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Music by VICE

36 canções lá de fora que trocaram as voltas a 2019

As tuas novas “meninas queridas” podem estar nesta lista

Por Carlos Reis
29 Novembro 2019, 2:52pm

Máscaras utilizadas no teledisco “Cellophane”, de FKA Twigs. A realização é de Andrew Thomas Huang (Cortesia:  Analog Studio)

Saudades de um countdown? Sim, chegaram os dias das retrospectivas, de ver o que os últimos meses nos proporcionaram. Mas, o que é uma lista? Aparentemente é fácil de explicar. Aqui vai: é um registo limitado que serve como uma súmula das boas surpresas e belas confirmações do que se ouviu, por parte de quem a elabora.

Os desapontamentos musicais não moram aqui, mas foram esses (sobretudo Vampire Weekend, Bon Iver, Mac DeMarco, Big Thief, Hot Chips, Floating Points ou Morrissey) que - por defeito - deram espaço a algumas das escolhas que vais escutar abaixo. No entanto, há exemplos em que o álbum é tão poderoso no seu todo que seria injusto destacar este ou aquele tema. Já ouviste o imprescindível Ghosteen de Nick Cave & The Bad Seeds?

Temos assim trinta e seis canções do estrangeiro que trocaram as voltas a 2019. Muita gente desconhecida do grande público, há “suplentes” em detrimento do single conhecido ou músicos que, depois de terem estado na ribalta, pareciam andar com falta de inspiração. São estas as melhores fora de Portugal? As usual, em qualquer balanço, a resposta é ambígua. Por outro lado, quem sabe se descobres novas “meninas queridas” para animar a tua playlist – Alerta VICE! (hahaha): ao todo tens à disposição 180 faixas! Por cada uma ordenada de forma preferencial até ao topo, são adicionadas quatro opções.

Boa audição!

E um anjo suspirou no autocarro 19… Knowing that you love someone, Doesn't mean you ever were in love”.

36. “I Love You, Fine” – Automatic

As três famosas palavras embrulhadas segundo o carisma do final dos anos 70. Da Austrália com muito carinho post-punk.

Álbum: Signal (2019).

Outras a ter em conta: Chromatics “twist the knife”; Fatamorgana “el desvanecer del futuro”; Jennifer Touch “chemistry”; Sleater- Kinney “the dog/the body”.

35. “Dungen” – Powerplant

Desdenhar o poder de uma planta, pode ser meio caminho andado para desencontrares o “synthetico” que há em ti. É fechar os olhos na pista e deixar as axilas e as ancas fazerem o resto.

Álbum: People in the Sun (2019).

Outras a ter em conta: Ex-Hex “cosmic cave”; Pixx “disgrace”; The Claque “hush”; The Mystery Lights “traces”.

34. “The Groove” – O.B.F. & Nazamba

Ritmo para ser “fumado”… nas calmas. Obrigatório para iniciar uma festa com vista para uma casa jamaicana, uma sunset bem enrolada, ou a sintonia que te fará entrar de mansinho em modo descompressão.

Álbum: Nazamba (2019).

Outras a ter em conta: Koffee “throne”; Lee Scratch Perry “makumba rock”; Maral “coy dub”; Minyo Crusaders “otemoyan”.

33. “Youth” – Ásgeir

As recordações da infância são palmilhadas pelo músico islandês, que já colaborou com John Grant. Queres ver que este tema bastante radio friendly vai ser pretexto para viajares nas boas memórias?

Álbum: Bury in the Moon (edição prevista para Fevereiro de 2020).

Outras a ter em conta: Coldplay “daddy”; Devendra Banhardt “is this nice?”; Patrick Watson “dream for dreaming”; The Delines “let’s be us again”.

32. “True Blue” – Mark Ronson feat. Angel Olsen

É um pouco disto. Eu quero, tu já quiseste mais. Eu pergunto, tu evitas. Eu ligo, estás “desligada”. Pois, o Mark e a Angel sabem que há correrias que nos fazem felizes. Apesar do esforço, um dia os olhares da cumplicidade ficam para trás…

Álbum: Nothing Breaks Like a Heart (2019).

Outras a ter em conta: Alex Cameron “miami memory”; Francis Lung “2 real”; Lispector “seabird”; The SLP “trance”.

31. “Oceano Franco”– Giovani Cidreira

A escola das incertezas está por toda a parte. Através de uma homenagem a Frank Ocean (com o sample retirado de Nikes), o músico brasileiro revela os anseios de índole pessoal e social.

Mixtape: Mix$take (2019).

Outras a ter em conta: Julio Secchin “pra que ser tão normal”; O Terno “eu vou”; Thiago Pethit “orfeu”; YMA “colapso invisível”.

30. “May failure be your noose” – Lingua Ignota

Na balada metal do ano ouve-se “ Who will love you if I don't? Who will fuck you if I won't?”. A californiana Kristin Hayter é uma sobrevivente de violência doméstica e não deixa pedra sobre pedra. Em Portugal, os números são assombrosos: 500 mulheres assassinadas nos últimos quinze anos. Surreal.

Álbum: Caligula (2019).

Outras a ter em conta: Big Brave “holding pattern”; The Darkness “heavy metal lover”; Ithaca “impulse crush”; Judiciary “social crusade”.

29. “Paralyzed” – Nilüfer Yanya

Alguma vez ficaste paralisado na tua existência à espera de uma solução que parecia impossível? Alguma vez tiveste sonhos estranhos, marcados por um pedido de salvação? Se acenaste com a cabeça num sim-sim afirmativo, é seguir o que a “doutora” Yanya tem a dizer.

Álbum: Miss Universe (2019).

Outras a ter em conta: Aldous Harding “fixture picture”; Drahla “stimulus for living”; Modern Nature “footsteps”; Rina Mushonga “narcisc0”.

28. “Magic of Meghan” – Dry Cleaning

A duquesa de Sussex (Meghan Markle) tem sido pródiga em mostrar que deve haver vida para além do título real, mesmo que choque com a imprensa e a sua recente família. Esta “rockalhada” salpicada em spoken word faz jus a essa crença. É avisá-la para a incluir no Spotify.

EP: Sweet Princess (2019).

Outras a ter em conta: Girl in Red “bad idea”; Patio “split”; Pip Blom “daddy issues”; Terry “spud”.

27. “It’s Coming, It’s Real” – Swans

Há canções que têm um nervo celestial maior do que elas próprias. Michael Gira (mentor dos Swans) dispensa hypes em seu redor para dignificar o que faz desde os anos 80. E é real: conta com a deslumbrante colaboração das irmãs von Hausswolff (Anna e Maria). Bora entrar em transe?

Álbum: leaving meaning. (2019).

Outras a ter em conta: Jenny Hval “ashes to ashes”; Laurie Anderson, Tenzin Choegyal, Jesse Paris Smith “lotus born no need to fear”; Soundwalk Collective with Patti Smith “una nota sobre el peyote”; Zbigniew Preisner, Lisa Gerrard, Dominik Wania “Australia”.

26. “Dead of Night” – Orville Peck

É o zorro? É o lone ranger? Ou é o cowboy que veio glorificar a malta que se entretém num rodeo show? Até tentava saber a resposta junto de Chris Isaak (por ter um timbre semelhante), mas descobrir a face por detrás da máscara pode gerar ira. Que fazer? Assobiar e cavalgar para outras bandas…

Álbum: Pony (2019).

Outras a ter em conta: Dehd “on my side”; Greta Van Fleet “always there”; Mike Patton and Jean-Claude Vannier “chansons d’amour”; Pumarosa “I see you”.

25. “Boy Bye” – Brockhampton

Há colectivos musicais que impressionam. É como aquelas equipas de futebol que parecem saídas de um jogo de computador sem falhas. Têm ritmo, feeling e a coordenação é vibrante. Prepara lá a “brocka” e vê se és capaz de fazer uns passes (com a bola ou de break) na tua street.

Álbum: Ginger (2019).

Outras a ter em conta: Danny Brown “best life”; DJ Shadow feat. De La Soul “rocket fuel”; Jungle Brown “keep it movin”; Sampa The Great “final form”.

24. “Venom” – Little Simz

O outro dizia que a “vida vai torta/jamais se endireita”. Para Simbiatu Ajikawo (nome verdadeiro de Little Simz) por mais que a dita cuja seja uma merda, é também plataforma para “rappar” sobre o que a perturba. Aviso aos misóginos asquerosos: ponham-se a milhas deste veneno alucinante.

Álbum: Grey Area (2019).

Outras a ter em conta: Freddie Gibbs & Madlib “flat tummy tea”; Kevin Abstract “baby boy”; Red Hearse “half love”; Tyler, The Creator feat. Playboi Carti, Charlie Wilson & Jessy Wilson “earfquake”.

23. “A Mí Me Juzgan Por Ser Mujer” – Pelada

Receita: Canadá, língua espanhola e electrónica. E na bimbi podes ainda misturar montes de política e reflexões sociais. Estamos no século XXI, mas há quem pense que as regras da moral e dos costumes pararam há cinco décadas. Para o duo Pelada, é primordial combater as mentes anacrónicas.

Álbum: Movimiento Para Cambio (2019).

Outras a ter em conta: Bad Bunny & Residente “desahogo”; Leyla Mccalla “money is king”; Snow Tha Product “bilingue”; Son Rompe Pera “pajaro cenzontle”.

22. “Work it” (Soulwax remix) – Marie Davidson

Imagina a Dolly Parton a escrever o “9 to 5” com camadas de anfetaminas na tola, enquanto matuta nos números para o Euromilhões e revê o estonteante Fear and Loathing in Las Vegas. Soaria mais ou menos assim. Shake your ass to this “shiiiiit”!

EP: Chasing the Light (2019).

Outras a ter em conta: Sofia Kourtesis “home is where i can dance”; Otha “I’m on top”; Terr “tale of devotion”; Working Men’s Club “club teeth (Gabe Gurnsey remix)”.

21. “Ylang, Ylang” – FKJ

Inspira. Divaga. Natureza. (e põe play) Piano. Encanto. Levita. (e clica no repeat). Água. Sol. Partilha. (e recomenda a alguém no teu grupo do WhatsApp) Delicado. Harmonia. Expira. (junta à playlist)

EP: Ylang Ylang (2019).

Outras a ter em conta: A Winged Victory for the Sullen “our lord debussy”; Gabríel Oláfs “cyclist waltz”; Pierre Daven Keller “corniche kennedy”; William Tyler “venus in aquarius”.

20. “Todo Lo Que Me Falta” – Helado Negro

Roberto Carlos Lange, filho de emigrantes de equatorianos nos EUA, consegue numa penada uma balada que aconchega os sentimentos e, em contrapartida, deixa-nos a meio da ponte ao cantar “ontem encontrei-te de rastos e comi o teu olho”. Diz ele que fez doze versões deste tema. Se chegasse à vigésima, o corpo daria uma investigação CSI…

Álbum: This is How You Smile (2019).

Outras a ter em conta: Bratty “honey, no estás”; James Blake “can’t believe the way we flow”; Maye “tu”; Monsune “outta my mind”.

19. “Maybe I’m the Only One For me” – Purple Mountains

Num globo onde as aparências são alimentadas por neurónios cheios de botox, afirmar de boca cheia que se é solteiro e pouco dado a cenas sexuais pode significar (no prisma dos outros) ser um coitadinho. Na óptica de Purple Mountains, é um rumo magnífico para a sua escrita. Paz à alma de David Berman.

Álbum: Purple Mountains (2019).

Outras a ter em conta: Jeffrey Lewis & The Voltage “lps”; L’Épée “dreams; Pixies “catfish kate”; Surf Curse “safe”.

18. “Smile and Go” – Sault

Quem são os rostos por detrás de Sault? Com dois álbuns no bolso, o seu modernismo vintage (ou será ao contrário?) faz-nos pensar em dar um salto à feira da ladra para questionar os experts em cenas misteriosas. Enquanto nada se sabe sobre estes “fósforos enigmáticos”, o melhor é sorrir através deste baixo upa upa!

Álbum: 7 (2019).

Outras a ter em conta: Acid Arab “ejma”; Amber Mark “mixer”; Kelsey Lu “foreign car”; Lizzo “juice”.

17. “Hallelujah” – Haim

Stop. This is not a cover song (Cohen: Buckley. Ruffus) Este original delicodoce é sobre anjos e uma amiga especial de uma das irmãs Haim. O cineasta Paul Thomas Anderson ( Magnolia, Boogie Nights) assina o teledisco. É este o melhor single do trio até à data?

Álbum: (ainda sem título, mas deve haver novidades em 2020)

Outras a ter em conta: Cate Le Bon “daylight matters”; Olympia “flamingo”; The Rails “cancel the sun”; Yak “pursuit of momentary happiness”.

16. “Cellophane” – FKA Twigs

Ser figura pública ou ter um relacionamento com outra famosa, não é bem o paraíso na terra. Veja-se o caso de FKA Twigs. A moçoila andou com um dos “vampiros da moda” e parece que tudo é feito sobre a ruptura com ele e blá blá blá… E que tal relevar a beleza do novo trabalho e o facto de ser co-produzido por Nicolas “cintilante” Jaar? Cellophane é um misto de formosura, inquietação, ardor e tem um surpreendente videoclip de Andrew Thomas Young.

Álbum: Magdeleine (2019).

Outras a ter em conta: Beth Gibbons & The Polish National Radio Symphony “II. lento e largo – tranquillissimo”; Lafawndah “daddy”; Sudan Archives “did you know”; Vagabon “every woman”.

15. “Jinx” – Crumb

Crumb significa um pequeno fragmento de pão - ou de bolo - e também pode significar uma quantidade muito pequena de algo. A partir de 2019 podes ver como aquela banda indie que tem qualquer coisa que te mói o juízo (no bom sentido). Com ela, “ We all get lost, but we all come back”.

Álbum: Jinx (2019).

Outras a ter em conta: mmmonika “I can’t!”; Stella Donnely “boys will be boys”; Swervedriver “everybody's going somewhere & no-one's going anywhere”; Twin Peaks “under a smile”.

14. “Can The Sub_Bass Speak?” – Algiers

Estaremos perante uma das declarações do ano? Pode um negro pôr em causa a forma de outros negros se comportarem e esquecerem as suas origens africanas? Ou será uma maneira de ironizar com a autenticidade e a originalidade de cada artista? Afinal, quem é o subalterno?

Álbum: There is No Year (disco agendado para 2020).

Outras a ter em conta: AceMo feat. John “where they at???”; “ChopChop “this is not your home”; HMLTD “the west is dead”; Sarathy Korwar “bol”.

13. “Walking in the Dark” – Metronomy

Andar às escuras é das cenas mais fodidas que pode acontecer - a não ser que tenhas uma faixa tão cool que podias passar horas a fio nisso. A culpa é desta batida “suave pop” que envolve, conquista e faz a silhueta brilhar. Ainda estás parado ou ficaste a cogitar uma possível conotação bissexual da letra?

Álbum: Wedding Bells (2019).

Outras a ter em conta: Bibio “old graffiti”; Poolside “greatest city”; Tame Impala “borderline”; Toy “fun city”.

12. “Once” – Liam Gallagher

Quando os Oasis fecharam a loja, o percurso a solo dos irmãos Gallagher tem resvalado para comparações com tempos idos. Digam o que disserem, acredita nisto: Liam Gallagher consegue o CD mais apelativo entre os discos lançados por ele e por Noel em nome próprio. Se rebateres a evidência, podes ter este “mancuniano” a pedir satisfações à porta de casa.

Álbum: “Why Me? Why Not.” (2019)

Outras a ter em conta: Beck “everlasting nothing”; Elbow “my trouble”; Jenny Lewis “hollywood lawn”; Kevin Morby “seven devils”.

11. “Mountains” – The Soft Cavalry

A vida tem outro sabor quando temos a felicidade de encontrar alguém que nos preenche. Depois de juntarem os trapos, Steve Clarke e Rachel Goswell (dos Slowdive) revelam essa sorte com vários momentos de contemplação. Esta montanha - que merecia uma cover dos Arcade Fire ou dos Mercury Rev- é um deles.

Álbum: The Soft Cavalry (2019).

Outras a ter em conta: Bill Callahan “what comes after certainty”; Leonard Cohen “happens to the heart”; Richard Hawley “further”; Tindersticks “tree fall”.

10. “Big” – Fountaines D.C.

O que é que as gentes do punk andam a ingerir no norte da Europa? Depois dos ingleses Shame e Idles, no ano passado, é a vez de Dublin ver o furacão Fountaines D.C. emergir com um LP essencial para entender 2019. À sua maneira, já são grandes sem pressão, sem vaidades e com uma identidade que tem referências em poetas indispensáveis como Jack Kerouac, Allen Ginsberg ou James Joyce. Guitarras ao alto!

Álbum: Dogrel (2019).

Outras a ter em conta: Flat Worms “surreal new year”; The Murder Capital “don’t cling to life”; Talk Show “fast and loud”; Sports Team “fishing”.

09. “Inglorious” – slowthai feat. Skepta

Como diz o provérbio, quem anda à chuva molha-se. Devido ao intenso escrutínio na aldeia global, qualquer político sabe que vive entre o limiar da popularidade e a contestação. Os statements musicais servem de plataforma para o aparecimento de apoiantes ávidos em ter uma voz que os represente (e a arte, como se sabe, ainda é uma arma reivindicativa). O rapper slowthai mostrou ao que vinha com ataques anti-Brexit ou contra a antiga primeira-ministra inglesa, Theresa May. A sua parelha com Skepta é uma das várias glórias contra a propaganda e a lavagem cerebral que estão em todo o lado – incluindo na messy England.

Álbum: Nothing Great About Britain (2019).

Outras a ter em conta: Kate Tempest “three sided coin”; Offset and J. Cole “how did I get here”; Sleaford Mods “when you come up to me”; YBN Cordae “have mercy”.

08. “Dancing With Your Ghost” – Sasha Sloan

O tributo a quem desaparece e deixa o mundo dos vivos ultrapassa, de vez em quando, a solenidade do próprio acto. A norte-americana - com descendência ucraniana - parte de uma experiência pessoal para nos falar da perda e de como lidar com o fantasma, que lhe faz companhia. Esse “pormenor” pode passar ao lado de quem conheceu esta dança por causa da excelente série Euphoria. E será que Sasha está a milhas de ser cantora de one hit wonders? Ao ouvirmos o que já gravou, há material suficiente para acreditar que pode reluzir dentro da pop.

EP: Self Portrait (2019).

Outras a ter em conta: Billie Eilish “wish you were gay”; Clairo “sofia”; G Flip “bring me home”; Taylor Swift “you need to calm down”.

07. “Good Guy” – Julia Jacklin

Um dos desígnios de qualquer ser humano é amar e ser amado, mas nem sempre é possível atingir esse propósito com a mais normal das normalidades (passe o pleonasmo). É por isso que o termo fake pode fazer diferença, sem que isso – neste exemplo – seja mau de todo. Julia Jacklin tinha deixado uma bela impressão com o longa duração Don’t Let The Kids Win (2016), só que este ano eriça a nossa sensibilidade por completo com a ternura de faixas como Good Guy. Quem é que não se importa de ser acarinhado, mesmo sabendo que essa afeição é momentânea (e passageira)? A solidão a isso obriga.

Álbum: Crushing (2019).

Outras a ter em conta: Cigarettes After Sex “heavenly”; Faye Webster “kingston”; Hand Habits “are you serious?”; Weyes Blood “andromeda”.

06. “Colors” – Black Pumas

O céu está a mercê de um olhar que pode servir de indicação meteorológica, ou há quem veja nele uma fonte inesgotável de inspiração. Um dos membros da formação cujo nome nos remete para os históricos (e radicais) Black Panthers, partiu desse mirar embevecido pelas múltiplas cores para construir versos que elevam a união, ou a positividade entre o comum dos mortais. Eri Burton é quem se inspirou e quem trauteia, sendo Adrian Quesado o operário desta irresistível melodia soul. Até onde vão estas pumas? Apanha-as, se puderes.

Álbum: Black Pumas (2019).

Outras a ter em conta: Brittany Howard “stay high”; Channel Tres “sexy black timberlake (SG Lewis remix)”; J.S. Ondara “saying goodbye”; Michael Kiwanuka “light”.

05. “Wait For Now” – The Cinematic Orchestra feat. Tawiah

Formados há duas décadas, os The Cinematic Orchestra regressam com uma dose de esperança que este planeta bem precisa. Trocando por miúdos e citando uma rádio lisboeta, estamos perante “Música Para Respirar”. No meio do barulho generalizado das sociedades modernas, é uma honra dar de caras com este afável “bombom” que podia ser confundido com o melhor dos Zero 7. Wait for now conta com a voz “soulidificada” de Tawiah, autora do recente Starts Again. Não precisas de esperar mais para absorver o som que te dá alento para acreditar. Aqui há fundamento para a meditação.

Álbum: To Believe (2019).

Outras a ter em conta: Alfa Mist “mulago”; Florist “m”; Joe Armon-Jones “try walk with me”; Lana Del Rey “looking for america”.

04. “Love Dilly Love” – Lillie Mae

(Tudo aquilo que pensas que vai ser, mas…) O country é amiúde olhado de soslaio, gostem as pessoas de rock, electrónica, reggaeton ou de metal. Um preconceito injusto se constatarmos os nomes que têm surgido este milénio, casos de Margo Price, Sturgill Simpson, Courtney Marie Andrews ou Kacey Musgraves – isto para não falar de gente com mais tarimba como Lucinda Williams e Emmylou Harris, ou lembrar o valor gigantesco de Johnny Cash na profusão do género.

Nascida e criada em Nashville, Lillie Mae tem tido uma carreira – desde 2013 – pontuada com discos a solo e colaborações com músicos que dispensam apresentações, nomeadamente Jack White ou Willie Nelson. Em Love Dilly Love ficas surpreendido pela audácia presente. Cheira a experimentalismo arrebatador. Revigorante.

Álbum: Other Girls (2019).

Outras a ter em conta: Darrin Bradbury “this too shall pass”; Mattiel “blisters”; Sturgill Simpson “mercury in retrograde”; Vera Sola “small minds”.

03. “Summon The Fire” – The Comet is Coming

Como é vai ser viver no futuro? Quantos chips vamos ter implantados no corpo? A telepatia vai ser a fonte de comunicação? Será possível lermos o que os animais nos querem transmitir? A monogamia vai ser considerada uma aberração e vai ser usual termos entre três a sete parceiros? São inúmeras as perguntas sobre um horizonte complexo que, à partida, tem tendência para simplificar a acção humana no Planeta.

O que não vai ser complicado é achar que Summon the Fire, dos londrinos The Comet is Coming, terá a pujança em 2095 que tem nos dias de hoje. Isto é jazz sem ser molengão, isto é electrónica sem ser chata, isto é a perfeita mutação da criatividade nua e crua. Por favor, deixa este fogo alastrar…

Álbum: Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery (2019).

Outras a ter em conta: DJ Plead “ruby”; Islam Chipsy feat. Eek “el danaysour”; Kokoko “buka dansa”; Radial Gaze “factura”.

02. “What It Is” – Angel Olsen

É lixado esta certeza orquestral: as antíteses do coração são criaturas que jamais nos abandonam. Até os que se julgam imunes às “brincadeiras” dos desejos, ou acham que estando numa relação dita estável está tudo controlado, sabem que nunca se sabe o dia de amanhã.

What It Is pode não ter a visibilidade de All Mirrors e Lark - ambos já com vídeo respectivo -, mas é nela que a autora do essencial My Woman (2016) seduz com o grande jogo das aparências entre dois seres. É que é recorrente enamorarmos o outro pelo ideal que representa na nossa perspectiva, mais do que olharmos para a fotografia toda. E quando chega a realidade – conhecida por decepção – queremos esquecer, esquecer e esquecer. Vá lá que temos “o anjo Olsen” a rasgar as vestes das dores do lado esquerdo do peito, por nós. Resumindo: “ Knowing that you love someone, Doesn't mean you ever were in love”.

Álbum: All Mirrors (2019).

Outras a ter em conta: Marika Hackman “all night”; Mini Mansions feat. Alison Mosshart “hey lover”; Sharon Van Etten “seventeen”; The Stroppies “nothing at all”.

01. “Strange” – Celeste

O romance entre duas pessoas parece fácil de explicar, como se fosse um cálculo matemático em que X gosta de Y e juntos vão dar origem a P e depois a A (sim, podem ser essas palavras…). Pelos mais diversos e inesperados motivos e algoritmos, regressar ao plano inicial não é descabido. E depois de passarmos de estranhos a amigos, de amigos a lovers, é bem possível voltar à estaca zero – que nunca a será, diga-se.

Esta “estranheza íntima” é cantada de forma sublime por Celeste, cantora nascida em Los Angeles que, aos três anos, se mudou para Inglaterra - resultado do divórcio dos pais. Desde os 17 já tem dois EP, sendo Strange um tema que serve de (super) aperitivo para o provável primeiro álbum a chegar em 2020. Com tanto talento, é expectável que um dia seja eleita para cantar ao serviço de James Bond. Ela é a “agente” perfeita para a missão.

Outras a ter em conta: Alice Boman “the more I cry”; El Perro del Mar “please stay”; King Princess “prophet”; Hayley Ross “come back”.

Canções no topo da VICE Portugal em anos transactos: “Colossus”, Idles (2018); “Apocalypse”, Cigarettes After Sex (2017).


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