Drogas

Geração Z consome mais cocaína, ketamina e LSD do que se pensava

No Reino Unido, a percentagem de pessoas entre os 16 e os 24 anos a utilizar drogas duras é a mais alta dos últimos 12 anos.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
06 August 2018, 11:53am
Foto: VICE.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

A ideia de que a Geração Z tinha virado as costas às drogas acaba de se tornar menos credível, com novos dados que mostram um pico no número de jovens que consomem cocaína, ketamina e LSD. Na passada semana, o governo do Reino Unido publicou estatísticas que revelam que a percentagem de pessoas entre os 16 e os 24 anos, que usaram qualquer droga considerada de "classe A" (como crack, cocaína, heroína, ecstasy e cogumelos) no último ano – 8,4 por cento – é a mais alta dos últimos 12 anos.

Nos últimos cinco anos, a percentagem de pessoas entre os 16 e os 24 anos que consomem cocaína duplicou, de três por cento entre 2012/13 para seis por cento em 2017/18. Depois de uma diminuição no consumo desde 2011, no ano passado o uso de ketamina entre jovens triplicou comparado com 2015/16. O LSD, ainda uma droga de nicho quando comparada com a maioria das drogas, subiu para níveis de utilização entre jovens não vistos desde 2000.


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Os novos números reflectem descobertas do estudo de 2017 do NHS, realizado entre estudantes, que mostrou um aumento na percentagem de pessoas entre os 11 e os 13 anos que consumiram drogas no ano anterior, de 10,3 por cento em 2014 para 14,8 por cento em 2016. Isso incluiu um aumento de dois por cento para 3,2 por cento de crianças a consumirem drogas de classe A.

As estatísticas foram uma surpresa para muitos observadores, incluindo eu e os autores de um relatório recente, que dizia que a Geração Z – aqueles entre os 13 e 23 anos – estavam a dispensar as drogas, o sexo e o álcool a favor da comida saudável, das redes sociais e dos estudos.

Mas, a verdade é que este aumento do consumo de drogas entre jovens não devia ser uma surpresa completa. Os números derivam de uma recuperação recente, que se seguiu a uma queda significativa desde o começo dos anos 2000 do consumo de drogas entre jovens e entre a população em geral. Por uma estranha coincidência, parece que os britânicos começaram a usar mais drogas logo depois de, em 2012, David Cameron dizer que não havia necessidade de reavaliar a política de drogas do governo, porque consumir drogas estava fora de moda.

Que mais jovens estejam a usar cocaína não foi tão chocante. A droga é mais pura, mas o preço médio da grama continua relativamente baixo, mesmo com alguns traficantes a venderem o que afirmam ser produto de 90 por cento de pureza a 134 euros. As discotecas estão a fechar por todo o país, mas isso levou à ascensão de um novo tipo de bar de luxo, onde a cocaína parece sentir-se em casa.

A ketamina já é mais estranha e, tal como a cocaína, a sua popularidade não cresceu só entre os jovens, mas também entre os adultos. A droga estava em ascensão, até que uma escassez do produto em 2012 cortou o seu consumo. Talvez a ketamina mais pura vendida por fabricantes na dark web - para além de uma ascensão da cultura de festivais e do uso de outros psicadélicos, como o LSD – tenha encorajado mais pessoas a experimentar K.

“Acho que isso mostra que temos que ter em conta as nuances e não nos fixarmos nas primeiras ideias”, diz Chloe Combi, autora de Generation Z: Their Voices, Their Lives. “Sim, bebida, cigarros e outras drogas estão em declínio na cultura da Gen Z, mas, claramente, nem todas. Em tempos de incerteza, as pessoas gostam de fugir um pouco da realidade. Além disso, a Geração Z é propensa a assumir riscos, o que pode ter alguma ligação a este aumento do uso de drogas”.

Combi diz que não está surpreendida com o pico de uso de cocaína entre os jovens: “Estou a observar uma grande aceitação da cocaína entre as classes e isso é algo óbvio. Em alguns sítios, o preço ronda apenas os 35 ou 45 euros, o que é viável para o pessoal mais velho da Geração Z e millennials mais jovens. A cocaína tem um apelo entre as classes – jovens adultos, ricos e pobres, não se importam de ser vistos a cheirar. Vês desde jovens traficantes de rua a putos bmilionários da Gen Z em discotecas a cheirar cocaína”.

Mesmo que os novos números mostrem um aumento no uso de drogas entre jovens, isso não significa necessariamente que as estejam a consumir assim tanto. O professor Harry Sumnall, especialista em consumo de drogas da Universidade Liverpool John Moores, aponta que “enquanto os mais jovens relatam a utilização de certas drogas no ano anterior, parece que não há muitas evidências de que isso se traduza em consumo regular ou frequente”.

Sumanll aponta que os dados do estudo do Ministério do Interior mostram que a maioria dos jovens que usam drogas de classe A fazem-no esporadicamente. Por exemplo, no ano passado apenas 12,8 por cento dos consumidores de cocaína entre os 16 e os 24 anos disseram que utilizaram a droga mais que uma vez por mês, comparando com 26,8 por cento em 2008-09.

“A queda geral no consumo [desde o começo dos anos 2000] ainda se sustenta, apesar de novos dados nos lembrarem que, como todos os outros bens de consumo, as drogas também estão sujeitas a influências culturais, de moda e forças mais amplas do que o mercado”, diz Sumanll. E acrescenta: “Por exemplo, dados de apreensão da polícia mostram que a cocaína está mais pura agora do que nos últimos anos, apesar de o preço não ter subido em resposta e a produção internacional parecer ter aumentado devido a mudanças políticas em países de produção e tráfico”.

As tendências de consumo de drogas são influenciadas por mudanças, algumas em escala global e outras relativamente momentâneas. O que sabemos é que a lei tem um efeito insignificante – as pessoas vão usar drogas independentemente delas. É demasiado simplista dizer que a Geração Z se desiludiu com as drogas. Tal como estes números nos relembram, elas continuam aqui. Mas, assim como o comércio de drogas se transformou na última década, com a explosão de diferentes substâncias e a venda online, isso também pode ter acontecido com as circunstâncias em que o uso acontece. Se essas circunstâncias forem drasticamente alteradas, seja um resultado de novas drogas ou novos modos de vida, então as tendências flutuantes que vemos desde os anos 1960 podem ter entrado num curso inteiramente novo.


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