Sexo

Afinal, o que procura o moderno homem lusitano no mundo do engate online?

Homens. Não são miúdos. Homens feitos. Machos. Gajos "maduros", modernos, que sabem bem o querem e a quem a vida corre sempre às mil maravilhas...ou não.
05 July 2016, 10:15am
Imagem cortesia Denis Bocquet, via Flickr.

Enquanto mulher, solteira e a trabalhar diariamente para amenizar os meus preconceitos, decidi averiguar o que se passa no mundo das aplicações em que o objetivo é conhecer pessoas do sexo oposto, com intenções que vão para lá da amizade.

Para alguns, estas ferramentas são plataformas de engate fortuito, para outros, quem sabe a possibilidade de um amor incondicional. Para mim, são apenas facilitadores de contactos. Até porque amor incondicional, só pelos filhos que não tenho.

Apesar de pertencer a uma geração que acredita que nada se sobrepõe a um encontro físico e natural entre duas almas, o que é certo é que, pelo menos aqui, conseguimos ter mais do que dois dedos de conversa em vez daqueles confrontos imediatos na noite em que, após dez copos de discurso incoerente, acabamos a achar um olhar estrábico deveras profundo. O gin é capaz de cenas realmente atrozes. Todas as mulheres já passaram por uma situação deste género. É triste.

Olá, vamos? 'Bora. Foto por Tom Johnson.

Posto isto, já decidida a considerar que, eventualmente, as aplicações podem ser um catalisador interessante para quem se sente um pouco só, decidi averiguar o que fazem os homens nestas modernices. O que procuram, que imagem têm das mulheres que lá encontram e, principalmente, como são as suas experiências.

Queria saber se só instalam estes bichinhos tecnológicos para encontrar mulheres disponíveis para tudo, se efectivamente só querem sexo sem compromisso e de forma anónima, ou se, milagrosamente, têm uma visão romântica da coisa.

Foi por isso que decidi falar com quatro homens sobre as suas experiências no Tinder e Happn. Uma amostra de machos com idades semelhantes, capaz de me proporcionar conhecimento de peso para, quem sabe, aplicar no futuro.

PEDRO, 42 ANOS

Já conheceu mais de 30 pessoas. Geralmente combina encontros durante a manhã e com tempo limitado pois, se não existir chama, um café é mais breve e sempre fica mais barato. Diz que um bom date é aquele onde surge química pessoal e sexual. Quando a segunda acontece, é suposto haver sexo na próxima saída. Isto porque, diz, "as portuguesas ainda são muito conservadoras quanto ao dar tudo logo na primeira noite".

No encontro mais estranho que teve, a dita cuja agendou à mesma hora com uma amiga que, por sua vez, também ela marcou um blind date. "Éramos quatro, portanto". Sentiu-se numa conferência de imprensa e desapareceu no nevoeiro, qual D. Sebastião. Não teve muita pena pois a pessoa em questão tinha mais 40 quilos do que aqueles que apresentava na foto de perfil do Happn. "Essa chubby...".

Nestas ferramentas onde podemos filtrar a idade do alvo, o Pedro diz que tem 32 anos, pois prefere ser procurado por mulheres de 30 e não de 40. Contudo, no seu perfil tem um texto de apresentação em que diz a verdade, "não quero enganar ninguém...". Acerca da primeira mensagem, prefere nitidamente mulheres com atitude e gosta que sejam elas a meter conversa.

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Acha que estas coisas servem essencialmente para conhecer pessoas, eventualmente encontrar o amor mas, na verdade, "o mais certo é haver sexo sem compromisso". Perguntei-lhe o que diria se lhe perguntassem onde conheceu a sua namorada, se fosse fruto de um destes contactos. Disse que responderia a verdade, pois não tem qualquer estigma relativo a este mundo.

Frisou que antigamente era mal visto um casal dizer que se conheceu na loucura da noite, que era como se isto lhes retirasse a idoneidade, mas que "essa coisa das pessoas se conhecerem sempre em jantares de amigos já não acontece...". Para ele, que faz disto uma diversão e que tem estampado na cara que adora estas coisas, as aplicações tornaram a aproximação amorosa entre duas pessoas menos sôfrega, ajudaram a que não aconteça tudo de uma só vez. "As pessoas vão falando", é um processo mais ponderado. Contudo, se não existir nem um beijo, nem sexo até ao terceiro encontro: "Goodbye!".

JOÃO, 38 ANOS

Diz que conheceu cerca de quinze pessoas através destas apps, apesar de ter tido sexo no primeiro date com apenas duas. Respondeu a esta pergunta um pouco a medo e, por isso, arrisco dizer que devem ter sido quatro. De todas as experiências que se recorda, evidencia uma pseudo louca, "mas gira", que lhe dava sinais contraditórios, tentando "esquizofrenizar" o seu cérebro.

Dizia-lhe que sim com os olhos, mas afastava-o com as mãos, numa de se fazer de difícil. Uma espécie de fetiche de menina recatada que ele não atingiu. Ainda se apaixonou perdidamente por outra. "Não durou muito", diz, mas foi bom porque o fez sentir-se vivo. Há anos que não ficava naquele estado e, até hoje, não voltou a experienciar nada mais arrebatador. Só brisas de Verão.

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Encontro inusitado foi aquele em que apanhou um avião para passar um fim-de-semana na Áustria com alguém que conheceu por esta via e que nunca tinha visto ao vivo. Quando lá chegou, a querida aparentemente calçava o 43 e usava o XL de luvas. Andar de mãos dadas com ela pelas ruas onde nasceu o Hitler, salienta, foi um pouco desconfortável e, durante o sexo, ver um pé que se confundia com uma perna, também não foi melhor.

Diz que as apps são uma espécie de vício, que mesmo que não ande à procura de nada vai lá dar uma vista de olhos. Acredita que tornaram os relacionamentos descartáveis. "Há sempre uma cara para substituir outra". Especialmente quando o seu foco não é envolver-se muito profundamente: "A_s coisas superficiais dão menos trabalho e tornam tudo mais simples"._

Sobre o que acha das mulheres que andam nestas plataformas, responde que "cada um faz disto o que quer" e que, portanto, não acha nada. No que diz respeito a quem deve mandar a primeira mensagem, achou a pergunta machista. Para João, um bom encontro, é aquele que "tem continuidade e que não fica só pela primeira impressão".

FREDERICO, 37 ANOS

Quando lhe perguntei o que procurava nestas aplicações, se era flirt, atenção, sexo ou amor, respondeu-me: "O flirt nunca fez mal a ninguém. Atenção num domingo à noite é bom, mas quem nunca ficou louco de tesão à hora de almoço e... O amor está onde quisermos que esteja".

No Tinder conheceu cerca de quarenta pessoas, chegou a ter algo mais recorrente com uma rapariga que, no primeiro encontro, não disse uma palavra e que ainda assim queria beijá-lo. "Disse que era louca e que não beijava alguém com quem acabara de ter apenas um monólogo". À segunda vez que se viram, já foi uma pessoa normal e depois disso vieram seis meses de romance. "Era uma deusa". Considera um bom encontro aquele em que consegue ser ele mesmo, sem ter que encenar.

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Não acha que as mulheres sejam promíscuas por estarem disponíveis online para conhecer homens. Diz que ele mesmo consegue ser promíscuo mas, ao mesmo tempo, apenas um curioso.

Exigente, procura mulheres com corpo de modelo, olhos verdes e cabelo comprido e não se considera de todo um desesperado. Disse-me que todas as namoradas que teve casaram com o gajo que apareceu logo depois de si porque, com ele, elas só pretendem divertimento puro. Fala pelo whatsapp e, simultaneamente, com mais de noventa mulheres que conheceu entre aplicações deste género e em discotecas. Para não se enganar nos nomes, trata todas por baby. "Elas adoram!", garante.

Para identificar o grau de "safadeza" das suas presas, coloca um emoji demónio a seguir ao nome de cada uma na sua lista telefónica. "Quem tem um demónio é ligeiramente aberta, quem tem 3 é a loucura total". Diz que a "pior coisa do Mundo é conseguir a conexão mental, espiritual, emocional e quando vamos ao sexo, a mulher é uma "estrela-do-mar" que nos pede que sejamos o Casanova ...Deita-se, abre a perna e espera a erecção do Cristiano Ronaldo + John Holmes...". Sexo para si convém que seja o mais rapidamente possível dado que, só assim, percebe se pode investir emocionalmente. Esta perspectiva de predador matou-me, confesso.

DAVID, 36 ANOS

Conheceu dez pessoas. Nunca lhe correu muito mal, porque diz que é capaz de alguns despistes antes da parte do encontro. "Primeiro verifico a veracidade dos registos fotográficos (não vá ter uma foto de uma Charlize Theron e depois aparecer-me a Teresa Guilherme)". Em termos de look, nunca teve acidentes extraordinários , "a coisa acaba por ser mais ou menos conforme publicitam... mas depois pode-se complicar quando se começa a interlocução verbal. Já passou por situações em que, por muito que até quisesse baixar padrões, não conseguiu tolerar a falta massa cinzenta. Uma das ditas não sabia quem era o John Lennon e, por isso, ficaram por ali. Quando se deparou com tamanha ignorância ficou perplexo. (...) vi uma imagem de mim a parar o carro e, sem olhar para ela, dizer-lhe - pega nas tuas roupas e sai!

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Outro encontro estranho que teve, dos mais inusitados da sua história, foi com uma alguém que lhe frisou que estava disposta a tudo menos a que lhe cuspissem para a cara... Ele gelou. Ainda teve a sorte de conhecer uma outra que, a meio do date, resolveu assumir que era casada. "S_e querem fazê-las façam-nas como deve de ser"._ Sobre o que pensa das ladies que estão nestas andanças, considera apenas que procuram um namorado, um marido, um amante ou, muitas vezes, só um amigo.

David, não tem bem a certeza do que quer encontrar nestas apps mas tem a ideia que, para uma pessoa como ele, com pouca vida social, "_é uma boa forma de alargar a rede dos contactos amorosos"._Também reforça que poupa chatices, como enveredar por arranjinhos pensados por amigos em que, muitas vezes, lhe calham estafermos com mau hálito.

Se lhe perguntassem onde conheceu a namorada, tendo sido ela produto de um encontro do Tinder, responderia que tinha sido através de um amigo. "Evita chatices e ter de explicar aos meus pais que conhecer alguém através de uma app não e o mesmo que ir a uma casa de putas". Sexo no primeiro encontro? "Sempre que se proporcionar".


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