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O euro já não vale nada

O euro caiu para 1,10 dólares, um dos valores mais baixos de sempre.
17.7.15

Não sei que dia é hoje. Vejo que aquele mercado - o Encants, em Barcelona - está aberto, por isso suponho que hoje seja Segunda-feira, Quarta, Sexta ou Sábado. Fogo, oxalá seja Sexta ou Sábado. Pensando bem, melhor sexta. Passo mesmo ao lado do mercado e vejo todos aqueles objectos - adquiridos na maior das legalidades ou sacados do lixo - empilhados em cima de mantas e mesas de madeira. Ouço um gajo gritar qualquer coisa: "Um euro, tudo a um euro. Barato amigo. Um euro". Um euro, diz o tipo. Os elementos que antes fizeram parte da vida de alguém, esses resquícios de memória, agora apenas valem um euro. É muito pouco, certo? Depois, lembro-me da notícia recente sobre o valor actual do euro, que, basicamente, não vale porcaria nenhuma. Efectivamente, aqueles objectos, tal como a nossa moeda, não valem merda nenhuma.

Na semana passada, o euro alcançou um dos seus valores mais baixos - 1,10 dólares -, algo completamente distante da sua época dourada - por volta de 2007 ou 2008 - na qual rondava os 1,5 dólares. Claro que o euro já teve momentos muito piores, mas não deveríamos ter isso em conta porque foram durante o arranque inicial como moeda única, e isso seria como exigir que um bebé se pusesse a andar assim que saísse da vagina da sua progenitora. Imaginem: se o gajo se pusesse de pé e seguisse a manada - os seus pais - ficaria para trás. Não poderia sair nunca do hospital, cairia no chão, seco e moribundo, num corredor com paredes brancas. Uma boa metáfora para o estado actual da nossa moeda, sem dúvida. O euro estar tão baixo em 2015, apenas pode significar que estamos a presenciar o esboço da grande decadência do sonho europeu. O símbolo da destruição da nova Europa, sempre sonhada e nunca realizada. O fracasso de ter tentado converter um território - com porcos, montanhas, rios, mares e meia dúzia de rochas - num mercado financeiro.

Sei lá, todos estes conceitos fogem da minha compreensão - que raio são realmente as bolsas europeias e o mercado económico, e para que servem? Espero que algum de vocês realmente saiba como funcionam estas coisas -, eu não faço a mínima ideia, só sei que agora já não posso fazer negócios na Discogs. Lembro-me do momento em que Espanha, graças ao sucesso dos seus países vizinhos, conseguiu uma moeda com um valor superior ao do dólar. Lembro-me de ver como o valor do euro aumentava brutalmente quando fazia o cambio para dólares. Isto significava poder comprar muitos - muitos - discos pela Internet. Por isso, acho que devo ao euro toda a minha audioteca, e um poder monetário que nunca pedi. Lembro-me da felicidade que me proporcionava comprar objectos (discos, livros, embalagens de "Macaroni & Cheese"…) através da Internet, em sites americanos. Era uma loucura, uma febre infernal, um estado constante de DESCONTO. Mas também era, sem dúvida, uma faca de dois bicos, porque ter "tanto" dinheiro, assim de repente, fazia com que todos os meses um Kristallnacht particular ficasse arruinado, encurralado pelas cruéis correntes da avareza do coleccionador.

De qualquer forma, penso que esse foi o melhor momento que teve Espanha, cinco anos de glória, a sua época dourada. Bem, tivemos algumas vanguardas artísticas decentes e a Segunda República, mas pouca coisa, comparando com a alegria de ter uma moeda decente. Só que não era real. Sempre vivemos dentro de um sonho, rodeados de mentiras, como na especulação imobiliária que destroçou ferozmente este querido país. O euro é uma grande farsa, como quando estás com essa rapariga que, na verdade, está, ao mesmo tempo, a fornicar com meia cidade. Tu só queres um pouco de amor verdadeiro e a única coisa que encontras são lágrimas na almofada. O euro é esse conjunto de lágrimas e o sonho europeu é essa rapariga impossível de alcançar. Entendes?

Mas existe algo de bom em tudo isto - na descida do euro - pois sempre soubemos que o futuro seria a nossa antiga moeda. Quando o euro acabar no fundo do poço de uma vez por todas, voltaremos à antiga divisa. Sabíamos que, algum dia ela voltaria. É a lei da vida. O boomerang moral. Somos a nossa moeda antiga e NINGUÉM esqueceu isso. Sabemos - e realmente desejamos com todas as nossas forças - que vai chegar o dia em que a Europa estará debaixo do manto da peseta. Então aí sim, será impossível comprar algo no mercado internacional, mas pelo menos teremos a tranquilidade de saber que JÁ somos uma merda, ninguém nos enganará nem nos fará pensar que somos economicamente viáveis.