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​As prostitutas de Hong Kong estão a trocar os chulos por iPhones

Fóruns online e apps estão a ajudar muitas jovens trabalhadores do sexo a livrarem-se do abuso físico e sexual.

Por Justin Heifetz​​
22 Setembro 2016, 2:00pm

Ilustração por Shaye Anderson

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Kate*, uma estudante a precisar de dinheiro, conseguiu um trabalho aparentemente fácil como hostess numa discoteca de Mong Kok, o bairro de prostituição de Hong Kong, conhecido pela vida de decadência e pelos neons luminosos. No final de cada noite, no entanto, ela voltava para casa apenas com um saco de amendoins no bolso. Portanto, quando conheceu um gangster que se ofereceu para agenciá-la - o trabalho consistia em encontrar-se com clientes e agir como se fosse uma namorada - e fazê-la ganhar muito mais, Kate adorou a proposta.

O homem levou-a para um quarto e levou a cabo um shi gong, termo chinês que significa testar uma mulher antes de começar a agenciá-la. De seguida, largou Kate numa sarjeta.

Esta não é a trama de um filme sobre a máfia chinesa dos anos 70. É, sim, mais um exemplo do porquê as prostitutas de Hong Kong estarem, cada vez mais, a usar a tecnologia para trabalharem de forma independente. Logo após ser enganada - como acontece com muitas outras estudantes inocentes de Hong Kong - Kate descobriu alguns fóruns online que a ensinaram a sobreviver neste mundo por conta própria. Em sites como o HK Big Mane, que contam com páginas e páginas de anúncios, as auto-intituladas "acompanhantes remuneradas" oferecem os seus serviços sem ajuda de intermediários.

Bowie Lam Po-yee, que coordena a Teen's Key, uma organização que procura dar apoio a estas mulheres, diz que é comum uma rapariga encontrar um anúncio já publicado que lhe agrade e reproduzi-lo com alguns pequenos ajustes. Consequentemente, essas jovens fornecem os seus contactos e negociam onde irão encontrar-se com os clientes e quanto será cobrado. Desta forma é mais fácil despistar a polícia.

Torna-se mais difícil ser presa quando se tem a oportunidade de conversar directamente com quem procura o serviço e os polícias tendem a ser um pouco óbvios quando se trata de negociar através da Internet. "Estes fóruns são uma particularidade de Hong Kong, porque são utilizados apenas por raparigas jovens", diz Lam. E acrescenta: "Elas não se vêem como prostitutas. Encaram isto como uma questão pontual, como um trabalho por conveniência".

Mong Kok, Hong Kong. Foto por Paul Wong/Shutterstock

Com base nos registos da ONG de Lam, existem cerca de duas mil e 500 acompanhantes remuneradas na cidade. A polícia tem tido dificuldade em encontrar estas mulheres desde que elas se "refugiaram" na Internet - de Julho de 2015 até Julho de 2016, a polícia só registou 12 casos de prostituição ligados a estes fóruns. Desde que elas não estejam a aliciar clientes em público, não estão a infringir qualquer lei local.

Para Kate, os fóruns da Internet foram uma forma de dar início à sua carreira de acompanhante, depois da experiência traumática na discoteca. Para entrar neste mundo, ela copiou um anúncio de que gostou, mudando apenas o seu nome, idade, medidas e telefone. O passo seguinte foi entrar em contacto com clientes. A maioria das mulheres usa o WhatsApp e uma aplicação de mensagens chinês, chamado WeChat, para conversar com os interessados e especificar serviços, preços e locais.

Com o modernização de Hong Kong, as acompanhantes estão a usufruir das vantagens de serem donas de si mesmas. Por outras palavras, já não estão tão sujeitas ao abuso físico e sexual dos chulos, ou, como eles se auto-intitulam, agentes. Deixam também de ter de dar parte dos lucros a estas pessoas, o que significa, claro, que conseguem ganhar bastante mais. Fóruns e apps de mensagens estão, em larga medida, a dar mais poder às profissionais do sexo.

"Hoje em dia a maioria das acompanhantes trabalha de forma independente; é raro encontrar alguém que ainda tenha um agente", diz Patrick Wong Chun-chin, ex-superintendente sénior da Polícia de Hong Kong. E o antigo responsável destaca: "As coisas não são como eram no passado, quando os homens aliciavam as mulheres; já não é tão comum ver homens a controlarem as prostitutas de Hong Kong".

Wong, que é co-fundador de uma empresa de segurança privada chamada Centinel, diz que os iPhones estão a matar os outrora populares e movimentados bordéis de Hong Kong. "Há 15 anos, esses lugares atraíam gangsters e membros das tríades, mas com as recentes alterações nos nossos modelos de comunicação, esse tipo de coisas está a diminuir".

Patrick salienta também que as acompanhantes têm muito cuidado com a linguagem utilizada nos anúncios. Para atraírem clientes, dizem que estão "dispostas a fazer amigos", só apresentando os serviços sexuais em conversas privadas, através das apps de mensagens.

Laura*, que ainda trabalha como acompanhante, é um exemplo perfeito deste novo poder. A jovem de Macau abandonou o seu agente depois de perceber que podia negociar por conta própria através de fóruns e do WhatsApp. Desde então, criou o que ela chama de "menu" de serviços. Fazer sexo duas vezes numa hora, por exemplo, custa 130 dólares americanos e todo o dinheiro vai para ela.

Laura também diz que a Internet lhe dá uma vantagem que outros profissionais do sexo de Hong Kong não têm: o direito de recusar clientes. Como as conversas por chat permitem-lhe ser mais exigente, ela costuma seguir algumas regras: verificar se o comportamento do homem é calmo e agradável, garantir que usa preservativo e dar prioridade a homens com mais de 30 anos. No caso das mulheres que trabalham nos bordéis tradicionais de Hong Kong - na sua maioria prostitutas oriundas da China continental - ela garante que não há a opção de escolherem quem será ou não atendido.

No entanto, independência nem sempre significa segurança. Embora Laura tenha evitado até agora qualquer tipo de violência, Kate já foi violada por um cliente. Quanto à legalidade dos fóruns de Internet, Lam diz que a polícia já tirou alguns do ar, mas que, em poucas semanas, estes foram substituídos por novos sites.

Mesmo assim, os proxenetas não desapareceram completamente das ruas de Hong Kong - principalmente porque algumas raparigas, em particular aquelas que se dedicam aos estudos, têm dificuldade na organização das suas agendas. "As acompanhantes que querem continuar a estudar e se sentem sobrecarregadas pela carga de estudo - que costuma ser muito alta, tanto em Hong Kong, como na China - costumam procurar agentes para conseguirem mais clientes", diz Lam. Uma pequena parcela contrata estes homens por medo de que os seus clientes possam magoá-las; caso isso aconteça, podem mais facilmente ligar a alguém que as ajude.

E, curiosamente, algumas raparigas acabam por se agenciar entre si. "Elas não entendem que é ilegal arranjarem clientes para as suas amigas e cobrarem uma taxa por isso, pelo que muitas continuam a fazê-lo", conclui Lam.

*Nomes fictícios