo, então eu confiaria minha vida a ele.

Todos os garotos.

Depois de algumas semanas em Nova York, eu estava pronta para me mudar, porque nunca fui de ficar parada. Quando comecei a me despedir, senti que Kahlil achou que a gente nunca mais se falaria – que ele era só outro projeto para mim. “Acontece com a gente o tempo todo”, ele me disse da cama do Chris. Aí ele me mostrou uma foto de um cara que o tinha fotografado anos atrás com uma intimidade similar, e pensei “Como você pôde perder contato com esses caras? Como você pôde tirar algo desse grupo e não dar nada de volta? Ou simplesmente dizer 'E aí?' anos depois?”

Apesar de ter que ir, eu não tinha intenção de dar um perdido nele e nos outros meninos. Eu estava esperando pelo dia em que pudesse voltar e todos nós nos reuniríamos. Então comecei a chorar um pouco, envergonhada. Eu devia ser a adulta e tudo mais. “Não, tudo bem”, o Chris me disse. “É assim que a gente sabe que é de verdade. Não é todo dia que você conhece alguém na rua e forma um laço real como fizemos com você.”

Três dias antes da minha partida, Chris me contou que Kahlil tinha ido vender sua moto. Meu coração partiu um pouco, mas fingi que isso não me afetou. Quando vi Kahlil, perguntei “Você vendeu mesmo?”. “Sim”, ele deu de ombros, mas me garantiu que ia comprar outra maior. “Mas vou sentir falta daquela moto”, confidenciei. “Foi a primeira pela qual me apaixonei”, Kahlil concordou.

As mãos de Kahlil.

Nos despedindo, ele me mostrou no celular a moto nova que ia comprar. Uma moto de verdade. Provavelmente uma em que não vou ter coragem de andar. Percebi então porque fiquei triste. A perda daquela moto era a inocência dele se dissipando. Ele está ficando mais velho, amadurecendo, confrontando mais perigos e se arriscando mais. Mas isso é parte de se tornar um homem. Então aceito.

Não vejo os garotos desde setembro de 2017. Nos falamos por DM. Assisto as histórias deles de longe, como uma irmã mais velha preocupada tentando saber se eles estão bem. Sinto falta deles. De sua energia e suas risadas. Sinto falta de absorver a juventude deles. Mas sinto mais falta do nosso processo; de ver o rosto deles olhando as polaroides, vê-los entendendo como outra pessoa os percebia – alguém que acreditava neles.

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O laço é para o resto da vida, e essas fotos são memórias disso.

Noah e Kahlil.

As polaroides de Ysa.

Kahlil pilotando a Baby Blue.

Kahlil.

Chris.

Darius.

Joel.

Tyty.

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Essa matéria é parte do esforço da VICE para destacar a contribuição de mulheres negras pelo mundo todo. Leia mais sobre mulheres negras fazendo história aqui (em inglês).

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