Drogas

Tudo o que tens de saber sobre a utilização de óleo de CBD para dores e ansiedade

Encontrada na canábis, a substância pode ajudar a debelar dores de cabeça, dores musculares, ansiedade, entre outras coisas. Mas, o que dizem os estudos?

Por Markham Heid; Traduzido por Madalena Maltez
22 Junho 2018, 2:47pm

Imagem: Joe Amon/Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

James Joliat, um produtor de vídeo de 35 anos, natural de Denver, Estados Unidos, há muito tempo que sente dores nos músculos e articulações - principalmente relacionadas com lesões desportivas. Joliat diz que começou a procurar medicamentos naturais como alternativa aos comprimidos e emplastros recomendados pelo médico. Depois de experimentar pomadas caseiras com compostos de diversas plantas - coisas como arnica e açafrão -, acabou por encontrar uma pomada tópica de canabidiol (CBD).

“Passo a pomada no tornozelo depois de uma caminhada, ou na parte de baixo das costas e sinto que realmente penetra e tem boas propriedades anti-inflamatórias”, diz. E acrescenta: “Também me magoei no ombro e sinto que isto ajuda muito a debelar a dor”. James Joliat já usa CBD tópico há vários anos com bons resultados e, recentemente, ingeriu óleo de CBD. Uma experiência “maravilhosa”, garante: “Senti-me super relaxado – tipo uma sensação anti-ansiedade. O meu corpo ficou completamente mole, mas não como se estivesse cansado. Foi muito bom, mas sem me deixar mocado”.


Vê: "CBD: a canábis 'light'"


A experiência de Joliat com CBD é comum. Alguns estudos informais sugerem que, hoje em dia, há muitas pessoas que estão, pelo menos um pouco, familiarizadas com o canabidiol - ou por terem usado, ou por conhecerem alguém que usou. Mas, mesmo quem utiliza não parece saber exactamente o que é e se há ciência real a apoiar os seus benefícios.

O que é CBD?

“Canabidiol é um composto encontrado na planta de canábis”, explica Jerzy Szaflarski, professor de neurologia e director da Divisão de Epilepsia da Universidade de Alabama, Birmingham. Szaflarski explica que a canábis contém cerca de 500 compostos diferentes e alguns deles - como o CBD e o THC - interagem com certos receptores de químicos no sistema nervoso humano. Mas, ao contrário do THC, o CBD não é psicoactivo - ou seja, não causa nenhum tipo de moca. Apesar disso, a DEA classifica o CBD (e outros compostos da canábis) como uma substância tipo I, o que torna a sua venda ilegal em muitos estados americanos.

“O cérebro tem estes receptores que respondem aos endocanabinóides, que são neurotransmissores produzidos naturalmente no corpo e no cérebro”, salienta por sua vez Jerald Simmons, neurologista do Comprehensive Sleep Medicine Associates, de Houston. E acrescenta: “Alguns dos canabinóides da planta são muito parecidos aos endocanabinóides do cérebro e actuam nos mesmos receptores”.

O sistema de endocanabinóides do sistema nervoso ainda não é bem compreendido. Mas, acredita-se que tem um papel activo na regulação da dor, sono, humor, memória, apetite e outros processos cognitivos e físicos. Como o CBD é capaz de imitar as acções de alguns químicos naturais do cérebro, os seus potenciais benefícios terapêuticos são amplos, mas - nesta altura - nebulosos. “Sabemos que o canabidiol modula o sistema de endocanabinóides, mas não sabemos como”, justifica Szaflarski.


Vê o primeiro episódio de "Weediquette"


Há, no entanto, algumas teorias. “O THC” - o composto mais famoso da canábis e que realmente dá moca - “trabalha directamente no sistema de canabinóides, o que significa que se liga a receptores e imita alguns dos nossos próprios endocanabinóides”, adianta Igor Grant, professor e presidente de psiquiatria da Escola de Medicina de San Diego. Mas, a interacção do CBD com o sistema de endocanabinóides é mais subtil. “Normalmente, essas moléculas sinalizadoras de endocanabinóides são quebradas por enzima e uma coisa que o CBD faz é interferir com as acções dessas enzimas”.

Grant diz que isso pode levar a um “amortecimento” ou abrandar alguns processos neuroquímicos, incluindo aqueles ligados à dor. “CBD também pode reagir com outros receptores, como aqueles para serotonina, e pode ter acções que reduzem moléculas inflamatórias produzidas sempre que um tecido é lesionado ou uma bactéria entra”, diz. “Mas não conhecemos os mecanismos.”

Posso tomar CBD para tratar a dor?

Se falares com consumidores, ou se passares algum tempo nos fóruns da Internet dedicados ao assunto, vais ver que muita gente acredita que o CBD tem benefícios para a dor e inflamação. Alguns estudos com ratos ligaram tratamentos com CBD tópico a uma quebra na dor e inchaço relacionados com artrite e mais investigações sugerem que o composto pode ajudar a aliviar dores de cabeça.

O estudo relacionado com as dores de cabeça ligou o CBD a taxas mais baixas de ansiedade (como a ansiedade muitas vezes causa dores de cabeça, segundo os autores o CBD pode ser um remédio plausível para o problema, se esses benefícios anti-ansiedade forem legítimos, claro). Grant diz que estudou a literatura disponível sobre CBD e ansiedade e assegura que parte dela é interessante.

O especialista menciona, por exemplo, um estudo brasileiro, que descobriu que pessoas que têm medo de falar em público se sentiam menos ansiosas e desconfortáveis sobre a fobia depois de tomarem CBD, quando comparado com pessoas que tomaram um placebo. “Também há algumas provas de que o composto pode reduzir sintomas psicóticos em pessoas com esquizofrenia e transtornos psicóticos. Mas, nesta altura, ainda há muitas questões em aberto”, sublinha Grant.

Uma área onde o CBD está claramente a ser útil é no tratamento de convulsões de uma forma de epilepsia. Um estudo de 2017 publicado no New England Journal of Medicine descobriu que ingerir CBD diminuía dramaticamente a frequência de convulsões na maioria dos pacientes – uma descoberta que fez a FDA apoiar a aprovação de uma droga que contém CBD para tratamento de alguns pacientes com epilepsia.

Como é que as pessoas usam CBD?

O composto é geralmente vendido como óleo ou pomada, mas também pode ser encontrado em comprimidos, folhas para colocar sob a língua, cremes, soros para o rosto e outros produtos. Alguns consumidores especulam sobre a dosagem apropriada ou melhores métodos de aplicação - incluindo se uma pequena quantidade de THC aumenta os efeitos do CBD, ou se métodos diferentes de administração têm efeitos mais rápidos ou significativos. Alguns produtores de CBD também dizem que o composto tem um efeito cumulativo, é preciso ser usado regularmente para produzir um benefício.

No entanto, Grant diz que, para já, é difícil dizer como é que as pessoas deviam (ou não) estar a usar CBD. “Mesmo onde a erva é legalizada, não sabes quanto exactamente é que estás a absorver. Tenho a certeza que alguns produtores de CBD têm laboratórios e fazem rótulos correctos, mas nenhum deles é tão seguro como um medicamento farmacêutico”, justifica.

A indústria de nutrição e suplementos - que inclui produtos de CBD - é quase totalmente não regulamentada. “A concentração do composto nos produtos é apenas aproximada e não sei o quão bem é que os fabricantes fazem esse rastreamento”, diz Szaflarski. Mesmo se se pudesse confiar totalmente no rótulo de um produto - e muitos produtores de CBD, conscientes do escrutínio sobre a sua indústria, vão longe para garantir aos consumidores a qualidade dos seus produtos -, não há muitos factos concretos quando se trata do tipo ou da quantidade de CBD que uma pessoa deve usar para um problema específico.

Há algum risco em usar CBD?

Alguns estudos mostraram evidências - quase todos de pesquisa em laboratório ou com animais - de que o CBD pode afectar a saúde das células, fertilidade e a quebra e metabolização de drogas no fígado. “Pode haver interações com drogas farmacêuticas”, diz Szaflarski, referindo tonturas como um (mas não único) efeito colateral em potência. Em estudos com humanos, incluindo um que encontrou benefícios anti-convulsivos entre epilépticos, algumas pessoas relataram terem tido diarreia, vómitos, febre e fadiga enquanto usavam CBD.

“Mas, até agora, o principal risco que parece ter diz respeito à acção sedativa, já que as pessoas podem ficar sonolentas”, diz Grant. E acrescenta: “Não li sobre nenhum grande efeito colateral ou reacção negativa, pelo que, até onde sabemos, parece ser algo seguro, mas precisamos de uma investigação sistemática sobre o assunto”.

Apesar de, por agora, termos mais perguntas que respostas, Grant diz que não desconsidera os relatos de consumidores de CBD. “As pessoas dizem 'Comecei a tomar isto e eu e o meu filho sentimos-nos muito melhor', e nunca devemos descartar esse tipo de informação”, justifica. O especialista aponta ainda que muitos medicamentos modernos foram descobertos por investigadores que acompanham de perto essas conclusões de amadores de tentativa e erro. “Mas, ainda necessitamos de estudos que confirmem que todos esses benefícios são reais, que quantidades usar e como usar. São questões que precisam de ser respondidas”, conclui.


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