Saúde

Guia de um cínico para a meditação

Depois de uma série de eventos perturbadores na minha vida, mergulhei de cabeça na meditação para lidar com as minhas ansiedades – apesar do receio que tinha de que a prática fosse só mais uma parvoíce moderna.

Por Graham Isador; fotos por Ted Lamb
06 Maio 2019, 3:47pm

Imagens cortesia de Ted Lamb.  

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Domingo passado sentei-me de pernas cruzadas num tapete de yoga ao fundo de um salão. Ao meu redor estavam dezenas de pessoas – igualmente divididas entre homens e mulheres, na maioria brancos, muitos a rondar os 40 – espalhadas num semicírculo. À frente de toda a gente, um homem de calças ganga e casaco largo de capuz lia a partir de um bloco de apontamentos. O cabelo meio seboso passava-lhe dos ombros. Tinha o maxilar ligeiramente para a frente e exagerava na pronúncia no final de cada frase.

A vibe do gajo era simultaneamente calma e ansiosa, como um professor substituto que acabou de meter ketamina. Nas sete horas seguintes deveria guiar-nos por uma meditação silenciosa. Ao observá-lo, não conseguia ter a certeza se ele era mesmo bom naquilo ou não. O objectivo do exercício era abordar situações com a mente mais aberta, mas quando pagas por uma aula tens certas expectativas. O site apresentava hippies alegres, vestidos de branco perto de uma cascata. A página de contacto mostrava um homem barbudo com olhos gentis e uma senhora que parecia a Stevie Nicks. Esse é o género de cena que te dá confiança para escolheres um retiro de meditação. O facto de o nosso líder ser apenas um tipo normal de casaco de capuz deixou-me um pouco desiludido.


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Depois de terminar de ler as instruções para o dia, tocou um pequeno sino. A vibração ecoou pela sala. Por um momento tudo parou, depois perguntou se tínhamos alguma questão. A mulher ao meu lado levantou a mão. Tinha uns 60 e poucos anos, talvez 70. Endireitou-se na cadeira e falou com um pesado sotaque do Leste Europeu. “Já fiz outro retiro", disse. Enquanto falava, agarrava a t-shirt com força. “Quando voltei para casa, não conseguia parar de chorar. Sabes dizer-me porque é que não conseguia parar de chorar?”.

O nosso líder ficou perplexo. Folheou o seu bloco de apontamentos, olhou para o chão e depois pediu-lhe para repetir a pergunta. “Não conseguia parar de chorar depois do último retiro. Estava em silêncio. Depois chorei e chorei. E quero saber se é normal”, voltou a dizer.

Depois de mais olhares confusos e outro pedido para falar, outra pessoa do grupo assumiu o controlo. Colocou a mão no braço da senhora e garantiu-lhe que o que tinha vivido era perfeitamente normal. Tudo o que era esperado dela naquele momento era que sentisse seus sentimentos. As pessoas à sua volta concordaram com a cabeça e sorriram. O gajo da frente pareceu aliviado. Tocou o seu sininho. Eu revirei os olhos com tanta força que quase caí de costas. Sentir os nossos sentimentos e um sino. Os tons pavlovianos de tudo aquilo pareciam-me demasiado descarados.

O retiro de silêncio faz parte de uma prática de meditação que tenho vindo a cultivar nos últimos quatro meses. Meditação é uma ferramenta que estou a tentar usar para combater o stress e a ansiedade, mas, tal como a maioria das coisas que são boas para mim, também isto me faz sentir idiota. Sempre que medito – sempre – há uma vozinha a sussurrar-me na cabeça: “Achas mesmo que sentares-te em silêncio vai melhorar as coisas? O teu humor variou de ambivalente para merdoso nos últimos 30 anos, mas claro que respirar é que vai resolver tudo!”. Apesar da hesitação interiorizada, na maioria dos dias ainda entro na aplicação Headspace. Tento acompanhar. Tenho insistido, principalmente porque tudo o que tentei fazer antes da meditação seguramente não estava a funcionar.

Nos últimos seis meses a minha avó morreu, a minha mãe fez duas cirurgias, passei três meses a fazer um teste para um emprego de sonho e não o consegui e passei pelo fim de uma relação. Isso combinado com os stresses do trabalho volátil de freelancer, uma enxurrada de notícias sobre calotas polares a derreter e o mal-estar geral da existência quotidiana, parecia demasiado para mim. Para combater o pavor estou a voltar-me para os amigos mais que nunca, mas honestamente, todos os meus amigos – na verdade quase toda a gente que conheço – estão a lidar com a mesma merda.

Burnout, tristeza e raiva parecem as reacções lógicas para o estado geral das coisas e, enquanto fazemos o melhor possível para nos apoiarmos, é difícil não sentir que estamos colectivamente a mijar contra o vento. Nenhum de nós tem uma solução. Ventilar repetidamente as mesmas reclamações pode ser catártico, mas não vai resolver coisa nenhuma. Foi por isso que instalei a app de meditação. Porque, pelo menos, meditar – mesmo que seja uma idiotice – significa que estou a ser proactivo.

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Pelo que entendo, o objectivo da meditação é experimentar o nosso ser essencial. Sem pensamentos. Sem distracções. Só um momento de consciência presente calma. Escrever sobre o conceito é difícil porque, por natureza, a meditação é inactiva. O objectivo é não fazer nada. Na prática, isso significa que de entre três a 10 minutos por dia, sento-me no sofá a ouvir a gravação de uma voz vagamente britânica. A voz dá-me dicas sobre tentar não pensar. Há grandes espaços de silêncio entre as dicas. Às vezes, a voz pede-me para conjurar coisas agradáveis, como um raio de luz ou uma bola perfeitamente esférica. Quando termina, a gravação explica porque é que o que fiz foi útil, através de frases de encorajamento.

Sou muito mau na cena da meditação. Não curto necessariamente meditar. Mas, ao longo deste tempo em que tenho praticado, reparei em pequenas melhorias. A minha mente anda um pouco menos depressa. Não estou com tanta raiva. O meu sono melhorou um pouco. As melhorias são subtis de uma forma que não parece particularmente satisfatória. Mas, já é alguma coisa. Quando inocentemente mencionei os resultados a um amigo, ele sugeriu que era efeito placebo. No momento concordei, mas analisando a coisa um pouco mais... como podes qualificar algo deste género? E isso realmente importa? Quer dizer, enganares-te para te sentires melhor é o raio do objectivo.

Ao mesmo tempo que duvido que me vá tornar um defensor público da meditação – não o mencionaria num primeiro date, por exemplo – tenho tentado deixar de lado as minhas suspeitas em relação à prática. Parte disso é uma tentativa de abraçar coisas que acho um pouco constrangedoras na meditação. O fluxo da natureza. Os mantras. Os elementos espirituais. Porque, talvez, abraçar algo novo possa aliviar o cinismo activo que tempera a minha perspectiva. E talvez isso seja bom. Essa foi a mentalidade que me levou ao retiro de silêncio. Antes do retiro, o maior tempo que fiquei a meditar foi 10 minutos, mas pensei que passar directamente para uma aula de sete horas me ajudaria a aclimatar-me mais rapidamente aos seus ideais mais, tipo saltar numa piscina de água gelada.

Quando a senhora do Leste Europeu terminou de fazer as suas perguntas, o nosso líder do cabelo seboso deu início ao dia propriamente dito. Sugeriu respirarmos fundo algumas vezes e eu comecei a cronometrar os outros participantes. Sempre que me envolvo numa actividade em grupo, instantaneamente transformo a coisa numa competição, mesmo que não haja um elemento competitivo envolvido. Fiquei a pensar se poderia ser o melhor meditador do grupo. Depois, lembrei-me que deveria estar presente e tentei concentrar-me na respiração.

Na hora seguinte foi mais ou menos isso. Tudo silencioso. Tentei estar presente, distrai-me, tentei novamente. Comecei aquela manhã decididamente preocupado com a experiência mas, uma hora depois, estava descansado e alerta. Contemplei a possibilidade de existir uma forma de levar a mesma sensação de calma para o meu dia-a-dia. A seguir, a pessoa a dois tapetes de mim começou a roncar e o nosso líder tocou novamente o sino. A minha serenidade desapareceu instantaneamente. O líder disse que o nosso exercício seguinte seria uma técnica de visualização onde fingíamos ser uma montanha. Nesse momento decidi sair para almoçar.

Meditação – afinal de contas – é uma jornada pessoal.


Graham Isador gritou com um taxista quando regressava a a casa. @presgang

Fotos por Ted Lamb @tedlambphoto

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