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Saúde

Segui os piores conselhos da Internet para deixar de fumar

Perdi bastante dinheiro e agora tenho 10 quilos de tangerinas em casa. Mas terá resultado?

Por Alex Norcia
12 Outubro 2017, 4:42pm

Fotos pelo autor

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Comecei a fumar em 2015, um mês depois de terminar um relacionamento longo, porque um editor que admirava disse que era uma boa forma de "respirar fundo". Estava num ponto da minha vida em que não sabia o que ia acontecer no dia seguinte e, na verdade, nem queria saber. Como tudo parecia temporário, achei que fumar também seria temporário.

Dois anos depois, perdi a conta a quantas vezes prometi deixar de fumar, porque não quero morrer (já deitei maços inteiros fora em momentos de raiva, só para, horas depois, revirar o lixo à procura deles). Há algumas semanas, apanhei uma gripe tramada e não fumei durante quase cinco dias. Senti-me mais saudável que nunca, mesmo estando doente, portanto decidi mesmo tentar deixar de fumar. A Internet - Reddit, WebMD, fóruns "deixe de fumar" - tinha-me dito o que esperar: dores de cabeça, tosses, irritabilidade, fadiga. Basicamente, ficaria ligeiramente doente e seria um cabrão para as outras pessoas durante algum tempo, o que para mim também não seria nenhuma novidade.

Muitos desses sites têm dicas de pessoas que conseguiram realmente largar os cigarros. Algumas inspiraram-se em familiares que tiveram cancro, ou em testemunharem os seus bebés a apanharem uma beata do chão. Muita gente garante que qualquer versão de "vaping é uma boa alternativa". Mas, há outros métodos mais variados e originais. Por exemplo: quando sentires vontade de fumar... come um biscoito de cão. Corre à volta do teu quarteirão. Faz uma sandes de peito de peru e cigarros.

David Sedaris recomenda mudares de casa, de preferência para o Japão. Há muitos conselhos deste tipo na world wide web. Não sabia por onde começar, portanto escolhi o ponto mais baixo. Escolhi o que acredito serem as cinco sugestões da Internet mais absurdas para como deixar de fumar e tentei cada uma durante um dia. No fim, encontrei-me esgotado física, emocional e financeiramente.

Dia 1: Passa um cheque de dois mil dólares para uma instituição manhosa, entrega o cheque a um amigo e diz-lhe para enviar o dinheiro se fumares

Comecei numa quinta-feira. Uma sugestão que encontrei no Reddit era a de passar um cheque de dois mil dólares à Igreja Baptista de Westboro e entregá-lo a um amigo, que deveria enviar o cheque para a organização se eu sucumbisse ao vício da nicotina, deixando-me com a culpa de ter ajudado uma causa manhosa.

Como não tenho cheques, amigos de confiança ou vontade de realmente dar dinheiro a esses sacanas por acidente, peço ao meu editor, Brian, para lhe enviar a quantia pelo Venmo logo de manhã. Se não conseguir ficar sem fumar até ao fim da noite, ele pode transferir o pagamento para a sua própria conta (se estás a pensar "Espera lá, não é assim que o Venmo funciona", tens toda a razão. Falo mais sobre isso daqui a pouco). [Nota do editor: Eu disse-te, pá!]

Consegui aguentar durante o expediente com muita força de vontade, ainda que não estivesse realmente a pensar nos dois mil dólares que perderia se desistisse. Depois do trabalho, fui ter com amigos a um bar, uma actividade que geralmente envolve fumar um cigarro atrás do outro. Bebi quatro cervejas. Uma ou duas garrafas mais levar-me-iam a acender um cigarro, por isso fui para casa mais cedo.

Fui-me deitar às 23h00, um pouco embriagado, mas mantendo os meus dois mil dólares. Ou, pelo menos era isso que pensava.

Dia 2: Compra 10 quilos de tangerinas, descasca uma e come sempre que sentires vontade de fumar

Na manhã de sexta-feira, acordei com um e-mail do meu banco a dizer que o meu saldo estava com 400 dólares negativos. A quantia que tinha estabelecido foi realmente transferida às sete da manhã. Em pânico, mandei uma mensagem ao meu editor, pedindo-lhe encarecidamente que me devolva o dinheiro. Ele devolve.

Felizmente, ainda tenho dinheiro suficiente para partir para o próximo conselho: comprar 10 quilos de tangerinas e comer uma sempre que sentir vontade de fumar.

Se não sabes (eu não sabia), 10 quilos de tangerina são uns 30 dólares de fruta. Compro esses 10 quilos. A ideia aqui era "manter as mãos ocupadas" e proporcionar "um sabor refrescante que não vais querer estragar com fumo". Além disso, o conselho dizia que tangerinas "quase não têm calorias" (umas 40 por peça). O que significa que um maço de cigarro em tangerinas dá quase 700 calorias, quase um terço da recomendação diária para um homem.

Sim, também não sei porque é que ainda tenho um telefone fixo

Descubro rapidamente que tangerinas não têm os mesmos efeitos que um cigarro e não satisfazem as mesmas necessidades. Não dão aquela tontura. Comê-las não tem um lado social. Não te acalmam ou despertam. Não combinam com álcool. Há ainda outra diferença importante: são muito mais pegajosas que cigarros. E este ponto achei difícil.

A parte boa de fumar é poder sair da minha mesa periodicamente e, apenas algumas horas depois de trocar os cigarros por tangerinas, começo a ficar ansioso. Quero levantar-me, por isso pergunto À minha colega de trabalho e ex-colega de "fumódromo", Eve, se ela quer ir lá fora fumar enquanto eu como uma tangerina.

Eve a digitar a letra de "Smooth" em emojis, definitivamente muito interessada nas coisas importantes que lhes estou a dizer. Foto por Mike Breen .

Estou tão nervoso que às 11h00 já comi três tangerinas. Às 16h00, são dez. Ao fim da tarde, sinto-me vagamente mal. Não estou com vontade de fumar, porque não tenho vontade de nada. Estou quase a vomitar. Também começo a tossir.

É o último dia de trabalho de um colega, portanto levo o meu saco de tangerinas para o bar onde ele está a fazer a despedida. Descasco e como enquanto toda a gente fuma lá fora e conversa sobre os perigos das redes sociais. Às 22h00, estou pronto para me ir embora e nunca mais olhar para outra tangerina na vida.

Desmaio, mais uma vez ligeiramente bêbado, com a barriga cheia de tangerinas. Acho que comi umas 20 durante o dia. Os dois mil dólares ainda não voltaram para a minha conta.

Dia 3: Andar com um saco de beatas e ocasionalmente cheirar o conteúdo

É sábado e estou pobre. Aceito a realidade de que só vou voltar a ver os meus dois mil dólares na segunda-feira. [Nota do editor: Eu disse-te, pá!]

Como não tenho fumado (e por isso não posso produzir beatas próprias), pego num cinzeiro da sala e coloco o conteúdo num saquinho. Há bastantes e a maioria das pontas são, provavelmente, de há uma semana. A teoria por detrás desse método é que a visão e o mau cheiro do saco vão fazer com que reconheça o que tenho metido dentro do corpo nos últimos dois anos. Mas, é difícil entender a associação. Embora prefira não cheirar beatas e cinzas de cigarros, assim como acontece com as imagens fortes dos maços de cigarro na Europa, é fácil ignorar a relação entre os aspectos da minha dependência e todos os problemas que isso me pode causar num futuro distante, quando - ou se - chegar aos 60 anos.


Vê também: "Como fazer um cachimbo com uma banana"


O dia passa relativamente rápido e, quando dou por ela, são 17h00 e ainda não comi nada. Estou com fome e uma coisa que sempre combate a fome é um cigarro. Sinto-me irritado e outra coisa que me faz sentir melhor é um cigarro. Estou mais deprimido, irritado e ansioso do que já estive nos últimos dias e quero bater com a cabeça na parede.

Como alguma coisa e, de uma forma geral, começo a sentir-me bem outra vez. Estou constantemente a estalar os dedos e já cofiei a minha barba tantas vezes que estou a estranhar ainda não me ter aparecido nenhuma borbulha.

À noite, dou um salto a uma festa de aniversário e falo com uma pessoa que diz que não toca num cigarro há 22 dias, depois de fumar durante 10 anos. Estou menos irritado e sinto-me revigorado. Também estou com vontade de me gabar. Tiro o saco do bolso e o gajo olha pra mim como se lhe estivesse a mostrar um membro arrancado.

Bebo uns copos, com a ideia de que se amanhã ficar de ressaca, só vou acordar depois do meio-dia, pelo que poderei passar metade do dia sem me esforçar muito.

E é exactamente isso que acontece.

Pareço pensativo, mas só estou muito preocupado em não parecer idiota.

Dia 4: Fingir que um lápis de golfe é um cigarro

Acontece que aqueles lápis pequenos que usas para marcar os pontos no golfe são muito difíceis de encontrar se não estiveres num campo de golfe ou no IKEA. Só me resta partir um lápis normal ao meio. O redditor que deu esse conselho idiota "batia as cinzas" do lápis e "às vezes até co metia na boca". A ideia é imitar os gestos e a rotina de fumar - segurando o lápis entre os dedos, colocando-o na boca -, mas isso só me faz parecer um totó prestes a ter alguma epifania criativa. Sinto-me constrangido em público, mais do que o normal.

Mas, hoje foi o dia mais fácil, porque não saio de casa até as 16h00. Quando saio, mastigo o lápis à espera do metro. Na maior parte do tempo, até me esqueço que ele existe. Estou com um pouco de medo de ingerir chumbo, mas acho que os lápis já não contêm chumbo (se é que alguma vez tiveram chumbo).

Ao chegar a casa, preparo o jantar e vejo o novo episódio de Curb Your Enthusiasm. Enquanto o quarto dia sem fumar se aproxima do fim, começo a acreditar que posso mesmo parar. Isto pode estar a funcionar. Esses métodos idiotas podem mesmo resultar.

Perco o lápis antes de fechar os olhos.

Da esquerda para a direita: Alex, água de tabaco, Alex.

Dia 5: Beber água com tabaco

É segunda feira, o último dia da experiência e altura de seguir o conselho que mais temia: beber água com tabaco. Gosto de água e gosto de cigarros. Mas juntos? A noção de beber um copo da mistela faz-me sentir mais enjoado que comer 20 tangerinas e é esse o ponto: devo vomitar e nunca mais voltar a fumar.

Ao antecipar a minha reacção, vou para o jardim perto do escritório. Coloco o tabaco de um cigarro num copo de plástico com água com gás (gosto das bolhas). Olho para a bebida, farrapos húmidos de uma das colheitas mais lucrativas da história do Mundo e bebo lentamente. Chego a meio antes de deitar o resto fora. Depois, passo uns dois minutos a cuspir.

Durante o resto do dia, fico convencido de que vou desenvolver alguma doença derivada do acto de comer tabaco. Mas estou bem. E não fumo há cinco dias.

Na manhã seguinte, sexto dia sem fumar, começo a pensar no meu futuro. Será que ele envolve cigarros? Passei a semana passada a enganar-me para não acender um e mesmo que não fosse escolher beber água com tabaco ou descascar e comer tantas tangerinas outra vez, não fiz nada que acabasse definitivamente com o meu hábito, ou que considerasse útil a longo prazo. Mas, foi algo que, certamente, me manteve ocupado. Agora estou a brincar com uma tampa de uma garrafa. Acho que isto também funciona.

Se queres mesmo deixar de fumar, o primeiro passo é decidires parar. O que ajuda - e o que esses métodos foram pensados para fazer - é tirares a cabeça dessa decisão. Se queres respirar fundo, "fuma" um toco de lápis. Cheira um saco de batas. Come um milhão de tangerinas. Amassa uma tampinha de garrafa com as próprias mãos.


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