análise

O problema da campanha #MeToo

Falar sobre abuso é fundamental, mas quem exatamente irá escutar o que as mulheres estão denunciando?
18.10.17
Foto: Mandoga Media/DPA/PA Images

No último sábado (14), na esteira da denúncia de mulheres que foram abusadas e estupradas pelo executivo do cinema Harvey Weinstein, a hashtag #MeToo começou a aparecer nos Trending Topics. No Brasil, em abril deste ano uma campanha parecida foi criada depois que uma figurinista da Rede Globo denunciou um caso de assédio cometido pelo ator José Mayer nos sets de filmagens. Após o texto da denúncia — publicado originalmente no blog Agora É Que São Elas da Folha de São Paulo —ter saído do ar por "não ter ouvido o outro lado", mulheres prestaram apoio à figurinista por meio da hashtag #ChegaDeAssédio.

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A mobilização, no Brasil, acabou rendendo oafastamento de Mayer da novela das 8, mas não a sua demissão da Globo. O ator chegou a escrever uma carta como pedido de desculpas, na qual afirmava tque era fruto de uma geração machista, um argumento bastante parecido com o de Weinstein. Ainda assim, a denúncia de assédio da produtora também a jogou no centro de uma polêmica. O que leva a pensar: por que mesmo depois de feita a denúncia, a mulher é também a que mais sofre com ela?

No caso do escândalo em Holywood, a atriz Alyssa Milano tuitou: "Sugerido por uma amiga: se todas as mulheres que já foram assediadas ou atacadas sexualmente escreverem 'Eu também' no status, podemos dar às pessoas uma noção da magnitude do problema". Desde então, a Ebony revelou que uma campanha de mesmo nome e com o mesmo objetivo, mas sem a mesma virulência nas redes sociais, tinha sido iniciada por uma mulher negra chamada Tarana Burke dez anos atrás.

O sucesso da campanha #MeToo atual se deve ao seu alcance — as mais diferentes redes foram tomadas pela hashtag, iluminando a onipresença exaustiva da violência sexual. Muitas pessoas escolheram simplesmente reproduzir a frase do tuíte original; outras entraram em detalhes sobre suas experiências; enquanto outras ainda, como eu, expressaram um relacionamento turvo e ambivalente com campanhas de conscientização como essa.

O fato da criação de Tarana Burke ter sido ignorada, e que agora a campanha é creditada a uma atriz branca famosa, não é irrelevante aqui. É um bom lugar para começar, quando interrogando seu uso, para reconhecer os tipos de pessoas que poderão falar, ou que não serão respeitadas se falarem. "Quem tem a chance de falar, e por quê, é a única questão", como Chris Kraus escreveu na série I Love Dick. Mas outra pergunta a ser feita é: quem vai ouvir quando elas falarem?

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A conscientização provocada pelo #MeToo é útil? Antes de escrever esse texto, senti o mesmo desespero que sinto com as campanhas jornalísticas de "Let's Talk" ["precisamos falar"] sobre doenças mentais. O que começou, neste caso, como um encorajamento bem-intencionado para lidar com a vergonha em torno de um caso tão emblemático, acabou transformado num slogan escorregadio e insignificante que coloca o fardo justamente sobre quem foi abusado.

Quero deixar claro que entendo que há consolo para algumas pessoas na solidariedade provocada por essa campanha, em tornar suas experiências públicas, e eu, claro, não fico ressentida com isso, mas me parece grotesco colocar o fardo da representação sobre as mulheres, já que acabamos com a tarefa de demonstrar nossa dor com tanta frequência. Uma das coisas que acho frustrante em falar sobre abuso sexual é que se espera que você jogue sua história como um trunfo. Se sou objeto de um estupro, sou uma feminazi amarga até explicar que fui estuprada, quando me torno uma flor delicada que precisa de proteção e condescendência. Não há espaço nesse discurso para uma crítica impessoal.

Não estou sugerindo que haja algum poder em se calar e não falar sobre o que você viveu. Quem me conhece sabe que já escrevi publicamente sobre algumas das partes mais dolorosas da minha vida, incluindo o fato de ter sido estuprada. Me arrependo? Não. Mas acho que há algum benefício mais amplo para o que fiz? Não tenho certeza. O que tirei dessa experiência foi que as pessoas, mesmo pessoas boas, ficam horrorizadas e com medo ao se falar sobre as realidades do abuso. Muitas vezes, elas não são capazes de ter uma conversa direta sobre isso. As pessoas te fazem falar e depois não conseguem te olhar nos olhos quando você fala.

"O problema não é que as mulheres têm dificuldade para se considerar a vítima de violência sexual, mas que os homens têm dificuldade para se considerar o agressor."

Minha outra experiência foi a estranha sensação de ter meu abuso consumido vorazmente. Ligações de estações de rádio e jornais inundaram minha caixa de mensagens depois que escrevi sobre isso. O Irish Daily Mail publicou minha foto na primeira página com a manchete "Garota de 18 anos estuprada no Trinity College". Não importava que eu tivesse 24 anos quando escrevi a história, não importava o que aconteceu na minha vida depois daquilo. Eu ainda era — sempre seria — a garota de 18 anos estuprada.

Revivi um pouco essa devassidão nas últimas semanas — eu mesma consumi as revelações sobre Weinstein com algo que não era diferente de excitação, lendo os detalhes, ouvindo com uma fascinação horrorizada o áudio dele coagindo uma mulher atacada por ele. É natural essa inclinação de querer saber. Particularmente como uma vítima de abuso, é quase uma segunda natureza recolher avidamente esses detalhes, e compará-los com os meus. Mas isso me deixou meio enojada, esse zelo com o qual absorvemos o horror.

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O problema com tudo isso é quão violentamente presente a vítima é obrigada a estar na narrativa, e quão passivo é o perpetrador. O problema não é que as mulheres têm dificuldade para se considerarem a vítima de violência sexual, mas que os homens têm dificuldade para se considerarem o agressor. Na verdade, é difícil para todos nós aceitarmos quantos homens que conhecemos já cometeram atos de agressão sexual. É por isso que palavras como "caça às bruxas" são jogadas por aí em momentos assim, porque parece loucura quando você começa a apontar tudo que acontece, parece além da imaginação que tantos homens estejam envolvidos. Como as pessoas ligam violência sexual com maldade, elas não se identificam, ou identificam seus amigos, como parte do problema. Porque esses atos são específicos e contextuais, e nem sempre cinematográficos como esperamos que eles sejam. E há uma razão para eles acontecerem, pequenas justificativas e desculpas com que nos alimentam. Há sempre razões.

Conscientização da escala do abuso não aborda esses problemas. O fato simples é o seguinte: não tenho ideia de como abordá-los também. Eles estão inimaginavelmente enraizados nas fundações da nossa sociedade. A condição de ser oprimida sexualmente é a condição de ser mulher em si. Não passo meus dias considerando meu trauma sexual, ou tendo medo. No entanto, o clima de opressão sexual moldou o bloco básico de quem me tornei, e o que aconteceu comigo. Não há quem não seja afetado pela opressão sexual do patriarcado, porque a cultura em si é construída em cima disso.

No mundo real, onde vivemos, claro que é necessário tomar passos práticos para evitar ataques, permitir queixas, garantir que os perpetradores encarem medidas punitivas legais e sociais. Essas coisas fazem uma diferença tangível nas vidas das mulheres.

Mas o problema maior persiste. Essa violência é parte do tecido das nossas vidas. Nada menos que desmantelar nossos sistemas atuais, descreditar completamente o que hoje consideramos poder, vai obrigar a mudança geral que tanto precisamos ver, que esperamos há tanto tempo.

@mmegannolan

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