O ataque com perfume no Cais do Sodré: de mito urbano a realidade assustadora?
Imagem via Flickr / utilizador Felipe Ernesto
Entretenimento

O ataque com perfume no Cais do Sodré: de mito urbano a realidade assustadora?

Abordam-te no meio da rua, desmaias e, quando dás por ti, foste roubado, ou pior. A história tem origem nos EUA e reaparece ciclicamente.
3.11.16

Recentemente parti o pé e, como consequência da imobilização forçada, a minha utilização da Internet aumentou exponencialmente. Sinto-me um pouco como L. B. Jefferies, a personagem principal do filme Janela Indiscreta, só que a minha janela dá para o Mundo.

Durante a minha exploração de imagens engraçadas, artigos de opinião e, muito raramente - juro! -, umas imagens só para adultos, cruzei-me com este post do Facebook que abaixo vos mostro. Está bastante viral, tendo quase 2000 partilhas e centenas de likes e comentários.

Assim de repente, ao leres o conteúdo do post, podes ser instantaneamente assolado por um compreensível cepticismo. Mas, não te esqueças do contexto. É um post público que, para além de ser feito num perfil de Facebook verdadeiro, está assinado pela pessoa que o fez. Como se fosse uma carta. Foi publicado por uma pessoa que existe mesmo, uma mulher que, segundo depois percebi, tem bastante sucesso na sua área profissional, com um largo número de fotografias que comprovam a sua identidade e, imagina, com vários amigos em comum contigo (comigo, neste caso). E quando digo que tem vários amigos em comum, não é por ser daquelas contas que vai adicionando toda a gente por um motivo desconhecido e cuja existência não consegues confirmar. Não. São pessoas que conhecem mesmo esta pessoa na vida real.

As minhas primeiras interrogações foram as óbvias: "Será mesmo verdade, ou é um caso de 'facejacking'? Pior. Poderia um hacker ter acedido à conta desta mulher para assustar os seus amigos, ou denegrir a sua imagem. O que terá acontecido?". Após uma análise mais profunda, percebi que tudo indicava que tinha sido mesmo ela a autora do texto. Nos comentários, ela confirmava mais que uma vez a versão dos factos, apesar de a estrutura de texto e a forma de escrita serem bastante semelhante à de inúmeras "chain letters" que, em tempos gloriosos, o meu pai me mandava para o e-mail e eu reencaminhava directamente para o lixo.


Vê também: "A vaga de ataques com ácido no Reino Unido"


Os comentários de muito dos utilizadores eram, literalmente, de pânico. Lembravam-se de outras situações onde achavam que tinham corrido risco, muitas vezes sem terem consciência do mesmo na altura. Uma das pessoas que comentou desabafava mesmo sobre uma situação que considerava semelhante, em que uma pessoa com uma mala cheia de perfumes a abordou e lhe pediu para cheirar. A verdade é que eu próprio já testemunhei a venda de perfume contrafeito, mas nunca nenhum desses vendedores me falou em perfume estragado. Comparam-nos com o "real deal" e querem vendê-los e, a grande maioria das vezes, também os cheiram eles próprios.

A história relatada neste comentário não tem nenhuma parecença à do post, a não ser o acto de cheirar perfume no meio da rua, mas as pessoas ligam-nas porque… porque têm medo. Vêem isto como um acto criminoso, aleatório, sem explicação, que pode acontecer a qualquer um. Como a história não é muita precisa em relação à identidade ou composição física da mulher atacante, pode ser qualquer uma que se cruze contigo na rua. Neste caso, alegadamente, a situação ocorreu na zona do Cais do Sodré, mas Lisboa não é assim tão grande e até podem estar a usar estas técnicas noutros pontos do país e tu não sabes.

Publicidade

É um crime fácil e, ainda por cima, há até quem diga - na caixa de comentários, claro - que sabe de uma mulher que já foi parar ao hospital num caso com contornos semelhantes a este. Nem sabe sequer o que lhe aconteceu, o que torna o alegado caso ainda mais assustador. Pode ter sido violada, podem ter-lhe roubado orgãos. As possibilidades, aparentemente, são infinitas.

Promete-me uma coisa, sempre que te deparares com uma história assim tão assustadora e com criminosos tão criativos, não entres imediatamente em pânico. Sugiro que a tua primeira reacção seja procurar no Google por notícias sobre a situação em causa. Até porque existem várias razões práticas para o fazeres. Pode existir uma notícia que te ajude a perceber melhor a história contada, podem até já ter apanhado o criminoso, podes ficar a saber se este tipo de acontecimento é frequente, ou se, pelo contrário foi uma coisa isolada.

Podes até, como me aconteceu a mim, tropeçar em histórias semelhantes numa reputada plataforma de desmistificação de lendas e mitos urbanos, o Snopes. Quando um crime acontece, independentemente da sua natureza, geralmente ouves nos meios de comunicação os testemunhos de vizinhos que nunca esperavam "uma coisa destas, porque era uma pessoa muito simpática". Para nós, as pessoas que conhecemos e de quem gostamos são sempre verdadeiras. Nunca esperamos que os próximos de nós sejam os mentirosos.

As lendas urbanas

Então, vamos lá! Bastou uma simples pesquisa por "perfume hoax" - inglês para "embuste perfume" - para encontrar inúmeros resultados curiosos. O primeiro contava a "Lenda urbana do perfume drogado" e era seguido por outros, que falavam de "Ladrões do perfume de parque de estacionamento" ou, de uma "Mulher morta por amostra de perfume". Há uma coisa em comum entre estas três histórias e as que se seguiam: todas elas eram variações da mesma história.

Segundo vários sites de mitos urbanos que consultei, a "história" original, que eventualmente acabaria por se transformar numa lenda, aconteceu no mágico 8 de Novembro de 1999. Neste dia, a polícia do Alabama, nos Estados Unidos da América, foi chamada por uma mulher de 54 anos, que contou que uma mulher negra, desconhecida, lhe teria tentado vender um perfume de 45 dólares por apenas oito, pedindo-lhe, antes, para cheirar uma amostra. Só para ver se gostava. Ela cheirou uma primeira vez e não notou nada de estranho, mas, quando voltou a cheirar, segundo garantiu às autoridades, ficou inconsciente.

Publicidade

A alegada vítima afirmou também que, quando acordou, estava noutro parque de estacionamento, a quilómetros de distância da ocorrência e tinham-lhe roubado o dinheiro do emprego, que ia levar ao banco, bem como o seu dinheiro pessoal.

A história desta mulher - que, note-se, nunca chegou a ser comprovada - tem, desde então, seguido viva. Espalhou-se pela Internet, claro, mas, tal como as folhas de árvores no Outono, algumas partes foram ficando pelo caminho. Por mera coincidência, foram mesmo aqueles detalhes que poderiam dar alguma credibilidade a uma narrativa que já não tinha muita.

A questão é que, assim, sem os tais detalhes para atrapalhar, todos nós podemos mais facilmente identificar-nos com ela. É assim que nasce uma boa lenda urbana. É como o jogo do telefone estragado, as cidades vão mudando, os preços também, até só restar a história assustadora de uma malvada mulher que te tenta roubar - ou raptar, ou sacar os orgãos, ou o diabo a quatro - fazendo-te cheirar um perfume. A principal diferença destas histórias para aquela do post do Facebook é que, geralmente, a coisa é contada de uma forma tão genérica, que a única coisa que sabemos é que, supostamente, aconteceu a uma pessoa desconhecida. Desta vez, aparentemente, temos um caso raro: alguém, perfeitamente identificado, assume que lhe aconteceu. E o que é que isso provocou? Quase duas mil partilhas, centenas de comentários. Um "vírus" do medo a espalhar-se pela rede.


Vê também: "De assassino psicótico a pintor"


E se for mais que um mito?

O submundo é um centro comercial, cujo supermercado é o mercado negro. Todos já ouvimos histórias caricatas e macabras que nos deixaram aterrorizados: crianças que desapareceram, tráfico de órgãos ou, se trabalhares na indústria músical, gajos que sacam mp3. A história contada neste post de Facebook pode ser perfeitamente verdadeira. Apenas mais um reflexo da brutalidade da vida na cidade e da sua aleatoriedade, onde a qualquer minuto podemos ser vítimas de um crime violento.

De facto, quando somos vítimas de um acto criminoso, não o costumamos prever. Nos últimos meses, e reportando-nos especificamente ao Cais do Sodré, aconteceram alguns crimes de que todos ouvimos falar - uma pessoa foi esfaqueada em plena luz do dia, cidadãos ilegais foram detidos, rixas foram travadas - e muitos outros terão ocorrido que nunca chegaram às notícias.

Publicidade

Portanto, não seria nada de inédito e é uma área onde até podemos supor que pudesse ocorrer algo semelhante a esta tentativa de não-sabemos-bem-o-quê. Podia ser levado a cabo por alguém que tivesse acesso a um anestésico, comprado numa farmácia, ou através de dealers especializados. Já o vimos nos filmes. O malfeitor pega num pano, coloca-o à frente da vítima e - puff! - a pessoa visada apaga. Fica inconsciente, à semelhança do que ia acontecendo no Cais do Sodré à autora do post, quando cheirou o braço daquela mulher desconhecida.

Mas, se este tipo de "ataque" parece ser bem mais simples e discreto que, por exemplo, o uso de violência, ou as ameaças com armas, porque é que não conhecemos outros casos destes? Se é assim tão fácil não deveria ser prática comum? Ou é mesmo comum e alguém nos anda a esconder isto?

Não, ninguém anda a esconder nada. Não temas. A razão porque nunca ouviste ninguém, oficialmente e de uma forma regular, a falar deste crime que parece tão fácil de cometer, é porque, na verdade, em termos práticos não é assim tão fácil e pode mesmo ser impossível. A vida não é como nos filmes.

Esclareci as minhas dúvidas em conversa com Gonçalo Lourenço, doutorando em Química pela Universidade da Beira Interior e coordenador-geral de uma instituição integrada no Sistema Científico e Tecnológico Nacional, que me explicou que "para um cenário deste género acontecer, tem de se partir do princípio que a substância teria um grau de difusão, ou volatilidade, elevadíssimo. E, a ser assim, todos ficariam a dormir, tanto quem cheirasse, como quem administrasse". Para além disso, não pensaria o eventual criminoso que, o que estava a meter na própria pele, para a outra pessoa cheirar, poderia ser absorvido?

Publicidade

Há, de facto, continua Lourenço, uma situação em que uma pessoa pode cheirar perfume, ou algo indicado como tal, e desmaiar: "Pode acontecer, se essa pessoa tiver um grau de alergia enorme a uma determinada substância e, por via dessa alergia, entrar em estado comatoso". No entanto, convenhamos, seria um bocado complicado para os criminosos que optassem por este método descobrirem quais as alergias das vítimas, ainda por cima sendo raras e diferentes de pessoa para pessoa.

Seria, lá está, o crime menos prático de sempre. Ainda por cima não nos podemos esquecer que a vida não é como nos filmes e o éter, ou o clorofórmio não actuam no espaço de segundos, mas sim de largos minutos. "O penthotal, por exemplo, que é um anestésico bem mais potente e é administrado directamente no sistema sanguíneo, mesmo assim ainda demora cerca de 30 segundos para colocar alguém a dormir". Isto leva-me a questionar: que quantidade de anestésico teria que ter o braço da tal mulher para causar os sintomas que a alegada vítima sentiu e como é que a suposta criminosa não foi afectada pelo mesmo? Alguma coisa não bate certo.

Um caso único?

Como se a minha cabeça não estivesse já às voltas com tantas dúvidas, uma das comentadoras do post "tagou" uma amiga e escreveu: "Estás a ver, foi assim que a rapariga do ISCAL ficou em coma". Fiquei intrigado. Seria a mesma rapariga que a autora do post menciona na história? Consegui entrar em contacto com a "comentadora". Contou-me que tinha visto o INEM à porta do Instituto na semana anterior, mas que só no dia seguinte descobriu a razão. "Era uma aluna, que penso que terá sido abordada por uma senhora, junto ao ISCAL, que lhe terá pedido ajuda por achar que tinha sido enganada", contou-me. E acrescentou: "Tinham-lhe vendido um perfume que ela dizia estar estragado. A miúda desmaiou, mas houve um polícia que a viu e foi logo socorrê-la. Não sei se a mulher foi apanhada, se fugiu, não faço ideia".

No comentário, a minha interlocutora mencionava que a rapariga teria ficado em coma mas, estranhamente, ninguém sabe porquê. Pior foi quando lhe perguntei se se lembrava a que horas tinha visto o INEM. Afinal, lembrou-se depois, a ambulância tinha sido para uma senhora que se tinha sentido mal! A história da rapariga "apanhou-a" através de um amigo de uma amiga, que ela não conhece. Confessei-lhe que achava esta falta de detalhes estranha e ela respondeu-me: "Isto foi o que eu ouvi. Também não sei quem iria inventar assim uma coisa destas e porquê". No dia seguinte o seu comentário tinha sido apagado do post.

Porque é que haveria de mentir?

Nestes dias em que andei com o assunto em mãos, sempre que falava com qualquer pessoa, a primeira pergunta que surgia era: o que levaria qualquer pessoa a assumir uma história destas como dela e contá-la ao Mundo, assinando o seu nome por baixo?

Para tentar perceber melhor que motivos podem levar alguém a ter comportamentos deste género e outras pessoas a endossá-los, conversei com Ana Manuel Bento, psicóloga clínica, que esclareceu as minhas dúvidas. "Há várias razões para uma pessoa partilhar este tipo de conteúdos, que, basicamente, são coisas que não têm a certeza se são verdade, ou não. As redes sociais permitem amplificar estas situações, que podem perfeitamente ser aldrabices, para um número muito maior de pessoas do que aquelas que efectivamente conhecem a pessoa que lhe está na origem", salienta Ana Manuel Bento.

Publicidade

E continua: "Uma explicação para este comportamento poderia ser o desejo de alguém querer criar um impacto na vida do outro, recorrendo a um boato, ou a uma história fictícia sobre determinado tema, passível de causar impacto, ou que envolva aspectos significativos para a vida quotidiana das pessoas, como é o caso da segurança. A criação de uma realidade possível, na mente de outrem, pode derivar da combinação de um medo real, com um facto inexacto".

O boato também pode ser visto como uma mentira e, sublinha a psicóloga, "pode ter por base uma característica psicológica do ser humano: a distorção da informação, para preencher um vazio existencial, ou para gerar explicações sobre a realidade envolvente". Um boato para ser bom tem que estar centrado em algo que nos interesse a todos. Se quiserem lançar um daqueles potentes, deixo-vos três assuntos infalíveis: alguém que seja importante, algo relacionado com a segurança individual de cada um, ou a relação entre um jogador de futebol e um cantor pop. Bem, esta última se calhar não é boa ideia, metam-se na vossa vida.

Os boatos que nos assustam ou preocupam são ditos e transmitidos mais rapidamente. O criador deste tipo de boato quer que penses que está a "prestar um serviço à comunidade" e que lhe reconheças o mérito. Mas, pode nem ser só por isso, realça a especialista, podem estar envolvidos "aspectos narcísicos da personalidade do indivíduo" que a Internet só hiperboliza e que são levados a extremos nas redes sociais, que te permitem a "partilha de informação, de forma quase ilimitada e, muitas vezes, sem qualquer tipo de critério".

Publicidade

Ana Manuel Bento insiste que, por isso, "este comportamento pode reflectir uma necessidade de exposição e ter até um caráter competitivo. Existe, nalguns indivíduos, a necessidade de se "mostrarem" mais do que noutros, o que pode refletir algumas inseguranças do sujeito. Na sociedade atual, cada vez mais centrada no 'eu', a curiosidade sobre a vida alheia reforça comportamentos de vaidade nas redes sociais".

Resumidamente, esta forma sensacionalista de distorção da realidade, pode indiciar alguma vontade de agradar o próximo e de a pessoa, de certa maneira, se exibir. Isto faz com que alguém partilhe e repartilhe e volte a partilhar coisas que nem sequer têm a certeza de serem verdade, apenas para terem uma reacção dos seus seguidores, aumentarem a sua visibilidade e obterem reconhecimento. Acho que a todos nos poderá servir esta carapuça.

A conclusão

Consegui arranjar o número da pessoa que criou o post e liguei-lhe. Expliquei-lhe o motivo do telefonema e disse-me que não tinha disponibilidade naquele momento, mas pediu-me para ligar no dia seguinte. Será que adiou para pensar no que dizer? Será que iria voltar a atender? Será que a história ia mudar?

Atendeu mesmo e a história que me contou manteve-se basicamente igual, mas com alguns detalhes novos. Estava a ir para o comboio e, ao descer pela Rua das Flores até ao Cais do Sodré, entrou numa loja. Ao sair deparou-se com uma mulher, "meio mulata e que não teria mais de 30 anos". Do modus operandi já não se lembrava muito bem. A tal mulher ter-se-á aproximado "agarrada a uma mala branca", contou-lhe que tinha comprado um perfume e que, depois de o experimentar, achava que tinha sido enganada. Perguntou-lhe se ela não se importava de o cheirar, para confirmar e, quando disse a palavra "cheirar", esticou o braço de forma brusca.

Publicidade

O mundo da autora do post abanou naquele momento. Começou a sentir um cheiro "mesmo muito tóxico". Não percebeu do que se tratava e, com medo, afastou-se automaticamente. Disse-lhe "não, não, não, desculpa mas não te vou ajudar" e atravessou a rua. "Mal atravessei a rua, tinha um talão das compras na mão, comecei a deixar de sentir a mão e quase caí em cima de um carro", conta. Começou, então, a andar encostada a uma parede e a interrogar-se sobre o que se estaria a passar, ao mesmo tempo que olhava à volta para ver se estava a ser seguida. Não conseguia ver bem, porque, garante, "estava zonza", mas continuou a caminhar.

Apesar de "não ver bem ao longe", acabou por reparar num colete fluorescente e apercebeu-se que era um polícia. Pediu-lhe ajuda. Quando se conseguiu acalmar, contou-lhe o que se tinha passado e voltou com ele ao local da ocorrência. Contou-me que o polícia lhe disse que iriam ver as câmeras da loja para confirmar a situação e que alguém do estabelecimento comercial confirmava que tinha entrado lá uma mulher estranha. No imediato Não contou a ninguém, porque quase duvidava que aquilo lhe tinha acontecido. Uns dias antes de decidir tornar a situação pública, uma das suas amigas criou um grupo de Whatsapp em que contava a história de uma rapariga que tinha passado exactamente pelo mesmo. "Fiquei toda arrepiada", desabafou. A diferença neste outro relato é que, aparentemente, um polícia passou no exacto momento e viu-a a desmaiar. E não, esta não é a suposta situação do ISCAL.

De facto, e não pondo em causa a veracidade do relato que me foi feito na primeira pessoa, uma coisa é certa, este não é um crime típico e, pelo que dizem os especialistas com quem falei, é até muito improvável.

Este grito de alerta no Facebook, entretanto, já foi partilhado mais de 1700 vezes e, pensa, bastaria que cada uma destas partilhas tivesse sido lida apenas 50 vezes, para já ter audiência suficiente para, na maior partes das noites, ser líder na RTP2. A mera possibilidade de um crime desta natureza ocorrer e a amplificação conseguida por este relato, tem o potencial, por exemplo, de afastar pessoas de determinadas zonas, para além de que as mulheres que leram este post e que entraram em pânico, vão tremer de cada vez que alguém lhes tentar vender perfume no meio da rua, porque, aparentemente, qualquer pessoa está indefesa contra um crime tão "simples" de praticar.

Não sei acreditas, ou não na autora do post, não sei se o mito urbano, finalmente, se transformou, neste caso, em realidade. Mesmo depois de tudo o que me foi dito, a dúvida persiste. Mas, de uma coisa tenho a certeza e tenho que confessar um pequeno pormenor sobre esta situação e que, aliás, foi um dos principais motivos para a investigação que originou este artigo. A Polícia de Segurança Pública, que contactei para tentar perceber se haveria mais casos semelhantes e se tinham conhecimento deste em particular, garantiu-me que estas histórias não são verdadeiras. A lenda continua.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.