O homem que passou 30 anos na selva para preservar a música do povo Bayaka
Limbombo, Pablo, Mimanga, Ndumbé e Johnnie (filho de Mowanja) batucando no tronco de uma árvore, em Boungingi, República do Congo, 1994. Crédito: Louis Sarno/Pitt Rivers Museu

O homem que passou 30 anos na selva para preservar a música do povo Bayaka

Conheça Louis Sarno, o americano que foi pesquisar canções da comunidade de caçadores-coletores da República Centro-Africana e nunca mais voltou.
28.7.16

Em 2005, Noel Lobley — na época um DJ graduado em antropologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra — fez uma descoberta surpreendente. Num golpe de sorte, ele encontrou uma coleção esquecida de mais de 1.000 horas de gravações do povo Bayaka, uma comunidade de caçadores-coletores que habita as florestas tropicais da República Centro-Africana.

"Encontrei um monte de fitas e anotações enroladas em um casaco puído dentro de uma mala velha abandonada no depósito do Museu Pitt Rivers", conta. "Se a mala tivesse caído no chão, seu conteúdo ficaria inutilizável para sempre; nós nunca saberíamos qual nota se refere a qual fita, e o resultado seria uma bagunça ininteligível."

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Em seguida, Lobley apresentou sua descoberta à Hélène La Rue, uma curadora de música do Museu Pitt Rivers. Com sua ajuda, o inglês descobriu que a coleção crescia há duas décadas, conforme Louis Sarno, um escritor de Nova Jersey, viajava da República Centro-Africana para Oxford a fim de doar suas gravações ao acervo do Museu Pitt Rivers. Em pouco tempo, Lobley ligou o nome de Sarno ao campo da etnografia da música africana; embora ele não fosse um etnógrafo, Sarno havia dedicado boa parte de sua vida à documentação da música Bayaka, chegando a morar permanentemente em uma comunidade Bayaka localizada na República Centro-Africana. Animado com a descoberta, Lobley elaborou um projeto de doutorado focado no estudo e na preservação desse acervo.

Hoje, Lobley é um professor assistente do departamento de etnomusicologia da Universidade da Virgínia, nos EUA. Nos últimos onze anos, ele tem se dedicado à missão de apresentar a música Bayaka ao mundo por meio da digitalização e de um cuidadoso processo de curadoria. Com a etapa de digitalização quase completa, hoje Lobley estuda como programas culturais envolvendo pesquisadores e membros da comunidade Bayaka poderiam ajudar a manter a relevância do arquivo nos dias atuais. Ele e Sarno — cujo trabalho de documentação abrange mais de 30 anos — esperam que essas gravações reconectem os Bayaka às suas raízes e promovam sua cultura para o mundo.

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A música dos Bayaka, embora reconhecida oficialmente como um importante patrimônio cultural, corre o risco de desaparecer.

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Mulheres e crianças Bayaka do lado de fora de suas cabanas, República Centro-Africana (1986-1997). Crédito: Imagem: Louis Sarno/Pitt Rivers Museum

Os Bayaka vivem nas florestas tropicais ao sudoeste da República Centro-Africana (RCA) e no norte da República Democrática do Congo (RDC). Os membros desse povo caçador-coletor, hoje conhecido como "povo da floresta", já foram chamados de "pigmeus", uma definição acadêmica datada da era colonial. Entre os Bayaka, não há hierarquia social: homens e mulheres são considerados iguais. Os Bayaka são conhecidos por seu canto polifônico milenar, que é ao mesmo tempo fruto e reflexo das florestas nas quais eles vivem.

"Considerando que os povos que ainda praticam esse estilo de canto se separaram há mais de 20.000 anos, podemos afirmar que esse canto polifônico existe há mais de 30.000 anos, ", diz Jerome Lewis, um antropólogo social da University College London que se especializa em sociedades caçadoras-coletoras.

"Os Bayaka e os Mbuti (caçadores-coletores que vivem no leste do Congo) cantam desse jeito, e estudos genéticos confirmam que eles compartilham um ancestral em comum nascido há cerca de 27.000 anos, o que sugere que esse estilo musical surgiu antes desse período. Eu não acredito que haja outra tradição musical tão antiga quanta essa".

Em 2003, a UNESCO classificou a tradição oral dos Bayaka como uma "obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade" em uma tentativa de encorajar o governo da República Centro-Africana a proteger esse invisível porém precioso artefato cultural.

Apesar disso, a cultura Bayaka está desaparecendo. Nas últimas décadas, programas de preservação restringiram o acesso a certas áreas da Reserva Natural Dzanga-Sangha. O desmatamento e a guerra civil também atingiram essas áreas, e as comunidades que nelas vivem lutam contra problemas como o uso de drogas e o alcoolismo. Esses povos são excluídos da sociedade, e seus membros, vistos como cidadãos de segunda classe, não possuem acesso a direitos ou oportunidades.

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"Os Bayaka da República Centro-Africana vivem na miséria, o que os leva à mendigagem. As crianças desses povos também são expostas a muitas doenças", disse Messe Venant, um coordenador do Programa de Proteção dos Povos da Floresta (FPP, na sigla original em inglês), uma ONG dedicada à proteção dos direitos indígenas. Venant, que tem origem Baka (um termo utilizado para referir-se à comunidade Bakaya em Camarões), acrescentou que os Bakaya da República Centro-Africana são também alvo de racismo.

Sarno, que vive na comunidade Bakaya da República Centro-Africana há mais de 30 anos, confirma essa informação. "Os outros africanos veem eles como sub-humanos, mais animais do que gente. Há muito preconceito contra os Bakaya", disse, enquanto conversávamos em um café em Oxford.

Conheci Sarno em 2013, durante a estreia do filme Song from the Forest, um documentário sobre seu estilo de vida nada convencional, no Museu Pitt Rivers. Sua decisão de viver permanentemente entre os Bakaya, enfrentando doenças como a hepatite e a malária e perigos como conflitos civis, despertou minha curiosidade.

Americano gentil e de voz mansa, Sarno soube da existência dos Bayaka ao ouvir uma de suas músicas no rádio durante sua estadia em Amsterdã, na Holanda, no início dos anos 80. Fascinado pela canção polifônica dos Bakaya — que contava com um coro de vozes sobreposto à uma faixa instrumental — Sarno ouviu dezenas de discos de vinil e folheou diversos livros na biblioteca da cidade até descobrir mais informações sobre esse povo. Seu interesse era tão grande que decidiu ouvir a música em seu contexto original, onde teria a oportunidade de gravá-la ele mesmo. Sarno então escreveu ao antropólogo Colin Turnbull, que havia narrado suas experiências durante a gravação das músicas dos Mbuti no livro The Forest People: A Study of the Pygmies of the Congo, em busca de conselhos.

Meses se passaram sem que Sarno recebesse uma resposta. Certo dia, enquanto Sarno pegava carona com o amigo com quem ele dividia um apartamento na Escócia, ele encontrou um envelope saindo do porta-luvas do carro — era uma carta assinada por Turnbull. Na carta, Turnbull o aconselhava a se candidatar ao Fundo Swan para "estudos dos povos pigmeus da África", uma bolsa de estudos oferecida pela Universidade de Oxford. Sarno se candidatou à bolsa de 700 libras (US$ 900) e passou o inverno seguinte organizando sua viagem. O ano era 1984.

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"Meus amigos acahavam que eu estava louco", conta Sarno. "Pensando bem, era bem estranho mesmo — eu vivia em uma caravana na Escócia, no meio da neve, e estava planejando uma viagem pela África Central."

"Completei uma fita de 90 minutos, a guardei e disse, 'Muito obrigado, isso foi lindo', e um dos homens perguntou, 'Você tem mais fitas?'"

Durante seus primeiros dias de pesquisa, Sarno alugou uma casa e visitou várias aldeias em busca de sons dignos de serem gravados. Em pouco tempo, encontrou uma comunidade Bayaka que vivia relativamente perto da pequena cidade de Bayanga. Mas suas primeiras tentativas de interagir com os Bakaya e gravar suas melodias tradicionais foram um fracasso. Quanto mais aqueles que ele tanto admirava se recusavam a cantar, mais frustrado ficava.

"Os Bayaka queriam alguém para farrear com eles, alguém que comprasse bebida e cigarros — não estavam me mostrando nada, só queriam beber", conta Sarno.

De acordo com John Nelson, ex-coordenador africano da FPP que já pesquisou diversos grupos indígenas da região, os Bayaka são um povo afeito a negociações e ao escambo. Mas, ao chegar na República Centro-Africana, Sarno não conhecia os costumes locais, e após algumas semanas, seu dinheiro e sua paciência haviam chegado ao fim.

"Lembro de dizer, 'Vocês não são tão legais, e sua música também não é lá essas coisas'", lembra Sarno. Ele estava decidido a deixar a vila no dia seguinte; mas ao cair da noite, um grupo de crianças iniciou um coro polifônico ao qual os adultos logo se uniram.

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"As melodias eram diferentes de tudo que eu já havia ouvido antes. Completei uma fita de 90 minutos, a guardei e disse, 'Muito obrigado, isso foi lindo', e um dos homens perguntou, 'Você tem mais fitas? Pode pegar outra, porque a gente não terminou", lembra Sarno.

O coro culminou em uma cerimônia Boyobi, ritual no qual as mulheres da aldeia pedem para que os espíritos abençoem as futuras caçadas da tribo. Sarno nunca havia ouvido nada como aquilo. A performance espontânea durou até o amanhecer.

"É como ouvir a floresta cantando", diz Sarno. "Minha relação com eles mudou naquela noite. Naquele momento eu soube que nunca conseguiria abandonar aquele lugar e que, caso fosse embora, eu teria que voltar".

De início, Sarno vivia entre a República Centro-Africana e a Europa, aonde ele retornava para renovar seu visto, comprar mais fitas e guardar suas últimas gravações. Mas ao receber a proposta de escrever um livro sobre suas experiências em meio ao povo Bayaka, Sarno solicitou um visto de residência da República Centro-Africana, permanecendo na comunidade de 1988 até os dias de hoje. Em 2005, ele se tornou um cidadão da República Centro-Africana.

Ao longo das décadas, Sarno desempenhou vários papéis dentro da comunidade Bayaka. Ele teve um filho com uma mulher Bayaka (que é, hoje, sua ex-esposa), presenciou a morte de muitos de seus amigos e também atuou como um mediador em tempos de crise. Sua vida inspirou o longa-metragem Oka! e, mais recentemente, o documentário Song from the Forest.

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Hoje Sarno vê seus primeiros anos entre os Bayaka de forma mais crítica, chegando a renegar a autobiografia escrita por ele no final dos anos 80, considerando-a ingênua e superficial. A presença de Sarno — um homem branco, alto e ocidental — entre os Bayaka pode parecer incongruente aos olhos mais céticos. Entretanto, Nelson, um membro do FPP que já conduziu algumas pesquisas sobre a situação dos Bayaka na República Centro-Africana, explica que Sarno não se considera superior aos Bayaka.

"Louis não quer ser um defensor [dos Bayaka], ele só quer viver sua vida. A cultura Bayaka é muito igualitária, e ele a adotou perfeitamente, no sentido em que ele não se considera superior a ninguém", explica Nelson. "Às vezes fico surpreso quando ouço que Louis ainda está vivo — ele já teve problemas de saúde terríveis. Para ser justo, são poucos os americanos que acabam vivendo numa comunidade Bayaka por mais de 30 anos. Ele faz parte dessa família, dessa floresta — ele é parte do grupo".

Sarno também é categórico: segundo ele, seu lugar é entre seus amigos e sua família Bayaka.

"Eu definitivamente faço parte da comunidade — quer eles gostem ou não", disse Sarno suavemente. "Mesmo assim, às vezes eu ainda me sinto como um forasteiro."

Foi esse status de forasteiro, no entanto, que estendeu a fama de Sarno para muito além das florestas da República Centro-Africana.

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Sarno dentro de sua casa na floresta. Crédito: Song from the Forest

Durante seus anos de faculdade, Lobley havia se deparado como o nome de Sarno em algumas gravações comerciais de música Bayaka. Ele chegou a ler o livro de Sarno, Song from the Forest: My Life Among the Ba-Benjelle Pygmies, antes de entender a ligação do americano com Oxford. Em 2005, após encontrar as mais de 1.000 horas de gravações esquecidas no depósito do Museu Pitt Rivers, Lobley mandou um email para Sarno, explicando seu plano de ressuscitar esses 20 anos de documentação musical. Apesar da troca constante de emails, Lobley e Sarno só se conheceram quatro anos depois.

Em 2011, o trabalho da dupla resultou na criação do projeto Reel 2 Reel — uma plataforma digital aberta onde as melhores gravações de Sarno são disponibilizadas. O projeto consiste, nas palavras de Lobley, em "gravações acessíveis e playlists que chamam a atenção para a riqueza desse material".

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O foco do projeto era classificar as fitas de Sarno e digitalizá-las a fim de criar um acervo acessível. Em abril de 2012, Lobley convidou Sarno para uma visita ao museu, e a dupla passou as semanas seguintes ouvindo as gravações para que Sarno identificasse corretamente os diferentes tipos de cantos.

O projeto da dupla, cujo objetivo é preservar as línguas indígenas e tradições orais dos Bayaka, se assemelha ao trabalho de Alan Lomax, um etnomusicólogo e folclorista que gravou milhares de músicas e entrevistas para o Arquivo de Música Folk Americana; e ao trabalho de Hugh Tracey, outro etnomusicólogo que catalogou músicas das regiões sul e central da África. Mas enquanto Lomas e Tracey faziam curtas pesquisas de campo, focadas na gravação das melhores canções e sons das comunidades por eles pesquisadas, Sarno — que não possui formação como antropólogo ou etnomusicólogo — pode ser descrito como um "artista da paisagem sonora", alguém que mergulha num novo ambiente, capturando tanto a amplitude de suas paisagens sonoras quanto suas músicas e sons particulares. O que torna o acervo de Sarno único é o fato dele ter vivido entre os Bayaka, capturando a evolução de sua sonoridade ao longo de toda uma geração.

Nos últimos anos, Lobley tem buscado novas formas de expandir o alcance desse material. Em uma dessas tentativas, ele transmitiu performances dos amigos e parentes Bakaya de Sarno para os visitantes do museu, dando-lhes a oportunidade de escutar a música reverberando por entre os diferentes ambientes da exposição. Após a estreia do documentário Song from the Forest, em 2013, Lobley organizou uma exibição especial do filme, trazendo Sarno à Oxford para responder perguntas sobre sua obra e seu acervo sonoro.

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Tudo parecia ir bem — mas aí veio a guerra civil.

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Crianças Bayaka em um campo de refugiados improvisado no meio da floresta. Crédito: Imagem: Louis Sarno/Pitt Rivers Museum

Em dezembro de 2012, as forças rebeldes da Séléka entraram em conflito com o governo da República Centro-Africana. O conflito chegou até Yadoumbé — um assentamento Bayaka que Sarno ajudou a criar — forçando cerca de 600 Bayakas a se abrigaram no coração da floresta.

Na época, Lobley ainda estava digitalizando o acervo musical de Sarno, que por sua vez ainda se dedicava a fazer novas gravações. Com a intensificação da guerra civil, os dois perderam contato por três meses. Escondidos nas profundezas da floresta, os Bayaka haviam se dividido em grupos de 20 pessoas, esperando pelo fim da guerra em acampamentos improvisados. Durante essa época, o conflito infiltrou-se em suas músicas.

"Durante a cerimônia Boyobi, haviam alguns espíritos que representavam os Séléka. Eles usavam ombreiras e carregavam armas, e nós ríamos muito deles, mas eles eram, de fato, o espírito Séléka — agora eles faziam parte do ritual", conta Sarno.

Em 2013, o conflito perdeu força, permitindo que Sarno e os Bayaka voltassem para Yadoumbé. Embora ele tenha escapado da violência, Sarno perdeu bens materiais de grande valor sentimental. Durante um saque, membros da Séléka invadiram a casa de Sarno, destruindo um HD que continha fotos de suas viagens pelo Congo, alguns livros que ele escrevia há quatro anos e uma série de anotações acumuladas ao longo de três décadas. Os membros da Séléka também destruíram, tragicamente, uma flauta que havia pertencido ao último Bayaka capaz de tocar e fabricar esse instrumento.

Em situações de calamidade extrema, a sensação de dano irreversível é uma das coisas mais difíceis de superar; segundo Sarno, desde o início da guerra, as coisas não são mais as mesmas na República Centro-Africana.

"O país está um caos", lamenta ele. "Os Bayaka não se sentem tão seguros quanto antigamente. A floresta era o mundo deles, eles eram os reis e rainhas desse reino, mas hoje eles vivem na corda-bamba".

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Os Bayaka enfrentam diversos desafios. Além da guerra civil, que ameaça a paz no país, a presença de madereiros e a caça ilegal de pequenos mamíferos que servem de alimento para os Bayaka têm abalado esse povo e suas tradições milenares.

"Suas tradições estão se perdendo por causa do desmatamento ", acrescentou Sarno.

Nelson concorda com a opinião de Sarno quanto à repercussão da guerra civil na conservação das florestas tropicais. Ele afirma que a presença de Sarno ajudou os Bayaka de Yadoumbé a preservarem suas práticas milenares.

"A comunidade Bayaka de Yadoumbé foi a que mais preservou suas tradições", diz Nelson. "Louis passa seus dias tentando fazer com que os Bakaya se orgulhem de suas própria cultura".

Venant diz que Sarno é um "raro exemplo" de alguém que mergulhou completamente na cultura Bayaka, ajudando-os a preservar seu patrimônio cultural. "Espero que Sarno continue a fazer o que ele faz", disse.

Tanto Nelson quanto Jerome Lewis, um antropólogo da UCL, me explicaram que o governo da República Centro-Africana permitiu que algumas madereiras e instituições de conservação, como a WWF, ocupassem certas áreas dessas florestas, ao mesmo tempo proibindo que os Bayaka ocupem ou cacem nessas terras. Um dos objetivos da WWF é proteger elefantes e gorilas da caça predatória, mas Lewis diz que a perda de acesso à floresta tem diminuído a transmissão dos conhecimentos tradicionais entre os membros mais jovens da comunidade Bayaka.

"É por isso que digo que a conservação florestal é um tipo de genocídio cultural, pois ela tira o acesso desses povos a essas áreas, impedindo a transmissão de conhecimentos tradicionais ", disse ele. "Eles estão matando uma das culturas mais antigas da terra".

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Johannes Kirchgatter, diretor do Programa de Preservação Africana do WWF, admitiu que restringir o acesso dos Bakaya à floresta não melhora a situação desse povo. No entanto, ele acrescentou que, nos últimos anos, a WWF tem aliado a conscientização das comunidades indígenas à conservação da vida selvagem. Kirchgatter afirmou que o desmatamento da floresta não afeta apenas os Bakaya, mas também outras comunidades.

"Se abríssemos todas as áreas protegidas, outros além do Bayaka — que não são o problema, já que eles sabem usar a floresta de forma sustentável — entrariam lá para caçar, e dentro de pouco tempo a floresta seria dizimada, deixando os Bayaka numa situação ainda pior", disse Kirchgatter.

"É preciso encontrar soluções duradouras para garantir que os Bayaka possam ter todos esses recursos necessários a longo prazo".

A casa de Sarno. Crédito: Louis Sarno

Desde 2012, Sarno sofre de problemas de saúde que o obrigam a voltar de tempos em tempos aos EUA em busca de tratamento. Com o declínio de sua saúde, ele se viu obrigado a decidir entre permanecer em sua amada comunidade ou se mudar para um apartamento em Nova Jersey, onde ele teria mais acesso a serviços médicos.

Ainda assim, sua indecisão não parece ter durado muito.

Em 2015, recebi um email de Sarno dizendo que ele havia finalmente coletado a madeira necessária para concluir sua nova casa na floresta onde vivem ele, seu filho Samedi e o resto da sua família Bayaka. Vez ou outra vejo fotos de Sarno em sua nova casa, ou de um inseto gigante que ele fotografou, no feed do meu Facebook. Os posts indicam que ele não tem nenhuma intenção de deixar seu lar em meio à selva.

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Quando o assunto é sua idade e sua saúde debilitada, no entanto, Sarno é bem realista.

"Eu não posso mais me responsabilizar por essas pessoas. Eu não tenho a mesma energia, e eu estou muito preocupado com os Bayaka", disse.

Venant, um coordenador Bayaka do FPP que nunca foi apresentado a Sarno mas que conheceu seus feitos através de amigos Bayaka residentes da República Centro-Africana, reiterou as preocupações de Sarno.

"Eu gostaria que Louis continuasse a fazer o que ele faz pelos Bayaka. Ele deveria treinar outros para continuar a fazer esse tipo de trabalho", diz Vernant.

Sarno é inflexível: para ele, a preservação de seu acervo sonoro é a única forma de preservar essa cultura. Tanto ele quanto Lobley querem que o acervo mantenha sua relevância nessa nova era digital. Mas acima de tudo, a dupla quer mostrar como esses acervos sonoros podem ajudar a manter a relação simbiótica entre os museus que os abrigam e as comunidades de quem elas preservam a memória.

"De certa forma, o projeto Reel 2 Reel usou apenas um pedaço ínfimo desse potencial. Eu acredito que é o imenso potencial desse acervo que o torna tão incrível", diz Lobley.

Atualmente, Lobley se uniu a videomakers e outros antropólogos que trabalham com comunidades Bayaka a fim de desenvolver outros projetos.

"Queremos ir além do áudio. O que importa é o que você faz com esse material", diz. Ele acrescenta que isso significa desenvolver mais programas culturais e encontrar patrocinadores que incentivem uma maior participação dos Bayaka na preservação e no uso desse acervo. Isso incluiria a distribuição de equipamentos que permitam que os Bayaka ouçam suas próprias músicas, ou releituras de suas músicas feitas por outras pessoas. Outro exemplo, diz Lobley, seria ensinar os Bayaka a usar câmeras de vídeo, o que permitiria que eles retratassem problemas sociais como o alcoolismo e outras dificuldades que afligem suas comunidades.

"Distribuir iPods para que os Bayaka possam escutar esse acervo em suas vilas seria um jeito efetivo de lembrá-los da riqueza de sua herança cultural. No entanto, sem o acesso à floresta, esse estilo de vida está fadado a desaparecer", diz Lewis.

De volta à República Centro-Africana, Sarno — que só tem acesso à internet na sede da WWF — insiste que além de aumentar o acesso dos Bayaka à floresta, à educação e à saúde, é preciso superar a barreira digital que os separa do mundo. Ele espera arrecadar fundos para instalar uma rede de wifi na vila onde mora para que assim os moradores tenham contato maior com o mundo exterior. Sarno quer que o mundo conheça os diferentes moradores da vila, escute suas músicas e ajude os Bayaka a reconhecer a riqueza de seu passado.

"Nós temos que preservar nosso passado ao máximo, pois só assim saberemos quem somos", diz Sarno.

"Eu amo os Bayaka. Não quero que eles desapareçam sem deixar rastros."

Tradução: Ananda Pieratti