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O discurso de ódio no 4chan aumentou 40% desde 2015

Analisámos mais de um milhão de comentários do fórum anónimo onde as ameaças violentas contra minorias proliferam.

Por Rob Arthur; Traduzido por Sérgio Felizardo
12 Julho 2019, 10:54am

A bandeira do Kekistão da alt-right num protesto contra a xaria, a 10 de Junho de 2017 na Foley Square em Nova Iorque. Membros do Oath Keepers e Proud Boys, grupos de extrema-direita simpatizantes de Trump que estavam dispostos a confrontar directamente os manifestantes anti-Trump de esquerda, participaram no evento. (Foto por Andrew Lichtenstein/ Corbis via Getty Images)

Este artigo foi originalmente publicado na VICE News.

No 4chan encontras anime, porno e discussões sobre desporto. Encontras também um fluxo infinito de ameaças racistas, memes de revirar o estômago e criticismo cruel e misógino – e, segundo uma análise da VICE News a mais de um milhão de comentários de um dos fóruns mais populares do site, as coisas estão a piorar.

No fórum de alto tráfego “politicamente incorrecto”, os insultos raciais, étnicos e religiosos, ou contra minorias sexuais ou de género, aumentaram quase 40% desde 2015, assim como a proliferação de propaganda neo-nazi. E os utilizadores do fórum também estão a fazer cada vez mais ameaças de violência contra minorias: comentários que incluem quer discurso de ódio quer linguagem violenta, aumentaram 25% no mesmo período.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Depois da recente onda de ataques de nacionalistas brancos em várias partes do Mundo, as plataformas de redes sociais começaram uma ofensiva contra o discurso de ódio. Mas, fóruns anónimos como o 4chan – um site pensado para facilitar discussões entre os utilizadores, através da publicação de textos, imagens e memes – continuam a ser uma mistura tóxica e anónima de ódio, intolerância e misoginia e dão um espaço digital seguro a extremistas violentos.

Perpetradores de recentes ataques terroristas de extrema-direita estavam ligados a fóruns semelhantes. O atirador do massacre de Março em Christchurch, Nova Zelândia, passava tempo no 8chan, um ramo ainda mais cáustico do 4chan. No seu manifesto racista, usou a linguagem nacionalista branca codificada encontrada em ambas as plataformas. O homem que atacou uma sinagoga em Poway, Califórnia, em Abril também frequentava po 8chan. Os dois escreveram sobre os seus planos mortais nos fóruns e foram encorajados por outros utilizadores a realizá-los.

O 4chan ainda é o fórum de imagens mais popular em inglês, atraindo cerca de 20 milhões de visitantes por mês – comparável ao volume de tráfego de um grande site de notícias. Os utilizadores desenvolveram o 8chan e o neinchan, variantes mais radicais do original, em resposta a suposta censura. Estas são comunidades mais pequenas, menos moderadas e ainda mais extremas.

Mas, a intolerância também corre desenfreada no 4chan. Nesta plataforma, o discurso de ódio está presente em um de cada 15 comentários, excedendo o volume de outros sites abertamente racistas. Os utilizadores celebram frequentemente a violência contra minorias e terroristas da extrema-direita. Ex-utilizadores relataram que exposição ao tipo de linguagem, memes e vídeos do site os dessensibilizou para linguagem de ódio e derramamento de sangue, mesmo nas suas vidas offline.

As descobertas levantam questões sobre liberdade de expressão, terrorismo e policiamento de extremismo online. Apesar de plataformas mainstream terem desenvolvido alguns esforços para expulsar supremacistas brancos dos seus sites, elas podem na realidades estar apenas a empurrá-los mais para o underground, onde é ainda mais difícil monitorizar radicalização e ameaças.

O 8chan não armazena arquivos completos, por exemplo, em parte por causa da pornografia infantil presente em muitas páginas. Mas, investigadores acreditam que o 8 e o neinchan têm ainda mais conteúdo supremacista branco que o 4chan. Nenhum site chan pode ser facilmente derrubado, porque operam sob propriedade incerta e podem facilmente mudar de servidor se uma empresa se recusar a hospedar o seu conteúdo. No entanto, governos já o tentaram fazer – apesar do debate sobre se derrubar os chans poderia empurrar os extremistas ainda mais para fora da rede.

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Em 2003, um programador adolescente lançou o 4chan como um local para discussões de anime, mas o site não demorou a sair de controlo. Em poucos anos, racismo e misoginia começaram a ser difundidos em pelo menos um fórum e os visitantes começaram a colaborar em "partidas" assustadoras – incluindo ameaças de bomba e publicação de suásticas em sites infantis. Hoje em dia, o 4chan ainda é lar de discussões mundanas sobre Banda Desenhada e notícias. Mas, é também uma fossa de ódio.

Os fóruns do 4chan mantêm apenas 15 páginas de comentários à vez, mas outro site, o 4plebs, arquiva o conteúdo do “/pol/” do 4chan desde 2014. A VICE recolheu cerca de um milhão de comentários seleccionados aleatoriamente do 4plebs - aproximadamente 10% do total de comentários - e rastreou insultos raciais, homofóbicos e étnicos comuns, além de slogans supremacistas brancos e palavras violentas como “disparar”, “matar”, “esfaquear” e “bomba”.

Desde um ponto baixo em 2016, a utilização de seis insultos ofensivos visando minorias raciais, étnicas ou LGBTQ aumentou mais de 40% no fórum “politicamente incorrecto” ('/pol/') do 4chan, que supostamente alberga discussão de notícias e política e é o segundo fórum mais popular do site. Uma em cada 15 publicações no /pol/ até agora em 2019 incluía um termo de discurso de ódio. Trinta por cento mais gírias ofensivas do que o encontrado em comentários de um site abertamente neo-nazi, o Daily Stormer, como descobriu a análise da VICE News aos comentários.


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Ex-utilizadores do 4chan relataram ver este tipo de discurso mesmo em fóruns menos tóxicos que o /pol/, como o “aleatório” ('/b/') e fóruns sobre desporto. Como os utilizadores do 4chan geralmente usam termos alternativos para substituir insultos raciais, estes números certamente subestimam a verdadeira frequência de discurso de ódio no site. Quem escreve um post pode utilizar uma variedade de erros de grafia e linguagem codificada para se referir a certas raças e etnias. Os utilizadores costumam ligar várias minorias a animais de uma forma claramente racista, mesmo não invocando explicitamente um insulto. Segundo um ex-utilizador, numa situação, os moderadores do /b/ usaram software para mudar todos os casos de comentários usando a palavra nigger para a frase “manteiga de amendoim”.

Desde 2015, cerca de um em cada 10 posts no /pol/ de discurso de ódio também usava linguagem violenta. Às vezes o texto incluía uma ameaça directa a uma minoria; noutras situações, o autor do post insinuava que uma minoria racial estava a cometer ou cometeria violência contra pessoas brancas, um esquema comum de supremacistas brancos. Dezenas de comentários incentivavam outros 4channers a “matarem-se”, geralmente pontuando a frase com uma gíria racista ou homofóbica. Às vezes os comentários faziam ameaças indirectas, especulando que grupos deveriam depois ser aterrorizados, bombardeados ou baleados.

A proporção de comentários que contêm discurso de ódio e violento aumentou também nos últimos três anos, em cerca de 25%. “Acho que estão a modelar o tipo de comportamento com que querem que os outros também se envolvam”, considera Oren Segal, director do Centro de Extremismo da Liga Anti-difamação. Outros comentários são mais ideológicos, regurgitando slogans nazis ou fazendo referências a grupos supremacistas brancos. O uso de uma dezena de palavras de ordem supremacistas brancas – incluindo “heil Hitler”, “sieg heil” e “white power” – atingiu um pico no começo de 2017, quase o triplo do volume comum dos dois anos anteriores.

A ascensão dessa linguagem começou em 2016, cresceu com a eleição presidencial norte-americana e só começou a retroceder em 2018. Comentários que mencionavam o slogan do agora presidente Donald Trump, “Make America Great Again”, tinham 10% mais probabilidade de também conterem um slogan nazi. O volume total de palavras de ordem nazi declinou desde então, mas ainda é 40% mais alto do que antes da eleição de 2016. Essas palavras aparecem em cerca de um em cada 100 comentários.

Mesmo com o 4chan cada vez mais extremo, o tráfico geral do site mais que dobrou na última década. As visitas ao site tiveram um pico no começo de 2018 e caíram significativamente desde então, mas o 4chan continua a estar nos mil sites mais populares do Mundo. Atrai visitantes de todo o Planeta e é ainda mais popular no Reino Unido e no Canadá que nos EUA.

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Os efeitos no mundo real da exposição a grandes quantidades de discurso violento, de ódio e supremacista branco no 4chan e as suas ramificações são em grande parte desconhecidos. Mas, estudos já mostraram que exposição a uso frequente de discurso de ódio dessensibiliza pessoas e pode aumentar o preconceito. Por exemplo, ex-utilizadores do 4chan descreveram como esse tipo de linguagem se torna “normalizada” e pode até “infiltrar-se nas suas vidas offline”. Um deles escreveu num e-mail que se tornou “dessensibilizado para coisas que antes acharia chocantes, sendo o maior exemplo vídeos de tortura e decapitação do ISIS e gore em geral”. Outro ex-utilizador escreveu: “O 4chan parece empurrar as pessoas para o lado mais sombrio da humanidade”.

O aumento do discurso de ódio e violento no 4chan acontece, “provavelmente, por várias dinâmicas sobrepostas”, realça Patrick James, investigador do National Consortium for the Study of Terrorism And Response to Terrorism (START). Paradoxalmente, a ofensiva contra esse tipo de conteúdo em sites mais mainstream, como o Reddit e Twitter, pode ter levado os utilizadores a congregarem-se no 4chan. “À medida que são expulsas de outros sites, o 4chan e o 8chan tornam-se cada vez mais sites onde essas pessoas podem ter uma comunidade e partilhar ideias extremas, sem medo de serem banidas”, salienta James.

E, mesmo que algumas redes sociais tenham censurado ou bloqueado conteúdo extremista, certos líderes políticos abraçam a linguagem supremacista branca. Estudos sugerem que o uso de linguagem desumanizadora por líderes políticos, como as declarações de Donald Trump sobre imigrantes mexicanos serem violadores, ajuda a alimentar comentários racistas na Internet, que depois se tornam mais concentrados em sites como o 4chan. Outros líderes mundiais ecoaram linguagem semelhante nos últimos anos, como o britânico Nigel Farange a apelidar o presidente Obama de “criatura repugnante”. Depois do plebiscito do Brexit defendido por Farange, os crimes de ódio no Reino Unido tiveram um pico. No Brasil, o recém-eleito presidente Jair Bolsonaro fez ameaças contra homens gay e comentários racistas contra populações indígenas e descendentes de africanos.

Os terroristas nacionalistas brancos da Nova Zelândia, Califórnia e Pensilvânia descreveram conexões explícitas com o 8chan nos manifestos em que explicavam as motivações dos seus ataques. “Em cada um desses casos, esses homens sinalizaram a essas comunidades o que estavam prestes a fazer.

E, em pelo menos dois casos, Poway e Nova Zelândia, [outros utilizadores] encorajaram-nos, dizendo que esperavam seguir-lhes o exemplo”, assegura Segal. Investigadores afirmam que muitos aspectos da cultura chan podem predispor os utilizadores ao extremismo. Mas, apesar da ligação entre alguns terroristas e essas comunidades, não é claro se exposição a extremismo em fóruns está correlacionada com violência ou suas causas. “Há muitos estudos que mostram como as pessoas são radicalizadas ou o que as leva para caminhos de radicalização, mas a verdade é que, para todos os tipos de extremismo, não sabemos o que leva uma pessoa a tornar-se violenta e outra pessoa a não seguir um caminho violento”, explica Cynthia Miller-Idriss, professora da American University e especialista em extrema-direita.

Ataques de indivíduos com ideologias extremas semelhantes às apresentadas no 4chan estão a aumentar nos EUA. A proporção de ataques terroristas de extrema-direita quase triplicou nos últimos cinco anos comparando com os cinco anos anteriores, segundo Erin Miler, investigadora da Base de Dados de Terrorismo Global da Universidade de Maryland.

O número de mortes nesses ataques aumentou mais de sete vezes, mesmo excluindo os ataques mortais em Las Vegas e Parkland, onde não está claro se é possível classificar os incidentes como violência terrorista. O FBI anunciou em Maio que, no último ano, houve um aumento significativo nas ameaças de terrorismo doméstico de supremacia branca.

Fóruns de imagem abrigam uma boa porção de material sem relação com nacionalismo branco, o que muitas vezes coloca discurso de ódio e slogans nazis a um clique de distância de discussões de desporto e anime, um fenómeno que Miller-Idriss descreve como “conteúdo de entrada”. “Se entras no 4chan à procura de debates sobre jogos de hóquei, tens muito mais probabilidade de te cruzares com algum tipo de meme neo-nazi do que no Facebook”, garante James. Muito dos outros materiais são divertidos e bem-humorados, o que ex-utilizadores do 4chan disseram que foi o que os levou até ao site numa primeira instância. “Se o mesmo canal que te proporciona gargalhadas também valida os teus pensamentos de ódio, então sim, é algo péssimo”, realça outro ex-utilizador por e-mail.

James e Segal asseguram que membros de grupos neo-nazis e extremistas brancos organizados utilizam muitas vezes o 4chan. James diz que não há muito recrutamento formal na plataforma, mas que grupos usam o site como “teste” para enviar mensagens. Muitos memes populares de supremacia branca, como o Sapo Pepe, tiveram origem ali e espalharam-se por outros sites, sendo em alguns casos adoptados pelo discurso da Internet mais mainstream.

O tom de muitos memes incentiva os utilizadores do 4chan a agirem imediatamente para produzirem uma mudança revolucionária. Um dos esquemas mais populares é a ideia de “genocídio branco”, a falsa teoria da conspiração de que judeus estão a organizar uma substituição em massa dos cidadãos brancos por pessoas não-brancas nos EUA e outros países (a utilização deste termo no 4chan mais que duplicou nos últimos três anos). Segundo Miller-Idriss, visões apocalípticas como esta podem inspirar radicalização, dando a potenciais terroristas uma forma de se sentirem heróicos. Ao levarem a cabo ataques violentos, eles acreditam que estão a atacar um sistema imaginário de opressão contra os brancos.

E os utilizadores do 4chan enchem esses terroristas de elogios. Os perpetradores dos ataques na Nova Zelândia e Noruega são mencionados centenas de vezes nos comentários, com os utilizadores a proclamarem muitas vezes a sua inocência e apelidando-os de heróis, ou dando-lhes títulos como “comandante”. O nível de elogios está explicitamente relacionado com o grau de violência perpetrada – mais corpos levam a mais menções positivas, incluindo elogios específicos à eficiência de um ataque.

Especialistas concordam que esta validação depois dos eventos pode dar a futuros terroristas uma razão para cometerem actos semelhantes de violência. “O papel destas plataformas é o de não só radicalizar, mas também inspirar o próximo ataque – acho que estamos a começar a ver isso nos ataques mais recentes”, alerta Segal.


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