Entrevista

Por que é tão difícil impedir abuso sexual na Igreja Católica?

Os mais recentes relatos horríveis da Pensilvânia não serão os últimos. Falamos com um advogado que representa sobreviventes de abuso do clero para entender a dimensão do problema.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
20.8.18
(Foto por JESSICA RINALDI/AFP/Getty Images.)

Na última terça-feira, um tribunal da Pensilvânia, nos EUA, divulgou um relatório sobre abuso sexual infantil na Igreja Católica que era nada menos que explosivo. Apesar de lermos contos horríveis desde quando repórteres da Spotlight do Boston Globe descobriram que padres locais molestavam crianças na Igreja e isso era acobertado sistematicamente, os detalhes no novo documento – de quase 900 páginas – são particularmente perturbadores. O relatório sugere que as estimativas chocantes sobre o número de vítimas são comedidas. Em português claro: o problema é bem maior do que pensávamos.

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“Intimamos a entrega e revisamos meio milhão de páginas de documentos internos de dioceses. Ele contêm alegações críveis contra mais de 300 padres predadores”, diz o relatório. “Mais de mil crianças vítimas de abuso foram identificadas, pelos registros da própria igreja. Acreditamos que o número real – de crianças cujos registros foram perdidos, ou que tiveram medo de dar queixa – está em milhares.”

Para ter uma ideia do que esse extenso relatório significa num contexto mais amplo do abuso sexual na Igreja Católica, como seus membros podem estar respondendo e o que pode ser feito para punir os perpetradores e evitar abuso no futuro, liguei para Michael Dolce. Ele é um advogado que representa sobreviventes de abuso do clero e ajudou a Flórida a repelir seu estatuto de prescrição de crimes de abuso infantil em 2010.

VICE: Como a maioria das pessoas, estou familiarizada com o que aconteceu em Boston, mas menos com casos similares em outros lugares. Podemos começar falando sobre o alcance desse escândalo?

Michael Dolce: Vimos relatórios similares surgindo recentemente na Pensilvânia, no estado de Washington, em Milwaukee e Minnesota. Essa não é a primeira vez, mas como vejo, os relatórios estão se tornando mais e mais específicos, e confirmando que há padrões em termos de uma má abordagem institucional do abuso infantil.

Você pode elaborar sobre como esse último relatório se encaixa numa imagem maior do que sabemos sobre abuso sexual na Igreja Católica? Por exemplo, as táticas de suposto acobertamento são as mesmas por todo os EUA ou elas evoluíram com o tempo?

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Acho que elas são bem típicas do que vemos por toda a Igreja Católica – e não só nela, mas em outras instituições. Mas com certeza a liderança da instituição Católica tem sido particularmente intencional em esforços para acobertar relatos de abuso. O que também vimos nesse relatório foi o reconhecimento do grande júri do que sabemos há muito tempo: que quando vemos mil vítimas, sabemos que o número é muito maior. Vendo as taxas de crimes que não são registrados, temos algo em torno de 10 mil vítimas. Essa foi uma descoberta essencial do grande júri – a magnitude e alcance do problema.

Um dos aspectos únicos desse relatório são as recomendações para mudança. Eles enfatizaram mais do que já vi antes a importância das leis de omissão [para queixa de abuso sexual]. Eles disseram para fechar os buracos na lei e não deixar as pessoas ficarem impunes por isso.

Os estatutos de prescrição, que delimitam o tempo em que deve ser feita a denúncia, são um obstáculo para processos criminais?

Sem dúvida. Sabemos que o limite médio para dar queixa é de 15 anos depois do fato. Na maioria dos estados, o estatuto de prescrição diz que esses crimes têm que ser julgados em quatro ou seis anos. Estimamos que, na Flórida, antes de repelirmos o estatuto de prescrição para abuso sexual infantil em 2010, eles barravam 70% de todos os processos criminais.

Como você remove o estatuto de prescrição em um determinado estado?

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Quando comecei esse esforço em 2004, eu não acreditaria se você me dissesse que levaria seis anos. Conheço a lei,e trabalho lá há anos. Já ajudei na aprovação de várias outras leis. Eu sabia o que estava fazendo. Trabalhei para um senador influente – sei como fazer essas coisas. Mas voltando como um cidadão, isso ainda levou seis anos porque eu não conseguia encontrar vontade política para superar a força do lobby da liderança da Igreja Católica. E eles têm o apoio de uma indústria de seguradoras que não queria mais exposição. E claro, a associação de advogados de defesa estava lutando contra isso com unhas e dentes.

Que razões os legisladores dão para se opor a expandir o estatuto de prescrição para ações civis ou criminais? E isso é simplesmente sobre o poder de lobby da Igreja Católica e outras instituições ou é mais complicado que isso?

As táticas empregadas na Flórida são as mesmas usadas em todo lugar. Eles tentam matar a legislação discretamente nos bastidores, nunca deixar ela ir para votação. A maioria dos legisladores sabe que, se você for publicamente contra uma legislação pensada para proteger crianças e trabalhar contra as táticas dos predadores e aqueles que os protegem, você vai pagar por isso na próxima eleição. Então o que eles fizeram na Flórida foi me manter fora do Senado por seis anos. Eles se fecharam em comitês, com emendas e desculpas. Quando a lei chegou ao Senado, ganhamos por unanimidade. Era a coisa certa a fazer – pelo menos publicamente.

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Mas a resistência, quando discutida abertamente, é argumentada com bases financeiras?

A principal tática que vimos na Flórida foi dizer que se a legislação fosse aprovada, veríamos seguros de responsabilidade para gerenciar escolas, creches e ligas de recreação se tornarem inacessíveis. Igrejas poderiam fechar. Creches se tornariam inexistentes.

Bom, o que vimos em estados onde esses estatutos foram repelidos? Isso aconteceu mesmo?

A nova lei de prescrição na Flórida entrou em vigor em 1º de julho de 2010. E posso te dizer agora, não ouvi falar de nenhuma creche, uma igreja que seja, uma única liga de recreação, ser fechada por causa disso. E eu seria a primeira pessoa a apresentar uma queixa. O que vemos são os benefícios de outro lado, onde as seguradoras são mais cuidadosas com as instituições com que trabalham, que elas fazem auditorias e verificam se as melhores práticas estão sendo usadas.

Você mencionou que não viu nenhuma igreja fechar as portas como resultado de uma maior responsabilização. Mas e quanto ao número de membros? Por que as pessoas não estão deixando a Igreja Católica apesar desse escândalo de décadas?

Recebi um bilhete de uma grande amiga minha duas noites atrás, ela e o marido são católicos devotos, sobre a luta deles para distinguir sua fé da instituição. Simplesmente os encorajei de que a fé deles é a fé deles, e que as pessoas que a administram podem fazer algo errado. Mas conheço pessoas que se afastaram por causa disso.

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Mas quando – em que ano – poderemos ver uma responsabilização em toda a nação? Quando isso termina?

Tenho medo de pensar quanto tempo isso pode levar. Há um problema subjacente aqui, que é essa falta de vontade da sociedade de sequer confrontar essas questões. As pessoas não querem acreditar que isso realmente aconteceu. Posso falar sobre um caso em que trabalhei em Gainesville, Flórida. O pastor da minha cliente disse que não acreditava que era possível o pai dela ter agido dessa maneira com ela. Ele estava descrente o tempo todo – incluindo quando testemunhou no julgamento dois anos depois. E ele estava disposto a não ver muitas evidências convincentes. Ele deu uma teoria bizarra de que, de algum modo, minha cliente tinha sofrido lavagem cerebral de um homem que conviveu dez anos com ela.

Sempre que você abre um jornal e vê uma matéria sobre abuso sexual infantil, você lê amigos, vizinhos e parentes dizendo: “Estou em choque”. Em que ponto vamos dizer: “precisamos parar de agir assim, essa é a realidade do perigo que encaramos”?

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