Saúde

A ayahuasca virou mainstream nos EUA

A bebida psicoativa amazônica está ganhando cada vez mais adeptos norte-americanos. O problema: muitos organizadores das cerimônias não possuem conhecimento para serem nominados "xamãs".
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
15.1.19
A cabin in Iquitos, Peru is prepared for using ayahuasca. Photo by Andrew Lichtenstein/Corbis via Getty Images​
Uma cabana em Iquitos, Peru, preparada para o uso de ayahuasca. Foto por Andrew Lichtenstein/Corbis via Getty Images.

Para quem nunca tomou ayahuasca, imagine-se sentado numa almofada no chão numa sala escura, com os olhos fechados ou abertos, não importa. Você pode ver padrões caleidoscópicos e sentir uma euforia absoluta por todo seu ser. Ou pode estar abraçado com um balde plástico vomitando as tripas, cercado por um pessoal que provavelmente nunca viu antes.

Além do choro, vômito ou risadas, todo mundo fica em silêncio exceto pelo líder do grupo – um xamã, profissional de medicina tradicional, ou seja lá como você vai chamar essa pessoa – que canta icaros, melodias tradicionais sul-americanas com foco na cura, criadas especificamente para acompanhar cerimônias de ayahuasca e ajudar a te guiar pela jornada. Às vezes chamada de “a avó” ou “yage”, diferente de outros psicodélicos como o LSD ou cogumelos com psilocibina, a ayahuasca não é uma única substância, mas uma bebida do cipó de ayahuasca (Banisteriopsis caapi) e das folhas de chacruna (Psycotria viridis), que contêm o poderoso alucinógeno DMT (dimetiltriptamina).

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Como a ayahuasca contém DMT, a bebida é ilegal nos EUA e em muitos outros países. Mas parece que isso faz pouco para conter o aumento de pessoas experimentando a droga. Em comunidades da Califórnia, Havaí e Nova York, onde você encontra candidatos passando por cerimônias de ayahuasca, a droga está ganhando popularidade entre uma população crescente que necessita de cura no país, incluindo Michigan, partes do Meio Oeste e Kentucky. Isso acontece no submundo, entre grupos de amigos próximos, por boca a boca, ou em comunidades da internet onde xamãs podem compartilhar informação.

“Toda grande cidade do país tem algum tipo de cena, tem sido uma explosão nos últimos anos em lugares como Nova York, São Francisco e LA. Com certeza tem ayahuasca sendo servida toda noite em algum apartamento ou academia de ioga por toda parte”, diz o escritor especialista em drogas Lex Pelger, que se foca em bioquímica e sociologia. “Todos os estados americanos têm pessoas fazendo cerimônias no underground.”

Mas por que esse boom? “Porque funciona”, ele diz. “É uma droga incrível para saúde mental e clareza, e pode ser excelente para o corpo, acho que por causa do expurgo. É diferente de todas as outras drogas psicoativas que temos.”

Com estimados 16,2 milhões de adultos americanos, ou 6,7% da população sofrendo de depressão, a necessidade de cura vai além do pessoal da contracultura. Fora todos os testemunhos que chamaram tanta atenção para a ayahuasca, há um corpo crescente de evidências mostrando o potencial da droga para tratar vício e transtorno de estresse pós-traumático.

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Apesar de ser classificada como psicodélico, a ayahuasca oferece uma experiência diferente de tomar ácido. Chamar a coisa de “divertida” seria muito simplista, quando não totalmente equivocado. Quem toma a droga faz isso em pequenas “cerimônias” comandadas por um xamã. Para liderar a atividade, “um xamã precisa de anos de treinamentos sob supervisão de um xamã mais experiente, além de inspiração direta das plantas”, diz Bia Labate, diretora executiva do Chacruna Institute for Psychedelic Plant Medicines. Muitos descendem de um legado de xamãs, de famílias Shipibo ou Quíchuas do Peru, Brasil e assim por diante.

Mas, com a ascensão da popularidade da ayahuasca, estamos vendo um aumento de casos de “xamãs” sem qualificação que podem estar se apropriando da cultura e da prática das tribos indígenas sul-americanas. Histórias de abuso sexual e violência envolvendo esses xamãs minam o potencial de cura da bebida, e eles podem colocar pessoas numa posição realmente perigosa, enquanto elas estão num estados mental e físico vulnerável.

Para se tornar um xamã, você precisa ter um relacionamento profundo e íntimo com a droga, e ter experimentado todos os reinos da mente abertos por ela, diz Pelger. “Um bom xamã passou por essas experiências e pode manter um espaço seguro para outras pessoas passando por isso. Há muito charlatões operando para tirar vantagem de pessoas em lugares como Nova York, São Francisco ou Seattle.”

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Enquanto “expurgar” durante a cerimônia é considerado algo que ajuda as pessoas a entender e se curar dos males que as afligem, a ayahuasca é contextualizada dentro de uma prática espiritual. Não é uma bebida mágica. Ela oferece uma janela para os trabalhos diários que precisam ser feitos em seguida para manter a cura.

Os diferentes componentes da ayahuasca podem ser enviados ou contrabandeados para os EUA, às vezes na forma de pós, ou rotulados como outras substâncias como a aloe vera. Em outros casos, eles são cultivados em cantos tropicais remotos dentro do país. Aí são preparados localmente antes da cerimônia.

Pelo mundo, milhares de pessoas abraçam a medicina tradicional como uma alternativa para a psicologia ou psiquiatria ocidental e se volta para a ayahuasca para se curar de trauma, depressão, ansiedade e como ferramenta para bem-estar geral. Na região que cerca Iquitos, a maior cidade da Amazônia Peruana, mais de 100 centros oferecem serviços de cerimônia de ayahuasca a moradores locais, e agora estão atraído visitantes do mundo todo.

A espiritualidade da ayahuasca recentemente foi reconhecida pelo Parlamento Mundial das Religiões – que reúne 10 mil pessoas e 200 fés – e que até 2018 nunca tinha contado com a participação de indígenas da Amazônia. E assim, alguns grupos contam com proteção, incluindo as igrejas do Santo Daime e União do Vegetal do Brasil (que contam com ramos em Portland, Ashland, Bend, Los Angeles, Seattle e Massachusetts), e que têm exceção religiosa para consumir a bebida como um sacramento.

Poucas pessoas dentro dos EUA têm esse tipo de proteção legal para usar a ayahuasca, e portanto não podem se divulgar abertamente sem se colocar em risco. Mas apesar de sua ilegalidade e falta de apoio clínico, a ayahuasca é uma droga psicoativa que está ganhando impulso, enquanto as pessoas procuram novos caminhos, fora do mainstream, para enfrentar o problema global crescente da angústia mental e espiritual.

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