criança refugiada com uma bola de futebol nas mãos
Criança num campo de refugiados na Croácia em 2015. Foto por João Porfírio, originalmente publicada aqui.
crise dos refugiados

Nos campos de refugiados há seres humanos que continuam a precisar da tua ajuda

A crise dos migrantes e refugiados na Europa pode ter "perdido gás" na comunicação social, mas no terreno as coisas não estão melhores. Toda a ajuda é pouca.
15.11.18

O Inverno está aí e, com ele, aquela altura aborrecida de reorganizar o armário, assumir a derrota e guardar a roupa de Verão nos confins da cave, para depois fazer a selecção do que ainda gostamos e doar o resto. “Já não usas isto, vou dar a quem precise” - uma frase que ouvi várias vezes ao longo da vida. Uma frase que saía da boca de uma mãe dedicada aos outros, que dava por si estupefacta com a quantidade de merdas e merdinhas que atulhavam o quarto das filhas. Uma frase de quem procura livrar-se pelo menos um pouco desta onda de capitalismo materialista em vivemos.

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“Escolhe o que queres, o resto damos”, dizia, porque “há muita gente a precisar de casacos agora que vem o frio”. E, duas vezes por ano, lá se fazia a selecção e a doação, para começar o Inverno a saber que, apesar de seres humanos consumistas, que estragam mais um bocadinho o Planeta a cada passo dado, por muito cuidado que tenham, pelo menos fazíamos a nossa quota parte em ajudar quem tem frio a estar mais quentinho, para enfrentar aquela que é, por unanimidade, a pior estação do ano. E aqui estamos nós – já não há como negar, embora o tempo esteja um bocado alucinado como bem sabemos –, uma vez, mais submersos no Inverno, essa altura de seleccionar e doar. Só que, desta vez, sei coisas que antes não sabia.


Vê: "Os jovens refugiados sírios que estão a crescer num limbo"


No Inverno passado estive nos campos de refugiados do Norte da Grécia e, juntamente com vários outros voluntários, passava grande parte do meu tempo a organizar as doações recebidas, para que, a cada dia que chegassem pedidos de roupa ou de itens de higiene, o processo de os encontrar, embalar e levar até ao campo fosse o mais rápido e eficaz possível. Os armazéns das ONGs que distribuem bens a campos de refugiados estão muito organizados, de um lado coisas de mulheres, de outro de homens e, num outro ainda, de crianças.

Prateleiras improvisadas e organizadas por tamanhos, tipo de roupa, etc, para que quando chegue o papelinho com a lista (11 pares de calças mulher, três delas 34, quatro 36 e quatro 38; 37 camisolas homem tamanho M, 5 gorros e dois casacos impermeáveis de mulher tamanho S, por exemplo) seja só correr às respectivas prateleiras, escolher as que estão em melhor estado e enfiar tudo num saco, para ser entregue às pessoas nesse mesmo dia, já que os campos ficam a umas horas de distância do armazém.

Mas, para que assim seja, são investidas horas e horas, dias e dias de trabalho de organização, em graus negativos. Vários voluntários que poderiam estar a fazer muitas outras coisas - já que por aqueles lados toda a ajuda é pouca - andam com sete camadas de roupa vestidas e os dentes a ranger, em correrias por um armazém tão grande quanto gélido, das nove da manhã às seis da tarde. E, a principal razão para a demora, é a condição das doações em si. Algures nesta conversa que eu tinha duas vezes por ano com a minha mãe, que tantas pessoas têm com as suas mães, a tal do “vamos dar o que já não usamos a quem precisa”, entra de rompante o traço egoísta tão característico do ser humano e põe-se, naquele sacalhão de coisas para dar, literalmente tudo aquilo que não se quer - deixando no esquecimento as necessidades reais das pessoas a quem as estás a enviar.

E é assim que, num armazém perdido no meio do nada no Norte da Grécia, uma voluntária portuguesa abre um caixote de roupa acabado de chegar e se depara com camisolas rotas, calças com nódoas, roupa de Verão no pico do Inverno, roupa interior velha e usada, botas com o fecho estragado e sapatos de salto alto – sim, leste bem.

Portanto, este ano, quando fizeres o teu saco de coisas para dar, lembra-te que os refugiados nos campos vivem de doações. Precisam da tua ajuda – principalmente monetária, porque é mais fácil para as ONGs comprarem bens a nível local – e das tuas camisolas quentinhas, das tuas luvas que já não usas e daquele saco-cama que compraste para acampar aquela única vez num festival, antes de descobrires que acampar não era para ti.

E lembra-te também que o importante não é doares coisas só porque sim – o importante é doar as coisas certas, as que lhes fazem falta. Há pouco uso para sapatos de salto alto em campos onde as pessoas vivem em tendas e há zero uso para coisas estragadas, rotas ou manchadas – lá por precisarem de roupa, não quer dizer que tenham que andar com as tuas merdas todas rebentadas vestidas. São pessoas em situações infelizes, não precisam que a roupa que usam as relembre disso. Também não dá jeito que mandes roupa de Verão no inverno, porque os armazéns estão lotados de coisas e organizados para que o processo seja rápido. Guardar roupa para daqui a seis meses é muito pouco prático – até porque estes armazéns são húmidos e o mais provável é que a roupa que está encaixotada meses a fio, quando chegue a época, vá estar mordiscada por ratos e com manchas de humidade.

A maneira certa de doar, para que o teu caixote seja uma ajuda e não mais um peso nos ombros de voluntários que terão de perder tempo a organizá-la, identificá-la, numerá-la e colocá-la no sítio certo é enviar um e-mail prévio às organizações a quem as pretendes doar, para saber o que lhes faz realmente falta. No caso da roupa que te peçam, deves enviá-la já etiquetada, por exemplo um saco com a roupa de homem e o tamanho, outro com a roupa de mulher e o tamanho, porque lembra-te: o teu objectivo deve ser não só que os refugiados recebam o que precisam, mas também que os voluntários lhas façam chegar o mais urgentemente possível.

Como sei que, infelizmente, a muitos de nós nos entra a preguiça nisto de ter que mandar mails para obter listas do que mais lhes falta, eu fiz isso por ti (de nada, agora trata de fazer a tua parte). Tanto nos campos de Atenas como do Norte da Grécia, especificamente na zona de Tessalónica, o que mais necessitam – para além de dinheiro, que isso tens o NIB para transferência em qualquer site de ONGs que lá trabalhem – o seguinte:

Principalmente roupas de homem, é sempre o que se envia menos: casacos e camisolas de Inverno, calças, roupa interior e meias (lembra-te que, tal como tu não gostarias de receber roupa interior usada, mais ninguém gosta. Não sejas mitra e compra um daqueles packs de meias e boxers).

  • Roupa de mulher: roupa interior e meias (novas), casacos e camisolas quentes, calças, collants e leggings.
  • Roupa de criança: casacos, camisolas e roupa interior (NOVA! Repito-me, porque vi muita cueca manchada nos meus tempos como voluntária).
  • Luvas, gorros e cachecóis.
  • Artigos de higiene: fraldas, champô, tampões e pensos (principalmente os últimos), escovas e pasta de dentes, sabonete ou gel de banho.
  • Tendas, sacos-cama, mantas e colchões de campismo.
  • Aquecedores eléctricos.
  • Fervedores de água.
  • Camping gaz (cozinhas de campismo).

Com a redução das ajudas europeias, muitas pessoas estão a viver em situações precárias, em tendas ao ar livre ou dentro de pavilhões enormes e gelados. Enviar botas também dá jeito, mas não tanto como possa parecer – como a maioria vive em tendas, sapatos que se descalcem facilmente são os preferidos, principalmente chinelos que dão jeito para tomar banho.

Infelizmente, no que respeita a esta crise humanitária a procissão ainda vai no adro e, com a actual onda anti-imigração que corre pelo Mundo, o fim está tudo menos à vista. Trata-se de milhares de pessoas com as vidas congeladas, numa nuvem de incerteza e aborrecimento, à espera de um desfecho que nunca mais chega. A viverem em tendas ao frio, vulneráveis a perigos como violações, sequestros e problemas de saúde.

Os líderes e os partidos anti-imigração demonizam esta crise e estes migrantes, tal como o fazem muitos economistas, mas o único "erro" destas pessoas foi fugir da morte, confiando que aqui as iríamos proteger. Sei que, só por ti, não as podes proteger de tudo nem integrá-las por toda a Europa. Mas, podes pelo menos ajudá-las a protegerem-se do clima.

Dá o que puderes.


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