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A modelo que perdeu o maxilar e superou o cancro

Em Maio de 2014, Bulokhova, de 24 anos, e o seu namorado, Roman Troubetskoi, estavam de férias em Amesterdão quando o maxilar direito da modelo começou a inchar.

Por Neil Sharma
17 Julho 2015, 9:13am


Com passos elegantes, Elizaveta Bulokhova caminhava nas passarelas de Taiwan, Japão, Hong Kong, África do Sul, Grécia, Londres e Nova Iorque, onde finalmente se instalou e passou os seus dias a movimentar-se por entre a sociedade nova-iorquina para conseguir castings.

Bulokhova estudou Direito, mas deixou Toronto para ir a Londres mesmo antes de se licenciar no Humber College e assim começou a sua carreira de modelo que durou sete anos e que lhe permitiu viajar por todo o mundo.

Em Maio de 2014, Bulokhova, de 24 anos, e o seu namorado, Roman Troubetskoi, estavam de férias - que tanto necessitavam e poucas vezes conseguiam - em Amesterdão, quando o maxilar direito da modelo começou a inchar.

Todas as fotografias por Manolo Ceron.

Em Julho, a dor voltou a ser insuportável e as biópsias e tomografias revelaram uma forma estranha de osteossarcoma - cancro dos ossos - no seu maxilar. Para sobreviver, teria não só que tirar o maxilar, como também abortar Valentim, o bebé que crescia na sua barriga, antes de começar os cinco ciclos de quimioterapia que a deixaria totalmente debilitada.

"Ele era muito activo e eu falava com ele", disse. "Tinha que dizer-lhe para deixar de se mover porque não poderia ficar ali dentro e então parava de se mexer. Ouvia-me dizer isso e ficava quieto".

As 16 horas de cirurgia para eliminar o tumor e depois o maxilar, seguidos da reconstrução com o perónio, veia, nervos e excertos de pele da sua perna direita - assim como do ombro direito - puseram fim à sua carreira como modelo. Mas o pior era que Valentim estava em risco de desenvolver incapacidades devido à anestesia, se é que conseguiria sobreviver. As cirurgias agendadas para os próximos dias iriam eliminar os vasos sanguíneos da perna para serem injectados no novo maxilar.

No total removeram-lhe 17 centímetros - 95% - da maxila. Passou um mês até conseguir ver-se de novo ao espelho. Às vezes, Troubetskoi via Bulokhova olhar o seu reflexo através da janela, por isso decidiu cobrir o espelho da casa de banho até que estivesse preparada.

Houve complicações com a cirurgia e a quimioterapia teve que ser adiada. Foi então que, dois dias antes da data do aborto, o casal perguntou aos médicos se podiam provocar o parto de Valentim mesmo que ainda faltassem 10 semanas para o seu nascimento.

"Estava lixado; basicamente tínhamos que pedir aos médicos que matassem o nosso bebé saudável, mas não tínhamos outra opção", conta Troubetskoi. "Depois, como Valentim tinha quase 28 semanas, perguntámos-lhes o que significaria isso para ele. Era seguro trazê-lo ao mundo? Disseram: 'Claro que sim, façamo-lo então".

Bulokhova acrescentou: "Voltei a falar com o bebé e disse-lhe: 'Anda, vamos lá!' Este período foi bastante difícil".

Graças a uma cesariana, Valentim chegou ao mundo e passou os 51 dias seguintes em cuidados intensivos. Contudo, dado que os últimos meses foram um enorme perigo para o bebé, o seu nascimento foi considerado um milagre.

Mas Bulokhova ainda não estava fora de perigo.

"A químio mata as papilas gustativas, por isso não tinha fome e nem sequer podia mastigar bem", disse, acrescentando que demorava uma hora para comer um ovo cozido. "Tinha medo de beber porque às vezes a água saía-me por um lado da cara e isso era traumatizante, além disso o meu estômago encolheu devido à dieta líquida. Não queria comer. Fiquei desnutrida. O processo de comer era horrível".

Quatro meses depois do início do martírio - e dois meses depois da sua última quimioterapia - Bulokhova, de 25 anos, e Troubetskoi, de 30, estavam sentados um ao lado do outro no seu apartamento em Ontário enquanto conversávamos. Então, um vizinho entrou, pegou em Valentim, e disse: "Cada vez que o vejo está maior".

O cabelo de Bulokhova começou a crescer; os seus dentes superiores continuam tão direitos como sempre, mesmo que às vezes tenha dificuldade em falar, porque apenas tem os quatro dentes inferiores. Dentro de alguns anos, quando o cancro já estiver esquecido, irá submeter-se a mais cirurgias reconstrutivas. Com 1,72 metros de altura e 49 quilos - apenas menos dois que na altura em que recebeu o seu diagnóstico quase fatal - o seu novo projecto de vida é tudo menos trivial.

A força que reuniu ao longo dos últimos 14 meses foi captada numa série criada pelo fotógrafo Manolo Ceron. Nela, Bulokhova celebra a sua sobrevivência.

"Queríamos usar a arte como uma ferramenta para contar a sua história", disse Heron. "Eli (Bulokhova) é o tema central. Ela é a história e tudo o resto é uma ferramenta para realçar a sua força e beleza. Mostra o quão frágeis e belos somos. É difícil colocar-lhe uma mensagem, mas tem muita esperança e força e há muitos sobreviventes de cancro que poderiam retirar alguma coisa desta história; talvez seja essa a mensagem".

Numa das fotografias mais comoventes, Valentim procura a sua mãe. "Ele salvou-me a vida, isso é o mais importante", disse Bulokhova. "Ele tomou conta de mim. Proporcionou-me um plano e ajudou-me a trabalhar em mim mesma. Não me deixou descansar, mas de uma forma positiva. Manteve-me com vida. Não tinha tempo de compadecer de mim própria. Sentia que se não estivesse grávida toda a gente me trataria como qualquer outro paciente com cancro. Foi ele quem cuidou de mim para garantir que todos faziam o que era suposto".

Troubetskoi esteve o tempo todo ao seu lado. Leu tudo o que havia para saber sobre a sua doença e sobre os tratamentos; além disso, passou horas incontáveis longe do seu trabalho e dentro do hospital.

Sem se preocupar com uma futura carreira como modelo - que na melhor das hipóteses seria uma vaga promessa -, Bulokhova encontrou a paz dentro da sua família.

Maquilhagem por Julia Stone. Assistente de fotografia Ken Appiah. Estúdio cedido por A Nerd's World.