educação

Arrabalde: uma escola onde as diferenças servem para aprender mais

Quando chegam, muitos não falam uma única palavra em português. São tímidos e pouco participativos. O trabalho que é desenvolvido na escola do Arrabalde, em Leiria, tem contribuído para uma maior integração dos alunos estrangeiros.
27.2.18
Foto por Ricardo Graça. Cortesia Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Em frente à estátua de bronze do campeão europeu Rui Patrício, em Leiria, está uma escola onde a diferença é também campeã. Dos 61 meninos e meninas que frequentam o 1.º ciclo da escola do Arrabalde, 27 são estrangeiros. Por entre as paredes – algumas a necessitar de alguma intervenção – convivem 12 nacionalidades. E como se entende uma criança do Uzbequistão com outra da China ou da Venezuela? A língua é de facto uma barreira, mas as brincadeiras e a amizade não têm muros. “Existe uma heterogeneidade racial, cultural, económica e social. É a escola das diferenças”, assume a professora Susana Sousa, admitindo que a riqueza desta multiculturalidade é aproveitada por todos.

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A escola pode não estar no topo dos resultados académicos, mas “tem outras competências muito importantes e bastante válidas”, acrescenta Nelson Cardoso, adjunto da Direcção do Agrupamento de Escolas D. Dinis, ao qual pertence o estabelecimento escolar do Arrabalde. E qual a razão de apenas numa escola do 1.º ciclo existirem 27 alunos de origem estrangeira? Coincidência. “A maioria das pessoas que vem de outros países procura uma casa arrendada e há mais oferta na zona da Nova Leiria. Apesar desse lado pertencer ao Agrupamento de Marrazes, eles vêem esta escola da janela e, como há vagas, os pais inscrevem os filhos aqui”, explica Nelson Cardoso.


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A escola do Arrabalde não está na primeira escolha da maioria dos pais. A conotação negativa afasta aqueles que conseguem lugar noutros estabelecimentos de ensino. Nelson Cardoso considera que se trata de uma “fama injusta” e de “preconceito”. Confirmando que os resultados não são de topo, o professor lembra que é quase impossível pedir grandes notas a alunos que não falam nem percebem português. Em 61 crianças, 27 são estrangeiros, ou têm origens noutros países. Angola, Brasil, China, França, Itália, Portugal, Rússia, S. Tomé e Príncipe, Suíça, Ucrânia, Uzbequistão e Venezuela são as 12 nacionalidades que convivem na escola do Arrabalde.

Mas, é atendendo às dificuldades que a direcção tem “discriminado de forma positiva” o Arrabalde. “Temos alocado aqui um grande número de recursos e as crianças têm experiências que noutro lado não teriam”, salienta o responsável, enumerando vários projectos que mobilizam toda a comunidade, como a iniciação à programação, ciências experimentais e música. “Neste caso, é mais uma forma de integrar todos, porque a música é uma linguagem universal, sem barreiras de comunicação”, salienta Nelson Cardoso, afirmando que a direcção procura “encurtar as diferenças” e possibilitar que “todos tenham a melhor educação e as melhores experiências possíveis”.

12 nacionalidades convivem na escola do Arrabalde, em Leiria. Foto por Ricardo Graça. cortesia Jornal de Leiria

Aproveitando o facto de integrarem o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, foi contratada uma professora de língua não materna para que os alunos aprendam português o mais rapidamente possível. “No ano passado tivemos tanto sucesso com esta docente que ganhámos mais horas”, explica Cardosos.

A professora trabalha directamente com o grupo das crianças estrangeiras. A prioridade é desenvolver a compreensão e a comunicação oral. E o adjunto da direcção acrescenta: “Não é dada importância à realização de fichas, mas sim a actividades de carácter mais prático, que estão relacionadas com os temas que a turma está a leccionar. O impacto deste trabalho deixa-nos muito animados. Ao início havia crianças que não arriscavam, eram muito tímidas e agora a sua participação já é diferente na sala de aula”.

Natal substituído pela festa da família

A diferença de culturas nesta escola levou a que, por exemplo, o tradicional encontro de Natal fosse substituído pela festa da família, permitindo assim que todos os meninos participassem. “Fizemos uma apresentação, onde os alunos mostraram como se comemora [ou não] o Natal nos seus países de origem. Em vez do presépio, expusemos casinhas típicas de cada país feitas por eles. Todos aprendem muito com esta multiculturalidade”, revela Susana Sousa.

A docente acrescenta que a maioria das crianças é tímida e pouco participativa, mas quando fala das suas origens “os seus olhos brilham de uma forma…” “Temos de explorar isso. Por natureza, todos são curiosos e até estimulo mais essa curiosidade. Existe um intercâmbio de línguas, o que é óptimo para a auto-estima dos estrangeiros”, garante Susana Sousa. Segundo refere a professora, os portugueses recebem muito bem os colegas de fora. “Todos querem ajudá-los e mostrar-lhes tudo, de tal forma que acabam até por se sentirem um pouco abafados. Para nós é muito enriquecedor”, confessa Susana Sousa, admitindo, contudo, que a língua interfere na aprendizagem, mesmo o português do Brasil.

Os pais têm sido os principais aliados desta escola. A festa correu tão bem que já estão a pensar em organizar outra no final do ano lectivo, dedicada agora às músicas tradicionais. “Temos pais com um grande dinamismo. Não nos podia calhar melhor. Alguns são dinamizadores da cultura da cidade e trazem isso para a escola ajudando a organizar várias actividades”, constata Nelson Cardoso.


Elisabete Cruz é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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