Poluição

Encontraram plástico em animais nos pontos mais profundos do oceano

Cientistas acharam o material nas entranhas de anfípodes vivendo a 10.890 metros abaixo da superfície do mar.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
​The three species of amphipods collected six hadal trenches around the Pacific rim, (a) Hirondellea gigas, (b) Hirondellea dubia, and (c) Eurythenes gryllus. Image: Jamieson et al/Royal Society
As três espécies de anfípodes coletados em seis trincheiras hadal ao redor do Círculo do Pacífico: (a) Hirondellea gigas, (b) Hirondellea dubia e (c) Eurythenes gryllus. Imagem: Jamieson et al / Royal Society.

Os organismos vivendo nas maiores profundidades do oceano conhecidas pelo homem estão contaminados por plásticos, segundo um estudo publicado na semana passada.

Pesquisadores apresentaram “o registro mais profundo de ingestão de plástico, indicando que é muito provável que não haja mais ecossistemas marinhos não impactados pela poluição plástica”, segundo o artigo publicado no Royal Society Open Science.

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Liderada por Alan Jamieson, ecologista marinho da Universidade Newcastle, na Inglaterra, a equipe examinou o estômago de organismos chamados anfípodes – crustáceos conhecidos coloquialmente como “pulgas do mar” – coletados de habitats nas profundezas do oceano.

Apesar da localização das fossas marinhas variar de águas japonesas a chilenas, todas elas estavam na “zona hadal”, significando que ficam a pelo menos 6 mil metros no fundo do mar. O estudo até incluiu anfípodes coletados na Depressão Challenger na Fossa das Marianas, o ponto mais profundo conhecido do mar a 10.890 metros abaixo da superfície.

Apesar dos habitats remotos, a equipe de Jamieson encontrou fibras plásticas e sintéticas como náilon, polietileno e álcool polivinílico nas entranhas da maioria dos anfípodes que examinaram. “Dos 90 anfípodes individuais examinados, 65 indivíduos (aproximadamente 72%) continham pelo menos uma microfibra ou fragmento”, concluiu a equipe.

Os pesquisadores chamam os habitats hadal de “o último sumidouro” para quaisquer contaminantes que afundam de níveis superiores do oceano. Como organismos que vivem em regiões esgotadas e isoladas muitas vezes evoluem para capitalizar qualquer partícula de alimento, eles têm mais chance de ingerir rapidamente o que chega até o fundo do mar.

Os anfípodes de cada local mostraram níveis diferentes de ingestão de plástico. Por exemplo, todos os organismos da Fossa das Marianas tinham microplástico em seus intestinos, enquanto apenas metade dos anfípodes da Fossa New Hebrides estavam contaminados. A equipe não tem certeza sobre o que causa essa variação entre os locais, mas maiores taxas de consumo parecem correlacionadas com habitats mais profundos.

Mas o que ficou claro é que essa poluição plástica nos oceanos profundos não é só um problema para os organismos que vivem lá. Anfípodes são alimento para peixes, crustáceos e até pássaros na superfície, e alguns de seus predadores são consumidos por humanos. Microplásticos ingeridos por pequenas presas podem ter implicações para toda a cadeia alimentar marinha.

“Quando os microplásticos entram na cadeia alimentar hadal, há uma possibilidade forte de que ficarão presos num ciclo perpétuo de transferência trófica”, alertou a equipe.

Enquanto relatos de animais mortos acabando em praias com os estômagos cheios de plástico se tornaram tristemente comuns, o novo estudo revela que essas carcaças encalhadas são apenas a ponta do icebergue quando se trata da poluição plástica dos nossos oceanos.

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