Se estás a sofrer por amor, talvez estejas a amar de forma errada

Até a cultura pop já percebeu que o ideal de amor romântico nunca esteve no Tinder.

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jun 14 2018, 5:50pm

Cena do filme Medianeras. Crédito: divulgação

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Infelizmente, este não é o guia definitivo para te dares bem no amor. É mais sobre o modelo que tu e eu seguimos: mesmo com o Tinder aberto e a gastar o dedo, não encontramos um amor correspondido ou, quando namoramos, ficamos a descabelar-nos pela @. Talvez o problema seja o que nos é ensinado: o amor romântico. Antes de tirar as minhas próprias conclusões, perguntei-me: será que a cultura pop, que tanto consumimos, está a tentar dizer-nos algo que ainda não percebemos? Mergulhei em livros e filmes para colher o máximo de referências e tentar entender esse mal que assola tantos corações juvenis.

O amor romântico pode estar bastante próximo. Basicamente, é aquele que alimenta fantasias de que tu e o teu parceiro são um só, que se completam; onde um é a salvação e a razão de viver do outro; onde quem ama não deseja outra pessoa; em que controlo, ciúme e posse parecem adequados ou fofos – o que é uma grande armadilha para acabar a cair em relações abusivas. Essas idealizações só estão a fazer mal às pessoas, porque a qualquer momento podem perceber que, simplesmente, nada disso existe como nos é ensinado. Até porque a maioria das pessoas deseja outras pessoas e tem um ego e uma auto-estima para alimentar, cada um à sua maneira.

"Apaixonar-se por cinco fotos do Tinder e seguir a pessoa em todas as redes para deduzir a vida toda dela ou idealizar quem ela é para depois acabar frustrado não é bom para ninguém"


Essa história de uma pessoa se apaixonar por cinco fotografias do Tinder, ou seguir a pessoa em todas as redes e deduzir a vida toda dela ou idealizar quem ela é, para depois acabar frustrado, não é bom para ninguém. É bom amar, mas amar pessoas reais em relações reais. É coerente amar como a pessoa é, assim como tu queres ser amado pelo que tu és. As redes e aplicações, apesar de em teoria terem o objectivo de unir pessoas, nem sempre unem realmente. É muito um misto de insegurança e carência confundida com amor. A comédia romântica Ele não está assim tão interessado (2009) aborda como criamos justificações para mascarar a verdade ou acreditar que o facto de a pessoa nos tratar mal é uma prova de que ela gosta, sim, de nós.

Não estamos a saber modificar esse modelo semi-carcerário romântico e adaptá-lo ao que realmente somos e vivemos. Não digo isto numa de destruirmos o namoro, até porque cada um faz o que quiser. Talvez seja mais uma necessidade de auto-conhecimento e uma reflexão sobre estas ilusões que criamos sobre as pessoas e algumas doses intensas de amor próprio antes de entrar ou continuar numa relação. Acrescenta também uma abertura para aceitar que ninguém completa ninguém, ciúme é insegurança e não é saudável nem fofo – e que fechares o teu parceiro numa relação é mau para os dois.

"Ninguém completa ninguém, ciúme é insegurança e não é saudável nem fofo"


Para chegar a toda esta conversa, comecei por me indignar ao ver o filme Medianeras (2001), que tem toda uma narrativa super realista e acaba por ser igual a todos os outros filmes: utópico. Também procurei referências literárias sobre - e aqui posso citar o optimista autor Anthony Giddens em A Transformação da Intimidade - Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (1993).

Giddens já falava muito sobre a influência da independência da mulher nas relações amorosas, que dificulta um pouco o ideal de casamento, que antes era uma necessidade sócio-económica para quem queria sair de casa dos pais. Hoje em dia somos muito mais tipo The Lobster (2016) que tipo Cinderella (1950).

Cena do filme 'The Lobster'. Crédito: divulgação

No Brasil há uma psicanalista que se especializou no assunto: Regina Navarro Lins. O seu último livro, Novas Formas de Amar (2017), fala muito sobre a necessidade de desapego do ideal de amor romântico para termos relações saudáveis. O Aziz Ansari também tem um título relacionado, com um estudo sociológico extenso, Romance Moderno (2015).

Então, antes que comeces a publicar no Twitter que queres um amor tal e qual o do Príncipe Harry e da Meghan, ou antes que digas que perdeste a tua esperança no amor quando a Fátima e o Bonner se divorciaram, pensa em como é que procuras a tua individualidade, se tens medo de te apaixonar e vives a proteger-te disso quando, ao mesmo tempo, podes estar a contradizer-te ao desejares uma relação monogâmica estável.

É realmente isso que queres, ou é simplesmente uma necessidade que só se repete porque está instalada - assim como muitas outras coisas - na mentalidade que a sociedade prega? Se é para estar aberto a desconstruções, talvez essa seja uma necessária - talvez até para a tua saúde mental. E a do teu coraçãozinho também, que não aguenta mais ser ignorado ou sofrer numa relação má só para teres um namorado.


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