"Vegansexuais", os vegans que só se enrolam com outros vegans

Há muita gente que vê o veganismo como uma parte tão forte da sua identidade, que precisa de um parceiro que pense da mesma maneira, para que a relação possa funcionar.

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12 Outubro 2016, 12:00pm

Foto principal por Jonathan Starke.


Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Há hoje mais vegans que nunca. Esta não é uma declaração baseada em teorias da conspiração do lobby da indústria da carne, ou nos milhões de fotos #vegan no Instagram, nem sequer no facto de se verem agora mais vegans a pregar em público do que há cinco anos atrás. Trata-se de um facto. Em Maio último, a Vegan Society encomendou um estudo que comprovou que a Grã-Bretanha já tem mais de meio milhão de vegans, um número três vezes e meio superior aos dados relativos a 2006.

E, com tanta gente a viver o estilo de vida vegan, surgiram, claro, ramificações na forma como eles se relacionam. O termo "vegansexual" surgiu em 2007, quando um estudo na Nova Zelândia mostrou que a maioria dos vegans entrevistados preferiam namorar, ou ter relações sexuais, com outros vegans. Alguns disseram que tinham poucos ou nenhuns problemas em relacionarem-se com não vegans, mas que, todavia, viam o veganismo como uma parte forte da sua identidade e precisavam de um parceiro que pensasse da mesma maneira, para que a relação pudesse funcionar.

Quase 10 anos depois desse estudo e com a recente proliferação de vegans no Reino Unido, queria descobrir como o vegansexualismo progrediu.

Primeiro falei com Kirilee, vegan há oito anos. "Nem sempre fui vegan e cada um está na sua própria jornada. Mas eu, no entanto, não conseguiria continuar envolvida com alguém que não estivesse aberto à ideia de se tornar vegan e que não mostrasse compaixão para com os animais. Geralmente, é algo que percebes bastante cedo na relação", considera. E resume: "É mais simples dizer que, em condições normais, um ambientalista não se envolveria com um explorador de uma mina de carvão. Há muito mais gente que consegue entender esse conceito, mas quando se trata de 'dieta' e animais, parece que as coisas ficam confusas".

"[Ser vegan] torna coisas como sair para jantar, um bocado mais difíceis, especialmente quando a família da pessoa também está envolvida. Geralmente significa comprometer o que quero comer e contentar-me com uma salada", diz Ben, que é vegan há vários anos, quando lhe pergunto como a dieta afectava o seu relacionamento. "Por outro lado, também não sentia muita vontade de beijar a outra pessoa depois de uma refeição envolvendo carne", sublinha.

Até agora, tudo compreensível. As perspectivas das pessoas com quem falei pareciam ser as mesmas das pessoas entrevistadas no estudo original sobre o vegansexualismo na Nova Zelândia. Durante a investigação, conduzida por Annie Potts, co-directora do Centro Neozelandês de Estudos Humano-Animais da Universidade de Canterbury, foram entrevistadas 157 vegans, sendo 120 mulheres. Cerca de 63 por cento deles, como Kirilee, disseram que tinham (ou queriam ter) um parceiro que também estivesse preocupado com os animais, tal como eles.

"A dieta pode realmente atrapalhar quando, por exemplo, duas pessoas se olham nos olhos e vêem tudo menos carne?".

As opiniões das pessoas entrevistadas foram, aliás, bastante directas. Uma vegan de 21 anos, por exemplo, disse: "As minhas crenças sobre os animais afectaram muito a relação com o meu parceiro. Tenho considerado deixá-lo para trabalhar com animais - ele não partilha o meu ponto de vista - e ainda estamos a tentar acertar-nos". Ainda assim, outro vegan comentou: "Eu namoraria com uma pessoa não vegan. Acredito que é melhor dar o exemplo, do que me limitar a pregar as minhas crenças pessoais".

Mas, é óbvio, alguns dos inquiridos eram aparentemente bastante mais militantes. Uma vegan de 41 anos comparou o corpo dos não vegans com um "cemitério de refeições passadas". "Não gostava de ser íntima de alguém cujo corpo é literalmente feito de corpos de outros seres que morreram para sustentá-lo", disse. E acrescentou: "Corpos não veganos têm, para mim, um cheiro diferente. Afinal de contas, são sustentados por carcaças, pela carne assassinada de outros seres. Mesmo se achasse a pessoa muito atraente, não gostaria de me aproximar dela num sentido físico, se o seu corpo fosse derivado de carne. É a minha forma pessoal de ética sexual".

Um estudo na República Checa, por sua vez, investigou a relação entre o consumo de carne vermelha e a atractividade do odor corporal. A conclusão? Pessoas numa dieta sem carne eram "consideradas significativamente mais atraentes, mais agradáveis e menos intensas". Da mesma forma que anti-tabagistas ferrenhos podem dizer que beijar um fumador é o mesmo que "beijar um cinzeiro", talvez as pessoas dedicadas veementemente às suas crenças alimentares sejam mais sensíveis a odores corporais que outras.

Mas a dieta pode realmente atrapalhar quando, por exemplo, duas pessoas se olham nos olhos e vêem tudo menos carne? Perguntei a Kirilee o que ela aconselharia a um casal formado por um vegan e um não vegan. "Cresçam?", diz ela entre risos. "Se entras numa festa e começas a atirar garrafas ao ar, ninguém vai querer ficar para dançar. Sejam abertos um com o outro. Certamente que tiveram experiências diferentes na vida que os levaram até onde estão hoje".

Manifestantes vegans, não necessariamente "vegansexuais". Foto via Wikipédia.

Este ano, o SpeedDater.co.uk lançou o "Encontro Expresso Vegetariano/Vegan", portanto, é óbvio que há vegans e vegetarianos à procura de alguém que pense como eles. Na verdade, uma pesquisa do SpeedDater descobriu que 56 por cento dos vegetarianos e vegans "disseram que dispensariam um encontro com um comedor de carne". Uma percentagem similar à do estudo neozelandês.

A Vegan Society também realiza um evento regular chamado "London Vegan Meetup", um encontro gratuito para vegans e curiosos. Falei com Robb Masters, que organiza o evento desde 2011, altura em que o grupo tinha apenas 750 membros. Hoje, já são quase seis mil pessoas.

"Sabemos que alguns membros conheceram os seus parceiros no 'London Vegan Meetup'. Fizemos alguns eventos para solteiros e tenho referência a pelo menos quatro casamentos que resultaram destes encontros. Mas queremos enfatizar que esse não é o objectivo principal do grupo. Não queremos que as pessoas venham para o encontro só para dar em cima das outras. Por isso, em Dezembro passado, lançámos o grupo 'London Vegan Singles' no Facebook. Já tem mais de 500 membros, com 'encontros de solteiros' ocasionais, e também aí temos algumas histórias de sucesso", garante Masters.

Parece, portanto, que, apesar do número de vegans ter crescido no Mundo, não há exactamente aquilo a que se pode chamar de um grande surto de "vegansexualismo". E talvez isso não seja assim uma surpresa tão grande. Afinal de contas, só porque não queres comer carne, não quer dizer que tenhas que voltar as costas a todos os que comem.

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