Uma Colônia de Férias para Fãs do Apple II
Ian Johnson, o cara que está criando um sistema de suporte em japonês para o Apple II. Crédito: David Osit para a Motherboard

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Tecnologia

Uma Colônia de Férias para Fãs do Apple II

Um fim de semana pela encantadora nerdice do KansasFest, o acampamento dedicado a um computador de 38 anos.

Entre inúmeras relíquias ao meu redor, um artefato prende minha atenção. Talvez seja sua cor verde-camuflada no meio do oceano de teclados cinzentos, mouses e CPU's. Ou quem sabe o fato de eu saber que o objeto pertence ao homem que cortou o topo de um ônibus escolar para burlar uma nova lei do Departamento de Trânsito do estado de Oklahoma nos Estados Unidos. De um jeito ou de outro, não tenho dúvida de que o computador carrega uma bela história.

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"Encontrei-o em um ferro-velho", diz James Littlejohn com seu forte sotaque sulista norte-americano. "Ele estava soterrado por folhas, no pé de umas árvores. Eu só conseguia ver um pedacinho do teclado saindo da terra. Peguei uma pá, comecei a cavar e arranquei as raízes dos chips. Depois, coloquei a placa-mãe no lava-louças algumas vezes. Após alguns dias de limpeza, o computador voltou a funcionar."

Vários dos computadores presentes pelos arredores do KansasFest foram resgatados de um lixão. Não que a procedência faça muita diferença — afinal, qual foi a última vez em que você pensou em um computador lançado há 38 anos atrás?

Todo ano cerca de 70 pessoas vão à Universidade Rockhurst, localizada em Kansas City, para participar do KansasFest, uma conferência que pode ser melhor descrita como uma colônia de férias de cinco dias para fãs do Apple II, um dos primeiros computadores pessoais lançados no mercado. Na época de sua criação, em 1989, o KansasFest servia como ponto de encontro de desenvolvedores do Apple II, e hoje, 26 anos depois, o evento continua voltado para o mesmo computador.

Seus participantes invadem o Corcoran Hall, um dos prédios da universidade, cobrindo os móveis dos dormitórios com disquetes bem antigos e molengas, Mountain Dew, placas-mães, teclados e monitores antigos. O sono é escasso; a empolgação, bem, excessiva.

O Apple II de James Littlejohn. Crédito: David Osit para a Motherboard

Organizar um festival voltado para um computador lançado em 1977 parece impossível — mas não é. O interesse por computadores retrôs cresce há pouco mais de uma década. Nos últimos anos, aqueles que cresceram com o Apple II começaram a sentir saudade dos jogos de sua infância; enquanto isso, a geração atual aprendeu a hackear esses sistemas antigos para conectá-los à internet e executar jogos e programas armazenados em pen drives. Alguns deles começaram até a criar novos programas.

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A programação do KansasFest é cheia de palestras e seminários sobre tópicos como conserto de teclados ("traga sua própria solda!"), programação visual e proteção de cópia. Em muitos casos, os participantes colocam seus Apples IIs no porta-malas ou pagam taxas de bagagem exorbitantes para participar de workshops como esses:

  • "Um olhar aprofundado sobre o Mouse Apple M0100, a interface do mouse do Apple II e como adaptá-los para os dias de hoje."
  • "Javier explica suas técnicas e dá dicas para convertar os monitores da Apple para LCD."
  • "Perspectivas da Apple do ponto de vista do Atari"
  • "PLASMA: Uma nova linguagem de programação para o Apple II"

Eu nunca tive um Apple II — a minha família era adepta do Intel 386. Decidi que era hora de ver essa máquina de perto.

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Crédito: David Osit para a Motherboard

Cheguei no KansasFest no momento em que a oradora principal do evento, Rebecca Heineman, começava sua palestra. Nos anos 80, Heineman criou uma série de jogos de aventura aclamados para o Apple II como Bard's Tale e Tass Times in Tonetown.

O público se ateve a cada uma de suas palavras; muitos ficaram boquiabertos quando ela disse usar um "RAM estático" em vez de um "chip Super FX" para melhorar a performance de um jogo de Super Nintendo que ela havia programado, o Another World. Alguns ouvintes se levantam e gritam quando ela anuncia que adaptará alguns de seus jogos antigos para os melhores emuladores do mercado. Confesso que não entendo muito do que ela diz.

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Na infância, eu era obcecado por games. Fiz parte de um clã que dominava um jogo de estratégia por anos e li livros sobre C++ ao lado da piscina durante o verão entre a sétima e a oitava série. Eu passava meus recreios jogando xadrez com meu professor do ensino fundamental. Mesmo assim, eu me sinto deslocado no KansasFest. Esse lugar é intimidante. Minha nerdice já havia sido rebaixada e eu só estava lá há 20 minutos.

Após a palestra de Heineman, peço ajuda a Jason Scott, um arquivista do Internet Archive que é conhecido por preservar coisas que muitos consideram inúteis, como disquetes da America Online e CD-ROMs. Como eu já o havia entrevistado, ele me parecia a pessoa mais adequada para me guiar por esse submundo da cultura nerd.

Crédito: David Osit para a Motherboard

Scott me diz, em poucas palavras, para ficar de boa. Essas pessoas são legais. Essas pessoas são boas. Essas pessoas são puras. Essas pessoas estão se divertindo como nunca. Tente não cortar a onda de ninguém.

"O que mais gosto no KansasFest á a visão honesta e não-irônica do seu tema", disse Scott. "Os fanáticos por Apple II, os programadores, e as pessoas que trazem seus Apple IIs para serem consertados ou para aprender mais sobre ele, todos que vêm para cá sentem que esse computador é uma parte de suas vidas. Pode ser uma parte grande, pequena ou esquecida. E por isso eles vêm para cá. Aqui ninguém se julga, todos amam o que estão fazendo. Esse evento não é um trampolim para algo maior."

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"Não é nada do tipo 'ah, olha que engraçado, alguém pegou um computador velho e fez algo com ele'", acrescentou. "Os frequentadores do evento conhecem cada parafuso dessa máquina, então quando eles descobrem algo novo, isso é um triunfo, e o público daqui respeita isso. Eles sabem que há muito pouco a ser descoberto."

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Crédito: David Osit para a Motherboard

Idealizado por Steve Wozniak, o primeiro Apple II foi lançado em 1977 e se tornou o primeiro sucesso de uma empresa que se tornaria uma das mais valiosas do mundo. Na época, ele custava US$1,298, o equivalente a US$5,000 hoje. O computador não tinha hard drive e contava com alguns KBs de memória RAM e um som de 1-bit. Todo jogo ou programa funcionava por meio de disquetes. Era uma maravilha tecnológica. A máquina foi superada em poder e em popularidade pouco depois pelo sucesso Apple II Plus, e depois pelo Apple IIe, pelo Apple IIc, e enfim pelo Apple IIGS (Gráficos e Som), lançados entre 1977 e 1993.

Mais de seis milhões de computadores da série Apple II foram vendidos. Se você cresceu durante os anos 80 e nunca teve um Apple II, deve conhecer alguém que teve ou que talvez tenha usado um no colégio. Apesar da enorme popularidade do gadget no final dos anos 80 a empresa começou a investir em seu novo computador, o Macintosh (algo extremamente claro no "1984", o famoso e lendário comercial dirigido por Ridley Scott e televisionado durante o intervalo do Super Bowl). O Apple II então foi abandonado.

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Um grupo chamado Resource Central criou sua própria convenção de desenvolvedores em 1989 porque, nas palavras de Heineman, "o mercado de softwares para o Apple II ainda era muito ativo."

"Depois de algumas convenções, quando o mercado comercial desapareceu, os organizadores disseram 'bem, nós ainda queremos nos encontrar todos os anos', e o evento se tornou o KansasFest que conhecemos hoje", explica.

Crédito: David Osit para a Motherboard

A própria Heineman parou de frequentar o evento em 1999 e passou anos pensando que o KansasFest não existia mais.

"Quando me convidaram para ser a oradora principal, pensei 'vocês ainda estão fazendo isso?'", ela me disse. "Já faziam 15 anos e a minha maior preocupação era: o Apple II ainda funciona?"

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O ônibus escolar adaptado de James Littlejohn. Crédito: David Osit para a Motherboard

Sim, o Apple II ainda funciona. Na verdade, funciona muito melhor do que nos anos 80. Cada KansasFest traz uma série de inovacões: novos jogos, novas teorias sobre como tirar o maior proveito dos 64 kbs de poder de processamento do computador.

Os frequentadores do KansasFest conseguiram rodar servidores de email e navegadores da internet em Apple IIs e criaram novos jogos como "Flapple Bird"; além disso, alguns aficcionados estão desenvolvendo um novo jogo de RPG, o Lawless Legends. Falei com pelo menos uma pessoa que desenvolve uma linguagem de programação nova para o Apple II, mas soube que existem outras em criação. Um cara que veio da Philadelphia está trabalhando há meses para criar um sistema de suporte do Apple II em japonês, que irá atender um público de apenas uma pessoa — ele mesmo.

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Existem empresas, como a Ultimate Micro, que produzem chips, placas-mães e acessórios novos para o Apple II e outros computadores vintage. Alguns anos atrás, descobriu-se que o Apple II podia rodar programas armazenados em pen drives, uma revolução para o hobby.

Agora, em vez de procurar disquetes e programas raros, é possível baixar esses programa em vários sites, incluindo o Internet Archive. Emuladores de última geração permitem que qualquer entusiasta viaje por aí com um MacBook ou laptop que imite, no limite do possível, o funcionamento de um Apple II. No canto da área comum do KansasFest, há um computador cuja função é transpor programas de disquetes antigos para a internet.

No evento desse ano, o assunto era um hacker conhecido como "4 AM". Ele desbloqueou centenas de jogos e programas com proteção anticópia dos anos 80 e colocou cópias perfeitas no Internet Archive, onde podem ser baixadas por qualquer um. Poucas pessoas conhecem a identidade de 4 AM, mas todos respeitam seu trabalho. Havia um rumor de que ele estava no KansasFest e que ele revelaria sua identidade no evento. No fim ele decidiu se manter no anonimato e recusou um pedido de entrevista que enviei para seu Twitter. Parece que o mistério durará mais um ano.

O suporte em japonês do Ian Johnson. Crédito: David Osit para a Motherboard

"Nosso objetivo é encontrar novas formas de utilizar computadores antigos, novas formas de utilizar essa tecnologia. Há 10 anos essa missão deixou de ser um esforço para manter uma lembrança viva e passou a ser guiada por um interesse em algo verdadeiramente retrô', disse Steve Weyrich, um médico de Omaha, autor de um livro sobre a Apple II e organizador do KansasFest. "As pessoas que antes pensavam 'ah, isso é só um computador velho, ninguém quer isso' passaram a pensar 'ah, esse é um item de colecionador'. Agora guardam esses computadores porque fazem parte de sua história. Adoro estar envolvido nisso."

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Mas isso não quer dizer que as atividades realizadas no KansasFest não tenham importância prática. Heineman diz para a platéia que, se você é capaz de programar um computador de 38 anos de idade, você provavelmente é um cientista da computação muito melhor do que a maioria. Weyhrich diz que os computadores de hoje são muito mais poderosos e funcionais, mas que sabemos muito menos sobre seu funcionamento. Perdemos algo no processo de evolução.

"Investi muito tempo e conhecimento no Apple II até chegar ao ponto de compreender todo o sistema. Todos seus 64 K de memória, tudo o que acontece na memória RAM e ROM, o firmware utilizado pelos programas do Apple II", afirma. "Hoje em dia há uma distância muito maior entre nós e os computadores. Tudo muda muito rápido, um celular é milhões de vezes mais poderoso que o Apple II, mas poucos sabem como um computador funciona."

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Crédito: David Osit para a Motherboard

O KansasFest possui suas próprias tradições, jogos e cultura. O evento já recebeu visitas lendárias de Steve Wozniak. Alguns anos atrás, após uma dessas visitas surpresas, um homem veio de Chicago para mostrar seu Apple I perfeitamente funcional. (Apenas 75 ainda funcionam.) No ano passado, um exemplar foi vendido por US$905,000.

Todo ano há um jogo chamado "Morde Saco", no qual os participantes se equilibram em um pé só, se abaixam e seguram um saco de papel com os dentes. A cada mordida, um pedaço do saco é rasgado, o que torna a competição mais difícil. O evento também conta com passeios diários por lanchonetes, churrascos e um hack-a-thon. O ponto alto da semana é o "Bazar do Sean", uma barraquinha que distribui de graça acessórios e programas para o Apple II acumulado por Sean Fahey ao longo do ano.

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Antes de todo evento, Fahey enche o ônibus escolar de James Littlejohn com centenas de disquetes, teclados velhos, livros, manuais, monitores e todo tipo de sucata.

Steve Weyhrich gravou uma música para promover o KansasFest desse ano.

O evento possui competições de decoração de portas e uma noite de rosquinhas em homanegam à Ryan Suenaga, que vinha do Havaí para o evento todos os anos até sua morte, em 2011. Hoje em dia, muitos dos frequentadores do KansasFest estão velhos demais para viajar; muitos outros morreram ao longo dos anos.

A maior parte dos frequentadores do KansasFest está na meia idade — muitos tem 50 ou 60 anos, e tinham um Apple II na infância ou o usavam um para trabalhar — e quase todos são homens, emboram existam algums mulheres no evento.

Mas também existe uma nova geração de frequentadores: o participante mais novo do KansasFest tem apenas sete anos de idade. Sua mãe veio da Áustria para seu primeiro KansasFest há quase uma década; foi lá que ela conheceu o pai do menino.

O garoto está aprendendo a programar o Apple II e me diz que esta não é sua primeira vez no KansasFest: na última vez em que ele esteve aqui, estava na barriga de sua mãe.

"Eu acho o KansasFest legal porque a gente aprende como tudo começou", ele me disse. "Gostei muito de conhecer outros nerds, porque eu também sou um. Acho os nerds muito legais."

Eu já havia aprendido isso há muito tempo.

Nota do editor: As fotos presentes nessa matéria fazem parte do projeto Photos from Beyond, uma parceria com a LG.

Tradução: Ananda Pieratti