Noisey

O adolescente que fotografou a intimidade das maiores estrelas do rock dos anos 70

Brad Elterman relembra os seus dias de glória, quando fotografava David Bowie, Joan Jett, Bob Dylan e KISS.

Por Clara Mokri; fotos por Brad Elterman
21 Julho 2017, 1:11pm

Todas as fotos cortesia Brad Elterman

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA .

Há 42 anos atrás, Brad Elterman faltou às aulas, conduziu até um estúdio de gravação de Los Angeles e tentou fotografar David Bowie. Conseguiu a foto e esta acabou na Creem Magazine. Começava então uma carreira meteórica, que viria a redefinir o conceito da fotografia de rock 'n' roll.

Em vez das típicas fotos de concertos, Elterman levou a sua máquina para os bastidores - ou para qualquer outro lugar, na verdade -, de forma a captar imagens sinceras de alguns dos maiores nomes da época, estivessem eles a conduzir carros, a comer batata frita, a sair de WCs portáteis... bem, a serem gente como nós.


Vê também: "O rock de ginga na anca dos The Twist Connection"


Quase meio século depois, Elterman (colaborador ocasional da VICE) encontrou vários dos seus antigos negativos à venda no eBay e comprou-os ele próprio, para relembrar o passado.

Recentemente tive a oportunidade de conversar com Elterman ao telefone sobre como era andar com a nata do rock, como foi recuperar os seus negativos e sobre aquilo de que mais sente falta daqueles dias gloriosos.

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Elterman, na sua mesa de trabalho, em 1980.

VICE: Primeiro, como é que estas fotos acabaram no eBay?
Brad Elterman: Nos anos 70, quando era muito prolífico com a minha máquina fotográfica, enviava slides a cores e impressões a preto e branco para revistas de todo o Mundo. No entanto, mantinha um arquivo dos meus negativos a preto e branco.

Há alguns anos, estava em Tóquio e fui à sede da Shinko Music, que publicava as revistas Music Life e Rock Show. Publicavam tudo o que lhes enviava e tornei-me o correspondente em Los Angeles. Lá, descobri que a empresa tinha fechado e um segurança idoso disse-me que toda a gente se tinha ido embora já há alguns e que não fazia ideia onde estariam os arquivos. Não foi, obviamente, um fenómeno isolado. Todas as publicações para onde enviei fotos nos anos 70 acabaram e os seus arquivos desapareceram. Milhares de fotos analógicas foram mandadas para o lixo. Não sou propriamente um idiota que anda por aí a perder negativos.

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Fotos de Brad de Flo e Eddie nos bastidores de um concerto dos KISS apareceram na revista japonesa Music Life, em 1978. A publicação tinha a grossura de uma lista telefÓnica.

E por quanto estavam à venda os arquivos e quanto acabaste por pagar por eles?
Comprei alguns dos meus slides a cores por 20 dólares e a folha de contacto por 70 dólares. Era algo mais importante para mim do que para qualquer outra pessoa a licitar, portanto não me incomodou muito ter que pagar a esses gajos. Levei a coisa como se fosse uma taxa de recuperação. Algumas fotos estavam listadas com as legendas erradas; o vendedor não fazia ideia do que tinha em mãos. Comprei todos os meus negativos de Neil Young, de um espectáculo em 1976. Não eram umas fotos quaisquer. Stephen Stills subiu ao palco para tocar o encore e eles apertaram as mãos. Foi um momento icónico. Tinha que recuperar esses negativos.

Como era a tua vida na altura em que tiravas essas fotos?
Ainda era um puto. Aquela primeira foto que fiz do David Bowie mudou mesmo a minha vida. Antes de tirar essa foto, tinha uma voz na minha cabeça que me dizia "Podes acabar por queimar pontes, e as pessoas podem não gostar", mas tive tomates para o fazer. Enquanto adolescente, limitas-te a segura a respiração e a ir. Depois de enviar aquela foto à Creem, a minha caixa de correio entupiu. Depois, acabei o liceu, fui para a universidade e acabei por pedir transferência para Cal State Northridge. Só que tive de largar o curso, porque tinha muito trabalho e estava sobrecarregado, não consegui continuar.

O que mais te surpreendeu ao reveres as fotos?
Lembraram o quão criança era. Mas, era como uma máquina. Não havia um trabalho premeditado para fazer as imagens. Fotografar era a parte fácil. A noite começava pela pesquisa de onde as bandas iriam tocar – no Rainbow, Roxy, Starwood, Carlos and Charlie's, no Sugar Shack, etc. E no final do concerto, às duas da manhã, quando toda a gente estava preocupada em beber copos, ou já a "capotar", ia para casa e revelava tudo o que tinha feito antes de ir para a cama. A adrenalina da noite era tão intoxicante que não conseguia dormir. A minha mãe era pintora, por isso transformei parte do seu estúdio na cave de casa, numa sala escura para revelação. De manhã, a minha mãe entrava no estúdio e dizia "Eh lá, quem é esta gente?". Mas ela sempre me apoiou e sempre fez críticas construtivas sobre o meu trabalho.

O que é que te interessava mais fotografar nos anos 70?
Eu não era o tradicional fotógrafo de rock, porque não me interessava minimamente em fotografar alguém a segurar uma guitarra. Era isso que todos os outros fotógrafos faziam na altura e não estava interessado nessas fotos genéricas de concertos. Fotografava os bastidores – essas sim, eram fotos realmente interessantes, que contavam uma história; eram as imagens que as revistas queriam desesperadamente. Por exemplo, nunca tirei nenhuma foto de um concerto de Willy, dos Mink DeVille, em vez disso, fui aos bastidores e consegui fotos dele com a mulher, Toots. Foi algo especial.

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A foto de Elterman de Willy e Toots, dos Mink DeVille, nos bastidores, apareceu na capa do jornal SOUNDS, em 1977.

Queria fotografar tudo o que era novo – todas as bandas porreiras sobre as quais lia nos jornais britânicos, como o Sounds, NME e Melody Maker. Um dia, Steve Jones dos Sex Pistols veio a minha casa nadar na piscina e tirei-lhe fotos!

Quando comecei, sonhava em fotografar Bob Dylan. O facto de ele nunca sair e nunca deixar que lhe tirassem fotos, tornava tudo mais emocionante. A apoteose da minha carreira foi a noite em que conheci Dylan e ele me pediu para lhe tirar uma foto com Robert De Niro, nos bastidores do Roxy, em 76.

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Steve Jones, dos Sex Pistols na piscina do primeiro apartamento de Elterman, na esquina entre Sunset e Dohney, em West Hollywood, 1977.

Que imagens se destacam mais para ti?
Qualquer coisa com a Joan Jett. Ela era a minha maior musa. Era muito carismática e incrível de fotografar. Éramos ambos meio tímidos, por isso ela deu-me um certo grau de confiança para fazer esses retratos.

Que sentimentos é que estas imagens evocam em ti, 40 anos depois?
É uma cena bastante emocional. Era adolescente quando tirei estas fotos, hoje tenho 60 anos. As imagens trazem-me lembranças da juventude. Algumas das pessoas que fotografei já não estão cá. As minhas fotos antigas estão a inspirar-me, na verdade. Agora, estou a escrever um guião para um filme sobre como foi tirar essas fotos nos anos 70. Quando olho para algumas das imagens, lembro-me de algo que aconteceu naquele dia e digo "Ah! Posso acrescentar isto ao guião".

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Joan Jett, no cais de Santa Monica a comer batatas fritas, 1977.

Como é que Los Angeles mudou desde os anos 70? Há alguma coisa que continue igual?
Alguns dos edifícios continuam cá. Ao fim e ao cabo, Los Angeles é uma cidade de classe mundial. Os sonhadores ainda andam por cá, mas vêm e vão. Poucos dos lugares que eu frequentava continuam a existir. O Whiskey e o Roxy continuam no activo. Bem como o Rainbow Bar & Grill. Hoje, estes clubes continuam iguais, mas nenhum dos meus amigos está lá.

Costumava ser o miúdo mais novo da sala e conhecia toda a gente. Agora é ao contrário. Talvez tenha ficado um bocado cansado depois da vida selvagem que levava naquela época. Preciso de um motivo muito bom para ir a um concerto hoje em dia, mas não vivo totalmente recluso. Fui fotografar os Sunflower Bean recentemente e foi surreal estar nos bastidores com eles. Era o mesmo camarim onde estive com Bob Dylan e Robert De Niro há mais de 40 anos.

Como é que o teu estilo fotográfico e a abordagem mudaram desde então?
Nada mudou. Hoje, a maioria dos meus editores diz-me para não mudar nada e fotografar como fazia em 1977 com a Joan Jett.

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Sue Mengers, Michael Eisner e John Travolta na festa de lançamento de Grease, no Paramount Studios, 1978.
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Foto rara de Stephen Stills juntando-se a Neil Young em palco, para o encore num concerto de Young, no Pauley Pavilion, UCLA, 1976.
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Olivia Newton John beija John Travolta na festa de lançamento de Grease, no Paramount Studios, 1978.
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Peter Frampton, com o seu tour manager, Mr. Tiny, depois de ir ao WC portátil, no seu concerto no Estádio Anaheim, 1978.
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Jackie Curtis e Andy Warhol, na Margo Leavin Gallery, West Hollywood, 1972.
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Joan Jett, dos Runaways e Danny Wilde, dos Quick, nos bastidores do Whiskey a Go Go, 1977.
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KISS, nos bastidores do Estádio Anaheim, com Neil Bogart, Bill Aucoin e o promotor David Forest, 1978.
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Joan Jett na brincadeira com o vocalista dos Quick, Danny Wilde, no chão do Whiskey a Go Go, 1977.
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Debbie Harry, dos Blondie, nos bastidores do Whiskey a Go Go, 1977.
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David Byrne, dos Talking Headss nos bastidores de um concerto gratuito na UCLA, 1976.
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O cantor holandês Herman Brood, em Hollywood Boulevard, 1976.
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Pete Townsend, dos The Who, numa festa depois de um concerto no Flippers em West Hollywood, 1978.
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Carly Simon e o marido, James Taylor, À saída da festa dos Grammies, no Hollywood Palladium, 1976.
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David Cassidy, no quintal de sua casa em Encino, 1976.
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A banda Popsicles, produzida por Kim Fowley, na piscina da casa de Elterman, na esquina da Sunset e Doheny, West Hollywood, 1977.
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The Orchids, na sala do produtor Kim Fowley, 1977.
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Danny Wilde, dos Quick a actuar no Whiskey a Go Go, 1977.
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Os Ramones, no set de Rock 'n' Roll High School, 1978.
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Mark Hamill, com os Quick em Malibu, 1977.

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