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Viagens

Viver numa carrinha transformada em autocaravana nem sempre é como vês no Instagram

A hashtag aspiracional #vanlife tem mais de 5.4 milhões de posts no Instagram, mas a realidade deste tipo de vida pode ser bastante diferente do que aquela retratada nas redes sociais.

Por Tom Robinson e Freya Marshall Payne
15 Julho 2019, 1:18pm

Ilustração por James Burgess.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O calor é a primeira coisa que sentes quando acordas todas as manhãs na parte de trás de uma carrinha. O menor indício de luz do sol transforma a pequena caixa de lata a que chamamos lar numa sauna, mas o desconforto é esquecido quando abrimos as portas traseiras e olhamos para uma magnífica nova paisagem. A nossa Fiat Fiorino de 1997, era anteriormente utilizada no transporte de pessoas com deficiência. Agora, é a nossa casa e o nosso meio de transporte enquanto exploramos a Europa.

Já tivemos a nossa quota de problemas ao longo do caminho, incluindo uma semana a viver no pátio de um mecânico em Portugal depois de a nossa carrinha ter avariado. Mas, a casa móvel deu-nos a liberdade e a capacidade financeira com que jamais poderíamos ter sonhado na nossa antiga cidade universitária de Brighton, onde as rendas subiam quase 3,5 vezes mais rápido do que os salários. Ainda assim, isto é algo apenas temporário - vamos voltar a arrendar uma casa quando começarmos os nossos mestrados no Outono.



Até recentemente, aqueles que viviam na estrada no Reino Unido eram normalmente os chamados "Irish Travellers", ciganos ou viajantes New Age. O que esses grupos partilhavam - estatuto de outsiders e uma veemente rejeição da sociedade mainstream - tornou-os cada vez mais perseguidos e demonizados pelo governo britânico. Hoje, no entanto, fazemos parte de um ressurgimento da habitação sobre rodas - estreitamente relacionado com a actual crise imobiliária do Reino Unido -, que abrange grupos de pessoas muito diferentes.

Na estrada, encontrámos todos os tipos de tribos nómadas, geralmente todas bastante reservadas. Há os millennials de classe média incapazes de aceder ao mercado imobiliário; os reformados que procuram pastos mais ensolarados ao volante das suas casas-longe-de-casa; os herdeiros e os que sobram dos viajantes News Age e dos ravers, que encontram na Europa melhor acolhimento depois de a Grã-Bretanha ter criminalizado o modo de vida nómada em 1994; bem como pessoas para as quais a casa-veículo é uma forma de afastarem o fantasma de viver na rua rua e manterem um tecto sobre as cabeças.

Woman sitting outside a van
Co-autora deste artigo junto à carrinha Fiat Fiorini de 1997 transformada. Foto cortesia Freya Marshall Payne e Tom Robinson.

Nas redes sociais, homens musculados e fadas em biquini exibem as suas vidas de sonho nas suas carrinhas em praias desertas e noites estreladas - a hashtag #vanlife tem 5,4 milhões de posts no Instagram. Essas fotos são uma espécie de versão moderna das imagens dos hippies viajantes New Age nos anos 70 e 80, mas sem se envolverem em política; é uma indústria de estilo de vida alternativo para a geração millenial que vê os seus sonhos de compra de casa dissiparem-se diante dos seus olhos.

As publicações no Instagram estão rodeadas de anúncios patrocinados de packs de viagens, roupas, aplicações para comprar carrinhas e câmaras de vídeo para documentar "a viagem da tua vida". Alternativamente, podes aproveitar a escapadela temporária do nomadismo por 120 libras [ cerca de 133 euros] por noite numa VW dos anos 60, fazer glamping numa “caravana de ciganos” a fingir ou procurar carrinhas transformadas no AirBnB listadas como “estadias exclusivas”.

Os viajantes originais New Age foram influenciados pela contracultura dos anos 60. Construíram comunidades transitórias em torno de valores partilhados de espiritualismo, anarquismo e ecologia e sustentavam-se através de encontros, comboios, festivais gratuitos e peregrinações a lugares sagrados. Essas crenças e a sua livre circulação por terras privadas colocaram-nos em conflito directo com o governo de Margaret Thatcher, com as tensões a culminarem na Batalha de Beanfield, em 1985. Naquela que foi a maior prisão em massa de civis desde a Segunda Guerra Mundial, 1.300 polícias - incluindo unidades especificamente treinadas em ordem pública e controlo de distúrbios - emboscaram uma caravana de 600 viajantes a caminho do 12º Festival Anual de Stonehenge.

Os viajantes, desesperados para escaparem à emboscada, dirigiram-se para um campo próximo, onde ficaram encurralados. O que se seguiu, como disse um visivelmente abalado jornalista que testemunhou a cena, foram "algumas das mais brutais acções das forças policiais na Grã-Bretanha em muito tempo".

Melanie, de 51 anos, conhecida pelos seus amigos como Scottish Mel, estava a conduzir para Stonehenge quando ouviu sobre os confrontos na rádio. “Passámos os dias seguintes a tentar descobrir onde é que estavam os nossos amigos ... Hospitais, esquadras da polícia, foi horrível. As crianças foram levadas pelo estado e não lhes disseram para onde, os seus animais de estimação foram mortos a tiro. ”O professor Kevin Hetherington, um sociólogo e especialista em viajantes New Age, descobriu depois que 11 crianças foram inseridas no sistema, levadas pelo Estado e numerosos animais foram abatidos.


Vê: "Doze horas na festa pagã do Solstício de Verão em Stonehenge"


Uma improvável testemunha da violência foi David Brudenell-Bruce, o conde de Cardigan, que seguiu a caravana depois de os seus membros acamparam nas suas terras na noite anterior. Ele recorda-se da polícia a espancar uma mulher grávida com cacetetes e a partir janelas e painéis das caravanas. “Quando tentei anotar os números de identificação de alguns dos agentes mais agressivos, vi para meu horror e raiva que muitos dos polícias em questão tinham as suas identidades cobertas”, disse ao Independent. Mais tarde, quando um grupo de viajantes processou a polícia com sucesso por agressão e danos criminais, o Conde foi considerado um "traidor da classe" pelo Telegraph por testemunhar em tribunal sobre o que tinha visto a polícia fazer.

Melanie conta-nos que Beanfield foi parte de um quadro maior de “opressão e violência sustentadas pelo Estado de 1984 a 1994”, tal como os despejos de Rainbow Fields Village em 1985 e a aprovação da Lei de Ordem Pública de 1986, que tornou mais fácil policiar e despejar acampamentos. Esse ataque ao estilo de vida, segundo ela, "deixou-nos quase todos com stress diagnósticos de stress pós traumático grave devido às experiências”.

Os viajantes New Age que permanecem na estrada fugiram entretanto da Grã-Bretanha para a Europa. Hoje, Melanie vive numa casa, mas diz-nos que o tempo que passou a viajar continua a ser “a mais estimada de todas as minhas memórias” por causa da “comunidade, da ausência de julgamento por parte de todos e da liberdade - ainda que tenha sido de curta duração”.

Traveller family with their van
Uma família de viajantes nos anos 80. Foto por John Birdsall / Alamy Stock Photo

Não foram só os viajantes New Age que enfrentaram a ira do establishment britânico: os "irish Travellers" e os ciganos também sofreram um ataque coordenado ao seu estilo de vida. Em 2004, Trevor Philips, o Comissário para Igualdade de Raça, chamou a este tipo de discriminação a "última forma aceitável de racismo", comparando-a à segregação americana dos anos 50. Em 2017, um relatório do Movimento de Viajantes descobriu que 91 por cento dos ciganos e "Irish Travellers" enfrentavam discriminação por causa da sua etnia.

As casas-móveis ainda podem servir como uma tábua de salvação para os mais vulneráveis da sociedade, mantendo um tecto sobre as suas cabeças e proporcionando-lhes uma sensação de comunidade estável. Molly, de 17 anos, que actualmente vive numa autocaravana enquanto trabalha numa fábrica, diz-nos: “A falta de habitação leva muita gente para a comunidade de viajantes; eles podem encontrar alguém que lhes venda uma caravana maltratada por um preço acessível e andam de parque em parque com a comunidade, enquanto tentam recuperar as suas vidas, em vez de dormirem na rua enquanto estão na lista de espera por uma casa”.

Em Bristol, que tem a terceira maior população de sem-abrigos do país depois de Londres, há um número crescente de pessoas a recorrerem às "vans". A cidade foi duramente atingida pela crise imobiliária, com as rendas a subirem 250 por cento mais depressa que os salários entre 2011 e 2017, quase o triplo da média nacional. As autoridades locais estimam que haja 200 pessoas a viverem em veículos, embora um habitante de Bristol, Dan, de 26 anos, ele próprio a viver numa carrinha transformada nos tenha dito que "colocaria esse número mais próximo dos mil, pelo menos".

Van facing a picturesque view
A carrinha dos autores. Foto cortesia Freya Marshall Payne e Tom Robinson

Dan, que trabalha a tempo inteiro num abrigo para pessoas sem casa, diz que, em Bristol, a "vida de caravana" é "geralmente bem aceite": "Acho que é por ser algo que se faz aqui há décadas e por as pessoas de Bristol serem modernas e de mente aberta".

No entanto, alerta que a "van-living" é mais complicada do que o hashtag aspiracional sugere. “Estás bastante vulnerável, parado ao lado da estrada, com carros e pessoas a passarem a centímetros da tua cabeça adormecida. Certa noite, acordei com dois homens bêbados a subirem a escada da minha porta de trás. Outra vez, acordei com alguém a bater-me no carro por acidente, quase que me derrubou da cama", salienta.

E acrescenta: “De um modo geral, se estás permanentemente numa cidade, provavelmente preferirias ter a segurança de uma casa para dormir à noite. Mas, com as rendas a aumentarem de ano para ano e uma cidade que parece estar a explodir de gente, as pessoas tiveram que ser criativas para conseguirem ter um sítio para viver”.

As situações de vida de Molly e de Dan estão muito longe da política dos viajantes New Age e dos influencers #vanlife de hoje em dia, com as suas carrinhas pão-de-forma e posts patrocinados. O que os une a eles é o desejo de maior liberdade e de um modo de vida sustentável, seja devido à precariedade económica, à ideologia política ou ao mercantilismo aspiracional. No entanto, com uma história carregada de repressão governamental, a sua quilometragem - como se costuma dizer - pode variar.


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