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Sobre “Hypersex” e como acabei a falar sobre raves com um neurocientista

Uma conversa sobre o cérebro, macacos, smartphones, tecnologia e a humanidade no geral, com Zach Mainen, líder do “Collective Motion Laboratory”, um grupo informal de cientistas, que integra o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud.
13 March 2018, 6:47pm
Zach Mainen, neurocientista. Foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

Faz agora um ano que fui convidado pelo Moullinex a trabalhar a direcção criativa do seu mais recente disco, Hypersex. Um álbum-conceito, que rapidamente ultrapassou as fronteiras da música e se estendeu a outras disciplinas. Hypersex é, no fundo, uma declaração de amor à pista de dança enquanto berço de variadíssimas manifestações culturais, sociais e políticas, sempre aliadas a uma lógica de aceitação da diversidade, um fortíssimo sentido de comunidade e integração. Em suma, a pista de dança tem sido e deve continuar a ser um epicentro de amor, celebração e inclusão.

"Hypersex" é um mindset que qualquer seguidor da “club culture” conhece, ainda que não lhe dê um nome. É a “hiperligação” entre pessoas que, em determinado momento, partilham uma experiência colectiva intensa, seja ela motivada por escapismo e alienação, ou contra-cultura e rebelião. Para além das colaborações com músicos, realizadores, artistas, ilustradores e designers e “instituições” culturais, aquela que talvez seja a menos óbvia das parcerias que estabelecemos para este projecto foi, sem dúvida, com o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud.

Música, arte, escapismo, dança, ilustração, design e... neurociência. Cabe tudo em Hypersex, de Moullinex. foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

Hoje em dia, discutimos fervorosamente temas como Inteligência Artificial e as potencialidades que esta encerra de expansão do cérebro humano para uma dimensão que ainda mal podemos imaginar. Aceitamos também a total integração das potencialidades dos smartphones na nossa vida quotidiana, enquanto objectos que temos sempre connosco e utilizamos ao minuto, portanto, também começamos a olhar para os nossos telefones como ferramentas de recolha de dados científicos, que nos permita percebermos porquê e de que forma agimos, pensamos e nos movimentamos.

Mas, antes, na base de tudo isto e de toda a tecnologia que nos rodeia, está o cérebro. A mais perfeita tecnologia de todas. E a adentrar-se nos mistérios do cérebro está o “Collective Motion Laboratory”, um grupo informal de cientistas, liderado pelo norte-americano Zach Mainen, que se tem dedicado ao estudo das experiências colectivas e partilhadas por indivíduos em movimento. Mais especificamente, enquanto dançam. Já estiveram presentes no mítico Boom Festival, onde levaram a cabo uma instalação interactiva com o propósito de tentar captar, amplificar e visualizar a energia criada por indivíduos enquanto dançavam e, assim, entender o quanto influenciavam a experiência colectiva.

Com isto em mente, no dia 29 de dezembro de 2017, a propósito de uma noite com curadoria de Moullinex, juntámos forças com o Lux Frágil para tentar algo novo. Não só captar as energias e sinergias da pista de dança, mas usá-las para controlar o famoso sistema tubular de led do piso térreo daquela que é, provavelmente, a maior instituição da noite portuguesa.

Entre uma panóplia de câmeras de infra-vermelhos, software em chinês (até para quem sabe do assunto), uma equipa de 12 pessoas e muitas horas (diurnas) passadas no Lux, acabámos por não só captar os movimentos da pista, como também os batimentos cardíacos e as ondas cerebrais (yup…leram bem) para manipular e amplificar a iluminação da discoteca.

Nesta sala na Fundação Champalimaud, pensa-se o futuro da investigação na área das neurociências. De Portugal, para o Mundo. Foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

Apesar da premissa parecer muito simples e a experiência ter sido bem sucedida, ao longo deste projecto fui ficando com a sensação que havia muito mais a dizer sobre o assunto. Não se tratava apenas de medir e quantificar variáveis para traduzir em valores e intensidade de iluminação. Isso seria apenas “geeky”. E, sempre que conversei com os membros da equipa, a coisa descambou em três tempos para questões epistemológicas, filosóficas e, por vezes, ideológicas.

Como a maior parte das pessoas que conheço, também conheci o Zach numa discoteca. E, se há coisa que aprendi, é que “à noite dão-se abraços e de dia criam-se laços” (inventei agora), por isso fui visitá-lo à Fundação Champalimaud para lhe fazer algumas perguntas.

O que nos distingue dos macacos? Os nossos cérebros são assim tão diferentes? Será que foi numa rave pré-histórica que ganhámos consciência de nós próprios e do Universo que nos rodeia? Será que havia drogas envolvidas? Se pudéssemos instalar-lhes “updates” do sistema operativo, como nos smartphones, tornar-se-iam eles “humanos”? Estas não foram as perguntas que lhe fiz. São, na verdade, questões que ele levantou enquanto respondia às minhas.

Fundação Champalimaud. Foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

VICE: Quem és tu e o que fazes?

Zach Mainen: Tenho 49 anos, sou um neurocientista americano e já estou em Portugal há mais ou menos 10 anos. Faço, fundamentalmente, pesquisa sobre o funcionamento do cérebro em animais.

Porquê animais?

Porque podemos levantar questões e fazer coisas que, com pessoas, não seriam autorizadas (risos). Ou, pelo menos, não podemos ir tão longe quando se trata de pessoas. Os animais não têm os mesmo direitos que as pessoas… ainda! É uma questão ética, claro. Mas, no fundo também é uma questão ética querermos saber o que se passa na cabeça das pessoas.

E porquê?

Porque o cérebro é importante em tudo o que importa, como vemos o Mundo, o que achamos importante para o Mundo, o que gostamos, o que nos adoece… Se não o entendermos, não nos entendemos a nós próprios e entre nós. Queremos saber mais sobre o cérebro, para saber como a tecnologia pode actuar sobre ele.

É isso que faz a neurociência? Juntar tecnologia ao cérebro? Tipo Cyborg? (suspense!)

Não. Fundamentalmente, é sobre o conhecimento. Conhecer o máximo possível sobre o cérebro permite-nos aplicar tecnologia e com ela fazer comprimidos melhores, fazer as pessoas sentirem-se melhor e, sim, também podemos criar implantes que devolvam ou melhorem capacidades às pessoas. Hoje em dia, a palavra tecnologia está ligada a um imaginário praticamente sci-fi, mas há tecnologias tão mais simples que têm um impacto gigante no nosso cérebro. Viajar de automóvel, por mais simples que pareça, teve um impacto gigante na nossa forma de percepcionar o Mundo, as distâncias e a imagem.

O que é que vocês estudam? O impacto da hi-tech super complexa, ou coisas muito mais básicas e rotineiras?

Boa pergunta. Podemos ver o cérebro como um computador, com inputs e outputs. Como um smartphone! Mas, o hardware só ganha sentido num contexto social. Imagina o quão útil seria o smartphone sem net, sem redes sociais. Bem antes de haver telefones, havia uma “cloud” de pessoas para conversar (risos)… mas, enfim os computadores e smartphones são “sociais”, criados para serem sociais, como os nossos cérebros.

É tipo “art imitates life”, mas a nível científico?

Sim! Por exemplo, se eu tentasse explicar a um alien ou a um romano o que é o teu smartphone e porque passas tanto tempo com ele, conseguiam acabar por entender o que a CPU e os chips fazem, como funcionam as câmeras ou o ecrã. E isso é o que conseguimos hoje em dia fazer. Quando partes o teu ecrã podes mudá-lo e, com o cérebro, podemos olhar para ele e saber que uma parte que processa a informação da retina está danificada e podemos repará-la.

Ok, isso é muito útil, mas, se não entendermos o lado social do processo, estamos a ignorar uma parte fulcral do problema. Então, o cérebro permite-nos comunicar com outros, é isso que nos distancia de outros animais. Não é porque os nossos cérebros sejam assim tão diferentes fisicamente, mas porque desenvolvemos skills sociais e linguagem, que é, fundamentalmente, a “primeira Internet” criada, a ligação entre nós e milhares de outros.

Porque é que estamos “hiperligados” biologicamente? Na verdade é dai que, em parte, nasce a ideia do Hypersex, de uma hiperligação biológica…

Sim, permite-nos criar inicialmente uma linguagem falada, depois escrita, que nos permite guardar informação externa - como num disco externo - e, assim, comunicar cada vez mais e criar civilizações com a mesma cultura e troca de informação entre culturas e voilá... aqui estamos nós. (risos)

Wow, parecia o genérico do Big Bang Theory! Se os macacos um dia fizessem update do sistema operativo conseguiam igualar-nos?

(Risos) Sim, seriam precisas poucas alterações de hardware. Na verdade, é mais software! Mas, sim, não há muito para além desse “click” social e linguistico que nos distancie biologicamente deles. Por isso, no nosso laboratório começámos por nos debruçarmos mais sobre o “hardware” e, aos poucos, fomos pesquisando mais sobre o “sistema operativo” e a levantar questões sobre como tomamos decisões, o que acontece fisicamente quanto temos de fazer escolhas. Daí rapidamente fomos para o aspecto social. Que é imensamente mais fascinante e incompreensível do que o lado físico do cérebro.

"Em parte, Hypersex nasce da ideia de hiperligação biológica entre a humanidade". Foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

Onde se desenha essa fronteira?

É muito difícil para um neurocientista apontar com precisão onde acontecem determinados processos num cérebro. Imagina um smartphone: não consegues identificar onde está o Facebook ou o Instagram, é uma combinação de imensos processos de memória, imagem, comunicação. Não existe uma “área social” no cérebro. As informações todas juntas na nossa cabeça criam uma imagem do nosso Mundo, que não existe para lá dos dados, ou nas cabeças dos outros. E é a tudo isto junto que chamamos de cultura, que determina quem somos, o que fazemos e como reagimos.

Estamos a entrar no domínio da epistemologia, tal como temia. (Risos)
O que sabemos então?

Não sabemos a ponta de um corno.

Depois desta afirmação houve uma conversa longa, que dava outro artigo completamente diferente. Vou passar à frente porque vivemos em tempos muito acelerados e ninguém tem tempo para isto. Mas, acabou com o Zach a dizer que…

Há uma tendência para se pensar que o conhecimento serve para dar respostas definitivas, mas não é bem assim. Serve, acima de tudo, para nos livrarmos de falsos preceitos e mitos. Há séculos que achamos que chegámos ao fim da história e ao fim da ciência. Mas, falando apenas do cérebro, acharmos que chegámos ao limite e que agora vamos ser máquinas, é ridículo. Não temos absolutamente noção nenhuma dos limites do cérebro, mesmo sem o modificar (o que já fazemos)… só Deus sabe, se acreditares em Deus.

Ok, mas depois desta conversa toda, onde é que entra a cena da dança? Porque eu sei que, além do que fizemos no Lux com Moullinex e da vossa instalação no Boom, já há alguns anos que te debruças sobre o assunto.

Sim há mais de 10 - não, 20 anos! Credo, o tempo voa - que estou interessado e fascinado pelo
que acontece a nível neurológico num grupo de pessoas a dançarem juntas. Não só por ser cientista, mas também por causa de experiências pessoais. Penso muito nisso, há uma tensão intensa entre as pessoas a partilharem a mesma experiência social e sensorial de forma comunitária.

Natureza, humanidade, o cérebro a ligar-nos a todos, numa espécie de rede social neuronal. O que é que esta imagem tem a ver com isso? Nada. Mas, foi captada pelo autor na Fundação Champalimaud, com o novo Huawei P Smart.

Mais do que interessante é uma sensação incrível. Mais ainda, se nos distanciarmos e pensarmos o que está por detrás disso, se não nos ficarmos pela experiência e tentarmos estar conscientes do que está a acontecer de facto e o que significa. Hoje em dia, estamos muito mais conscientes de tudo, a toda a hora. Quando dançamos numa festa estamos conscientes e cientes de milhares de aspectos sociais, linguagem social, informação sobre nós e sobre os que nos rodeiam.

Mas, se o nosso cérebro não mudou quase nada desde há milhares de anos quer dizer que estamos a usá-lo de forma diferente?

Imagina: há milhares de anos, eles também se juntavam e ouviam música e partilhavam de forma comunitária as mesmas sensações e emoções, através de rituais e danças, onde possivelmente havia “drogas”, ou alimentos psicotrópicos, que os colocavam no mesmo ”comprimento de onda”? Quem sabe? Há uma teoria que diz que estes contextos sociais partilhados e sincronizados nos permitiram desenvolver linguagem e expressar ideias, para lá de “olha um animal para comer” e começar a falar de sensações, de conceitos abstractos como felicidade, ou raiva ou mesmo da ideia de “deuses”.

Qual é, então, a diferença entre um ritual pré-histórico e uma rave?

Na verdade muito pouca, mas há uma diferença brutal que é a consciência do que te rodeia, de ti mesmo e, claro, da tomada de decisões. Aquilo a que chamamos “meta cognition” - na verdade há quem diga que até os ratos a têm -, a capacidade de deduzir consequências de escolhas e opções tomadas. Se calhar, mesmo há 10 mil anos alguém se perguntava: “Será que devo ir ao ritual hoje à noite, ou digo que estou com dor de cabeça”. (Risos)

Queres dizer que, no fundo, eles não sabiam bem o que estavam a fazer e curtiam muito mais?

Eles sabiam o que estavam a fazer e eram conscientes, nós é que estamos muito mais conscientes de muitas mais coisas. Mesmo que 90 por cento do nosso comportamento seja influenciado por coisas que não controlamos, por mais que gostemos de pensar que conseguimos tomar decisões plenas e que às vezes “estamos só a dançar”, a verdade é que não. Podemos desligar-nos temporariamente da realidade e do dia-a-dia e ter momentos em que baixamos guardas… E é isso que fazemos enquanto dançamos numa festa, mas sabemos muito pouco sobre o nível de auto-consciência que realmente existe num momento desses.

Achas que nos desligamos assim tanto da realidade?

Nós não nos desligamos muito, porque ficamos vulneráveis, podemos ser influenciados e manipulados. Se nós tivermos consciência do que nos rodeia, temos poder de escolha. Escolhemos sempre saber mais, porque podíamos acabar por pôr a nossa vida em risco. Por isso, é uma espécie de defesa. No entanto, podemos tentar medir vários factores e é aí que entra a ciência, para criar hipóteses e um framework que determine uma ideia mais concreta da realidade.

Para o bem e para o mal, porque a ciência pode ser usada para o que nós quisermos, certo?

Claro, podemos usar este método, para criar tecnologia para bombas, ou para coisas incríveis. A ciência e o conhecimento são poder e o poder não é bom nem mau, depende de nós. Como o nosso cérebro, é uma tecnologia biológica, não é boa nem má.

Claro que podemos fazer coisas boas com tecnologia, como por exemplo fizemos no Lux...

Claro. O que fizemos foi juntar várias tecnologias, que captavam a entropia, velocidade e sincronização do público enquanto dançava e usámos essa informação para controlar o sistema de luzes da pista. Mas, fizemos isso de forma subtil. Ficámos num limbo entre uma experiência científica e um projecto artístico, porque no fundo existiam vários factores que não controlávamos. Não reunimos propriamente “data” científica, mas usámos a ciência para criar e amplificar uma experiência social, musical e criativa.

Mas vocês trouxeram artilharia pesada do vosso laboratório! A determinada altura convidámos pessoas para controlar as luzes do Lux com o meu batimento cardíaco e ondas cerebrais! Que tecnologia usaram?

Na verdade a grande parte daquela tecnologia é a mesma que tens no teu smartphone. Dispositivos com um chip que calcula um conjunto de variáveis do acelerómetro, giroscópio, movimento... Enfim, através de um smartphone podemos saber muito sobre os padrões de comportamento e movimento de uma pessoa. Nós construímos outros dispositivos, porque precisávamos de ler informação de todos os intervenientes em sincronia, o que exigia que todos tivessem telefones com as mesmas capacidades e performance, ligação wi-fi, processadores de inteligência artificial… ou seja, há mais trabalho a fazer neste campo. Mas sim, cada vez mais os smartphones processam informação biológica dos utilizadores e são uma ferramenta tremendamente útil na captura e partilha de dados.

"Podemos desligar-nos temporariamente da realidade e do dia-a-dia e ter momentos em que baixamos guardas… E é isso que fazemos enquanto dançamos numa festa, mas sabemos muito pouco sobre o nível de auto-consciência que realmente existe num momento desses" - Zach Mainen. Foto captada pelo autor, com o novo Huawei P Smart.

Ok, por isso é que optaram por câmeras de infra-vermelhos no tecto? Para captar o movimento da pista toda? Na verdade muitas pessoas nem sequer devem ter entendido o que se passava certo?

Sim, no Boom demos a algumas pessoas uns controladores portáteis que emitiam dados para uma instalação visual e acabámos por ter muita gente colada à experiência e não propriamente a dançar. Por isso, desta vez, quisemos que ninguém estivesse a participar individualmente, mas antes a fazer parte de um todo. Se sabiam ou não o que estávamos a fazer era secundário.

Um pouco como o pessoal na pré-história! E chegámos a conclusões relevantes?

Foi interessante ver que não acontece o mesmo numa discoteca que numa festa ao ar livre com luz, porque raramente toda a pista esteve sincronizada. Havia coordenação por vezes em pequenos grupos, mas, pela natureza do “club”, com escuridão e barulho e luzes, não se cria aquela sensação de massa humana. Isto é interessante, porque talvez não baste haver música e muita gente “ébria” para que todos estejam no mesmo “comprimento de onda”.

Por outro lado uma discoteca amplifica o choque destes pequenos “clusters” que não estão sincronizados, mas acabam por se misturar. Há outros mecanismos sociais em acção que apelam a pessoas diferentes de formas diferentes. Quando se deu essa noite do Lux , uma das pessoas que participou na nossa experiência (ritmo cardíaco) veio falar comigo a agradecer e, de repente, já estava a falar com outra pessoa ao lado dela e, eventualmente, acabei a falar do assunto com o taxista a caminho de casa. Acho que isso acontece devido a um mindset comum, que se cria em espaços com música de dança.

Claro, o Hypersex!


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