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Saúde

Entrei na menopausa aos 30 anos

Secura vaginal, pouca tesão, calor e níveis hormonais de uma senhora.

Por Risa Kerslake; Traduzido por Madalena Maltez
09 Abril 2018, 3:34pm

Foto: Sonja Lekovic/ Sotcksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Acordo no escuro ensopada em suor. Não é algo pouco familiar, lembro-me de isto me acontecer antes, quando voltei para casa do hospital depois de ter a minha filha. As minhas roupas estão molhadas nos pontos onde a humidade atravessou.

Mais cedo naquele dia, estava eu a carregar a roupa lavada para o segundo andar e tive que amarrar o cabelo no alto da cabeça para o meu pescoço secar. É Verão, digo para mim mesma. Estou apenas com calor. Marcas de suor formaram-se na parte da frente do meu top, debaixo dos meus seios. Limpo a humidade dos lábios e fico surpresa ao ver, no termostato, que estão só 20 graus. Mas o ar está sufocante. Provavelmente, seria assim que minha mãe descreveria a menopausa.

A questão é que tenho somente 31 anos.

Ignoro os sintomas durante meses como uma coisa do pós-parto – sem pensar muito que já passaram dois anos desde que tive um filho. Foi quando também notei que a minha ansiedade tinha piorado e que o sexo era diferente com o meu marido. Andava com pouco desejo e sentia uma fricção que roçava a dor. Comecei a imaginar que talvez se passasse mais alguma coisa comigo e admiti-o a uma amiga.

Contei-lhe como, recentemente, me acontecia estar totalmente suada, de calções e top e via as pessoas ao meu lado completamente confortáveis de calças de ganga e camisa. Ela sugeriu que procurasse o meu ginecologista, porque podia ser um problema hormonal. Admiti que parecia uma alternativa melhor do que os meus próprios auto-diagnósticos de excesso de calor por causa do peso da gravidez que não conseguia perder. Pensando se a coisa toda não seria só exagero – a sério e se ele se limitasse a dizer-me que bastava perder peso? – fui ao médico na semana seguinte.

Fez-me várias perguntas sobre tonturas, libido baixa, ansiedade, problemas para dormir e dores de cabeça. Confirmei que andava a sentir a maioria desses sintomas. Queria fazer exames de sangue para ter a certeza, mas diagnosticou-me logo ali com perimenopausa, a transição entre os anos em que se pode engravidar e a menopausa, o que geralmente acontece na faixa dos 40.

Não pude deixar de dizer que estava surpreendida, porque precisei de uma doadora de óvulos para ter a minha filha. Em 2013, passei por três tratamentos de fertilização in vitro, cada um acabou com um punhado de embriões que não vingaram (o que não se quer quando se está a pagar umas boas massas por uma hipótese de ter um filho).

Descobri mais tarde que há exames de sangue que podem mostrar a diminuição da qualidade dos óvulos, parecido com o que acontece com uma mulher de 40 e poucos anos – mas, na época, eu tinha 27. Trocámos de clínica e o meu novo médico especialista em fertilidade, apesar de ser óptimo, continuava com o mesmo foco em engravidar-me, em vez de me ajudar a descobrir os meus problemas de saúde. Nunca ninguém mencionou os problemas de longo prazo ligados à minha baixa qualidade de óvulos. Para ser justa, também nunca investiguei sobre essa situação: estava desesperada para ter um filho.

Naquele dia no consultório do ginecologista, ao ouvir o diagnóstico de perimenopausa, fiquei a pensar em como é que não tinha percebido isso antes – como é que não entendi que precisar de uma doadora de óvulos era só o começo dos problemas de saúde que se seguiriam. Na verdade, o meu obstetra disse-me que, provavelmente, estava em perimenopausa desde o nascimento da minha filha – e os meus sintomas estavam a piorar.

Segundo a Sociedade Norte Americana de Menopausa, perimenopausa é uma diminuição gradual do estrogénio, mas isso pode flutuar, às vezes estar em níveis mais altos que outros. A redução do estrogénio pode causar diminuição do desejo sexual, secura vaginal, ondas de calor e suores nocturnos – tudo o que estava a sentir.

Saí do consultório com uma lista de exames de sangue e planos de tratamento às voltas na minha mente: terapia de reposição hormonal, anticoncepcionais, adesivos de estrogénio. Ia tomar hormonas até aos 50 anos, quando oficialmente passaria para a menopausa – algo com que não estava particularmente empolgada. Porque, quem é que quer tomar hormonas durante os próximos 20 anos?

Claro, era uma alternativa melhor do que ficar perpetuamente com estrogénio baixo, o que pode levar a coisas como osteoporose e doenças cardíacas. Pensar em tudo isso sobrecarregou-me e chorei durante todo o caminho para casa. Porque é que ninguém nas clínicas de fertilidade disse que isto podia acontecer? Pelo menos já estaria à espera e poderia trabalhar nisso. Mas, ninguém me falou sobre a possibilidade de o meu sistema reprodutivo acelerar para os 50 anos antes sequer de fazer 40.

Passaram uns sete meses desde aquela consulta. Tentei três meses de contraceptivos e estou agora a usar adesivos de estrogénio para ver se funcionam melhor do que a pílula. Ainda acordo ensopada em suor algumas noites e aprendi que, se usar mais do que um lençol, pago com um pijama molhado. Tomo remédios para a ansiedade e ainda não ficou determinado se foi isso que causou os problemas hormonais. O meu marido e eu usamos cada vez mais lubrificante por causa da secura vaginal pelas mudanças de estrogénio. E, com tudo isto, é difícil sentir-me sexy sabendo que tenho os níveis hormonais de uma idosa.

Ainda estou a tentar decidir até onde quero ir com estes tratamentos para um diagnóstico que ainda não percebo completamente. Perimenopausa não é um tema muito falado, especialmente quando ocorre nos anos de suposta fertilidade. A questão é, como em muitas outras condições médicas, que eu tenha de ser a minha própria defensora.

“Acho que se alguém é diagnosticada com menopausa precoce ou perimenopausa, se a pessoa não está a ser acompanhada por um especialista em menopausa, deveria estar, porque há muita desinformação”, aconselha Streicher. E acrescenta: “Se te disseram que tens perimenopausa e estás preocupada, ou sentes que não estás a receber informação suficiente, precisas de procurar alguém que seja especialista no assunto”.


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