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Wu Tang e os três níveis de um artista marcial

A maioria das pessoas associa 'Wu Tang' à banda de rap composta por nove gajos, mas o que talvez muitos não saibam é que existe uma linhagem de artes marciais chinesas com o mesmo nome.

Por Nick Wong
24 Fevereiro 2016, 11:56am

Todas as fotografias cortesia Wu Tan Alaska.


Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE Sports.

A maioria das pessoas associa o nome "Wu Tang" à banda de rap composta por nove gajos com um toque de Kung Fu – as origens do grupo já foram documentadas aqui, dá uma espreitadela. O que talvez muitos não saibam é que existe de facto uma linhagem de artes marciais chinesas homónima e, por acaso, o meu tio é grão-mestre dessa linhagem. Há uns meses ele veio visitar a família e achei que seria uma boa oportunidade para ouvir o que tem a dizer sobre as ciências de combate. Afinal de contas não é todos os dias que se tem a oportunidade de falar cara-a-cara com um grão-mestre.

Conforme me explicou, a Wu Tang é, digamos, bastante jovem. A linhagem só foi estabelecida em 1971. Mas as origens, garante o meu tio, estão registadas muito antes. Talvez o capítulo ideal para iniciar a história seja Li Shuwen, um mestre de Bajiquan do século XIX, que ficou na história como o "Deus da Lança" e tornou-se famoso por dizer que "não sabia como era golpear um homem duas vezes". A Aksys Games chegou a desenvolver um personagem inspirado nele para o jogo da Playstation Portable "Fate/Extra", lançado em 2011.


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Bajiquan é uma arte marcial do Norte da China, conhecida pelo uso do cotovelo a curta distância e golpes com o ombro. Li juntou a modalidade com outra técnica setentrional de combate, o Piguaquan, que utiliza técnicas com a palma da mão e movimentos mais subtis nos quadris. Por causa dos movimentos mais explosivos do Bajiquan, os dois estilos complementaram-se bem. Tão bem que na China até há um provérbio bastante conhecido sobre o facto:

"Quando juntam o estilo Pigua com Baji, tanto os deuses como os demónios ficam apavorados. Quando juntam Bagi com Pigua, os heróis suspiram pois sabem que não têm hipótese".

Com o passar dos anos, Li preparou três discípulos: Huo Dian Ge, que foi guarda-costas de Pu Yi, o último Imperador da China; Li Chenwu, guarda-costas de Mao Zedong; e Liu Yin Qiao, que mais tarde treinou os guarda-costas de Chiang Kai Shek. O terceiro discípulo, Liu Yun Qiao, foi quem criou o sistema Wu Tang.

Wu Tang é uma espécie de acto de preservação. Durante a Revolução Cultural, muitos mestres de Kung Fu foram perseguidos e diversos documentos primordiais acerca das linhagens foram destruídos. A fonte básica de conhecimento sobre as tradições transmitidas nos séculos anteriores foi destruída, dilacerada.

Como Liu, conhecido entre os seus discípulos como "grão-mestre Liu", partiu para Taiwan com o líder nacionalista Chiang Kai Shek antes da Revolução, o seu conhecimento sobre as artes marciais tradicionais permaneceu protegido na ilha. Em 1971 o Grão-mestre Liu abriu o Instituto e o meu tio, Kurt Wong, tornou-se um dos seus primeiros discípulos.

Wong começou a sua jornada com o Taekwondo e, na procura por um sistema mais pertinente, em 1972 passou a estudar a linhagem Wu Tang, recomendado por um colega de turma. O meu tio tinha jeito para a disciplina e pouco depois foi mesmo seleccionado para uma digressão beneficiente pelos EUA antes de servir dois anos no exército tailandês, instituição em que, segundo ele, diversos cinturões negros de outras tradições lhe sacaram "a receita do bolo". Quando Wong se mudou para os Estados Unidos, as suas habilidades serviram-lhe como ganha-pão. Para ele e para a sua família.

"O meu cunhado disse-me para ir trabalhar para um refeitório. Pagavam 3,50 dólares à hora, então pensei, 'Ok, vamos ver o que mais posso fazer'. Fui à Faculdade Comunitária do Vale de Tanana [em Fairbanks, no Alaska], e perguntei, 'Posso ensinar alguma coisa da China?' Eles perguntaram, 'O que é que você sabe fazer? 'Respondi, 'Kung Fu'. Disseram, 'Óptimo, vamos registá-lo'. Perguntei, 'Bom, quanto é que pagam?' E sugeriram, 'Que tal 15 dólares à hora?' Então, respondi, 'Contem comigo!'".

Wong começou a carreira de professor em 1979 e imediatamente esgotou o curso com 25 alunos. Estabeleceu-se em Anchorage e instituiu uma suficientemente estável para habilitar cinco Laoshis (professores) e quatro sifus (trabalhadores qualificados). E assim conquistou o mundo – dos Estados Unidos à Austrália. O êxito fez dele o primeiro grão-mestre da sua geração. Um triunfo que, ainda assim, não apregoa aos sete ventos, porque, garante, "não é isso que interessa".

Outros estilos que fazem parte do sistema Wu Tang incluem (mas não se restringem): Tanglang (louva-a-deus), Taijiquan, Baguazhang e Changquang. Depende da escola. Há centros em todo o planeta e o Wu Tang é, agora, um dos estilos de artes marciais mais proeminentes no Ocidente. O que ninguém previa, no entanto, era o aparecimento da rapaziada de hip-hop de Staten Island, que tomaria de assalto os ouvidos de toda uma geração. Quando mencionei a coincidência, Wong relatou-me, em tom jocoso, o que fez quando, na altura, descobriu o nome do grupo.

"O nosso nome é Wu Tang, o nome deles é Wu Tang, então mudei para Wu Tan", afirma Wong. Uma rápida busca online mostra que, de facto, muitas das escolas actuais não incluem a letra "g" no nome, embora algumas ainda usem o título original "Wu Tang", conforme adoptado em primeira instância pelo grão-mestre Liu. "Achei melhor afastarmo-nos deles para que ninguém confundisse, mas, infelizmente, não podemos mudar o nosso nome. Tenho uma bandeira que me foi oferecida pelo grão-mestre Liu, quando ainda estava vivo e ainda soletrávamos 'W-U-T-A-N-G', e quando procuras por esse termo, aparece o grupo de rap. Não posso fazer nada", ri-se.

Embora carreguem o mesmo nome, o meu tio admite não ser muito versado na cultura hip-hop dos anos 90. Mas se prestasse mais atenção ao Clan, provavelmente ficaria surpreendido. Da temática das letras à estrutura organizacional, muitas características da formação do grupo estão profundamente enraizadas na filosofia das artes marciais. Vejam, por exemplo, este excerto da página 49 de "The Wu-Tang Manual", escrito por RZA:

"Dizem que um homem precisa de ter 120 de conhecimento, 120 de sabedoria e 120 de compreensão. São 360 graus no total. Cada parcela de 120 estabelece um passo da evolução. Primeiro, conhece-la; depois, és capaz de a recitar; e por fim, precisas de a compreender. O último passo pode durar até dez anos".

Esta ideia é parecida com a perspectiva do meu tio sobre os três níveis de um artista marcial. Teoria que manifesta conhecimento, sabedoria e compreensão no corpo físico. Especialistas em linhas marciais já descreveram filosofias semelhantes. Eles afirmam que um praticante precisa de aprender primeiro os princípios básicos, o que pode ser um processo tempestuoso e brutal. Só depois é que aprende a refinar a arte, como o progresso que um oleiro desenvolve ao aprender a moldar barro até o transformar num vaso detalhado e complexo.

Quando perguntei quanto tempo demora a alcançar o terceiro nível, Wong respondeu: "Cerca de três décadas, dependendo do indivíduo".

"O primeiro nível consiste basicamente em trabalhar os ossos ou 'tornar-se' — é força e intuito e velocidade", explica Wong. "O segundo nível consiste em cultivar o chi para transformar o espírito interno, ou seja, é um nível de compreender a 'suavidade', o que significa 'sem exagero', sem tensões, para que, na hora de irradiar uma energia ou uma força, ela não surja com o seu intuito abalado. O terceiro nível é o exercício obstinado do espírito, para que ele se condense e se transforme em nada. Esse 'nada' significa que, quando fazes algo a alguém, é imperceptível, embora haja ali algo", conclui Wong.

Para facilitar a compreensão, ele usa metáforas corporais, biológicas. "O primeiro nível é o osso. O segundo nível é o tendão. O terceiro nível é a membrana, dentro das células sanguíneas; já está no sistema".

A estimativa de RZA, de 10 anos de duração do último nível, também não está muito longe da realidade. Quando perguntei quanto tempo demora a alcançar o terceiro nível, Wong respondeu: "Cerca de três décadas, dependendo do indivíduo".

"O problema é que o nível um passa por um processo de eliminação. Quarenta e cinco por cento não sobrevivem ao nível um. O segundo nível lima mais outros tantos e no terceiro nível provavelmente vai mais uma boa porcentagem. Fica um grupo bastante reduzido", garante Wong.

Na maioria das linhagens de artes marciais diz-se que, a certa altura, a prática se sobrepõe ao desenvolvimento físico e torna-se uma questão de compreensão de si próprio em etapas profundas e meditativas. RZA chegou à mesma conclusão enquanto "aprendia que o Kung Fu não se tratava exactamente de uma luta, mas de cultivar o espírito" (página 52 do "Wu-Tang Manual").

Para Wong, esse acto de cultivar vai um passo mais além. Segundo ele e aqueles que partilham a filosofia chinesa, a prática de artes marciais é mais do que uma questão física, ou mesmo pessoal. Trata-se de alcançar um estado elevado de júbilo, um toque divino, e é algo que ele acredita faltar na encarnação actual da mistura de artes marciais nas competições.

"Acho que o perigo [do MMA moderno] é que às vezes pecam em saúde, em benefício de determinados estilos. Não posso criticar outros estilos pois não os estudei, mas na minha opinião, se o propósito deles é desenvolver uma boa técnica de autodefesa, então claro que podem fazer isso, mas não acho que seja a essência da arte marcial".

A essência da arte marcial, diz o meu tio, é desenvolver e construir carácter, compreenderes-te a ti próprio e lidares com o Céu, a Terra e o Homem, de acordo com a filosofia chinesa. Céu, Terra e Homem oferecem uma compreensão completa da energia, não só de si próprio, como também surge uma ligação através da Terra e do Céu, a ponto de o praticante ser assimilado por todos os elementos; não se trata apenas de derrotar os outros. É muito mais do que uma luta per se.

"O corpo não é real, entendes? Este corpo é apenas temporário. Então, se posso usar o corpo para praticar algo e elevar o espírito, transformá-lo em algo maior, uau, isso é incrível. É muito melhor do que entrar numa jaula só para provar que somos melhores que alguém", acrescenta o meu tio. "Não, não precisamos de fazer isso. Acho que é mais importante compreender a filosofia por trás. Por isso, os caminhos do praticante são longos".

Há um debate em curso acerca da mistura de artes marciais e em torno da ligeira presença, ou ausência completa, de estilos tradicionais nas lutas competitivas mainstream. Lutadores tradicionais defendem que a competição não é o foco da prática, enquanto os opositores denunciam esse raciocínio como um pretexto conveniente, uma desculpa nobre para evitar uma derrota pública que exporia a ineficácia do sistema. Por outro lado, também conversei com diversos pugilistas e lutadores de jiu-jitsu que contaram que os seus treinos fizeram-nos parar de lutar nas ruas. Segundo eles, já não tinham mais o que provar a agressores amadores e acredito que o mesmo princípio se aplique àqueles que chegam ao alto escalão de qualquer estilo de luta.

Chega uma altura em que um propósito maior se levanta. É quando as verdades mais profundas da vida começam a revelar-se. Quando perguntei ao meu tio que lição carregava consigo após quatro décadas de prática, ele reflectiu um pouco antes de concluir: "Humanidade. Como ser mais humilde. Foi isso que aprendi. Aprendi que não somos melhores que ninguém. Somos iguais".

Para saberes mais sobre o grão-mestre Wong e Wu Tang, visita este site.