Viagens

Fotos dos pilotos indianos que enfrentam o "Poço da Morte"

Sem capacetes, sem gaiola de protecção, a 100 quilómetros por hora.

Por Andrea Au
25 Maio 2018, 4:33pm

All photos by Ken Hermann and Gemma Fletcher

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

O "Poço da Morte" é uma atracção de feiras bastante conhecida na Índia. Os espectadores pagam 40 rupias (50 cêntimos) para verem pilotos a subir pelas paredes de 20 metros do poço de madeira. Depois, saem dos carros pelas janelas enquanto este anda às voltas, 20 vezes por dia, 11 meses do ano.

O fotógrafo Ken Hermann e a directora artística Gemma Fletcher documentaram um grupo destes condutores na feira de Solapur. Falámos com Ken para saber mais sobre esta tradição itinerante, a sua presença na cultura indiana e sobre como estas pessoas lidam com a ameaça constante da morte ou de se magoarem.

VICE: Olá Ken, conta-me tudo sobre este grupo de artistas de feira que acompanhaste.

Ken Hermann: o grupo formou-se há quatro anos. São liderados por um gajo chamado "Boss Man". Foi mecânico e os condutores costumavam ir à sua oficina quando precisavam de manutenção ou de reparar os carros, o que lhe deu o conhecimento ideal para entrar na indústria e. A maioria dos membros do grupo são da província Uttar Pradesh, no norte da Índia. Estivemos com eles na feira de Solapur, mas depois disso foram para Markanda. Agora estão a actuar no estado de Maharashtra.

Há eventos parecidos nos EUA e na Europa. O que é que torna a versão indiana diferente?

A grande diferença é que a segurança não é um problema. Não usam capacetes, por exemplo. Mas, dito isto, a mulher condutora [Radha], em que nos estávamos a focar, conduz há 20 anos e nunca teve um único acidente. Por isso, pode não ser seguro mas, se souberes o que estás a fazer, acho que consegues que corra bem.

Há condutores que tenham morrido?

Nenhum dos riders morreu, mas já houve feridos. Houve um acidente em 2016 em que um carro capotou a meio de um espetáculo.

Qual foi a coisa mais chocante que viste enquanto os acompanhavas?

Talvez tenha sido quando a condutora, Radha, trepou ao tejadilho do carro enquanto conduzia. Foi assustador. Mas, mais chocante foi estar dentro do poço enquanto três ou quatro carros giravam acima de mim. O barulho era inacreditável e havia muito barulho e poluição, porque não há vento dentro do poço. Senti-me um pouco paranóico - tipo e se um carro me caísse na cabeça?

De entre todas as pessoas que conheceste, que história é que mais ficou contigo?

Acho que a da Radha, porque no principio o "Boss" não queria que ela guiasse. Não acreditava que ela fosse capaz. Tinha apenas 13 anos na altura. Ele disse-lhe para ela voltar para os pais e pedir-lhes permissão. Foi o que ela fez, eles disseram que sim e ela voltou e fez uma corrida de teste. O "Boss" percebeu que ela queria mesmo aquilo e que era capaz. E hoje é a mais bem paga, porque atrai mais audiência.

Porque é que ela atrai mais audiência?

Bem, pensei que talvez não fosse tão respeitada por ser mulher, mas na verdade foi quase o oposto. Era muito respeitada pelos outros e eles olhavam por ela. Acho que grande parte do público eram homens porque é perigoso com os motores e tudo isso. Talvez isso seja a razão pela qual não se encontram muitas condutoras mulheres e se torna tão único ver a Radha.

Quão proeminentes são estes "poços da morte" na Índia? Ainda são populares?

Alguns estados começaram a bani-los. Já não se podem fazer corridas em Delhi e acho que é uma questão de tempo até que sejam banidas pelo país inteiro. Já não há tantos riders de poços como costumava haver. Talvez outra questão seja o tempo, porque demoram uma semana a preparar as coisas e depois correm durante 10 dias para, no fim, desmontarem tudo outra vez e irem até ao proximo sítio. É como um circo tradicional antigo e eles vivem na estrada durante 11 meses do ano.

Achas que é uma pena que esta forma de entretenimento esteja a morrer? Ou pensas que o valor do entertainment compensa o perigo?

Sim, acho que é uma pena. Estas pessoas escolheram fazer o que fazem. Talvez pudessem considerar usar capacetes, ainda assim. Algumas das motas, por exemplo, parecem ser bastante merdosas. Entre cada espetáculo há uma espécie de mecânico de voo que tem de verificar cada mota para garantir que podem correr. Parece tudo muito confuso mas, na realidade, eles sabem o que estão a fazer. Acho que guiar um carro numa estrada indiana aaba por ser um risco maior do que guiá-lo num poço. Arrependo-me de não ter experimentado guiar, porque tive a oportunidade enquanto lá estive. Não as motas, mas os carros. E, estupidamente, disse que não.

Para veres mais fotos e sabres mais sobre o trabalho de Ken e Gemma visita o site.


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