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Tecnologia

Controlando um Carro da Volvo Sem Utilizar as Mãos

Dei uma volta no carango da Volvo que dispensa o motorista e fiquei pensando no que poderia fazer se não precisasse dirigir.
Aí, jão, repare nesse carro! Crédito: Felipe Larozza/VICE

​Tocar violão. Fazer hang loose. Dormir. Jogar xadrez online. Beber uma cerveja. Sexo com amor. Fumar. Convidar pessoas pra dar um rolê. Ler e mandar mensagem no Whatsapp. Ensaiar com a banda. Fazer um rango num forno portátil. Shred. Caipirinha. Pegadinhas no cemitério de madrugada. Colocar o cachorro ou o gato ao volante. Ir ao drive-thru do McDonalds. Maquiagem. Empinar pipa. Jogar FIFA. Chamar alguém na rua e se abaixar logo em seguida.

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Se existem tantas coisas a se fazer dentro de um carro que se dirige sozinho, por que a ideia de trabalho vem à tona quando um modelo desses aparece? Foi esse papo de produtividade que o fotógrafo Felipe Larozza e eu ouvimos ao nos deparamos com o carro autônomo da Volvo há alguns dias. Nada de exclusividade por ali. Seja pra nós, que esperamos nossa vez pra dar um rolê na máquina entre outros jornalistas, seja pra Volvo, que não atua sozinha nas pesquisas com automóveis que dispensam motorista.

Há alguns anos esses carros deixaram de ser item de desenhos animados como Jetsons ou filmes futuristas tipo Minority Report para serem, enfim, algo plausível em versões de teste e protótipos. Nós mesmos já tínhamos testado um carro autônomo em julho — ​aquele que atropelou a Ana Maria Braga, lembra? Universidades pelo mundo fazem pesquisas nessa área e, além de companhias automobilísticas, gigantes da tecnologia como Google também estão atrás de um carro auto-dirigível.

Tem quem diga que o objetivo do Google com isso é fazer com que passemos mais tempo esmerilhando nossos smartphones, consumindo dados e rendendo grana pra eles. Compreensível. A ficção científica mais otimista nos leva a crer que a tecnologia deixa o ser humano mais livre. Mas de repente, chega a realidade com cabos e carregadores que mais parecem coleiras nos arrastando de cima abaixo aos mandos e desmandos dos dispositivos conectados à rede, notificando e apitando a toda hora.

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O Jorge Mussi mostrou que na chuva o carro também manda bem. Crédito: Felipe Larozza/VICE

Como o negócio da Volvo é fazer carros, a meta dos caras é vender mais automóveis em um mercado que, no Brasil, teve a primeira retração em 2013 após três anos de estagnação. O carro autônomo entra nessa história com promessas de economia e segurança. "Nosso objetivo principal é acabar com fatalidades em acidentes em automóveis da Volvo até 2020", me disse Jorge Mussi, diretor de assuntos governamentais e serviços ao cliente da empresa, enquanto a gente dava uma volta na caranga no maior estilo "olha, mãe, sem as mãos".

Eu fiquei no banco do passageiro e o Jorge ficou como motorista. Ele tacou-lhe o pau no bicho bem atrás de um carro comum da Volvo. Esse é o princípio fundamental para o autônomo funcionar: siga o mestre. Um conjunto de radares e lasers captura sinais ao redor para que o carro repita os movimentos de quem vem a frente, mantendo-se na faixa e desviando de elementos externos — animais, por exemplo. Segundo Jorge, isso diminui a chance de acidentes por falha humana.

As pesquisas da Volvo indicam que seus protótipos também diminuíram o consumo de combustível em 15% devido a fatores como maior precisão na aceleração e frenagem. Além de ser um alívio para bolso dos motoristas, isso também reduziria a agressão ao meio ambiente tanto na produção de gasolina quanto na poluição do ar. O sistema fica melhor ainda com o GPS refinado do carro que, segundo o Jorge, tem margem de erro de 10 centímetros. Isso eu não pude comprovar porque, assim como meu celular, o GPS não encontrou rede na pista de testes.

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O funcionamento autônomo dele depende de um único botão no volante. Quando Jorge apertou o dito-cujo, a direção começou a se mover sozinha seguindo o carro a frente. Nas curvas, a sensação de que ia dar ruim foi grande, mas ele correu pelo certo, ainda que sua roda dianteira teimasse em se aproximar da tangente da pista. E se um motoboy brotasse do nada? "O carro tem câmeras que identificam objetos na lateral do carro e o que está à frente. E ele sabe, baseado no banco de dados, o que está na frente", me explicou o Jorge.

Siga aquele carro! E seguiu… Crédito: Felipe Larozza/VICE

Acontece que esse banco de dados também depende de uma rede para funcionar. A ideia da Volvo só faz total sentido em uma estrutura totalmente entrelaçada que vai de estradas inteligentes a sistemas de gestão de trânsito conectadas, passando, é claro, por automóveis completamente independentes. O complexo criado, quase uma utopia, é o último estágio dentro da classificação para carros autônomos da Administração de Segurança Nacional no Tráfego em Rodovias (NHTSA, em inglês), um dos órgãos norte-americanos responsáveis pelo trânsito.

Enquanto isso não vem, a Volvo faz planos e protótipos. Em 2017, haverá 100 carros autônomos circulando pelas ruas de Gotemburgo, na Suécia. Eles farão parte do primeiro teste de fogo da companhia, circulando em pistas com situações, condições e velocidades reais de trânsito. O modelo que testamos poderá ultrapassar os 60 km/h, detectar ciclistas e até estacionar sozinho — coisas que ele já faz, segundo o Jorge, mas que não presenciei durante nosso teste.

Não duvido que, passado alguns anos após esses testes, carros autônomos realmente deem as caras nas estradas do mundo, mas duvido que eles venham a ser a regra no mercado automobilístico. Existem questões que ainda surgirão, como quem responsabilizar em caso de acidente ou quais as chances de um veículo desses ser vítima de hackers, e isso atravanca a utopia sobre rodas da Volvo, do Google ou da UFES.

Mais fácil que pensar os caminhos dos transportes autônomos é pensar, enfim, como gastaríamos nosso tempo neles, ainda que Jorge tenha insistido que a Volvo ainda aceitará o bom e velho ser humano. "Nosso sistema não substitui o motorista. Ele apenas auxilia", disse o engenheiro. Resta saber se o ser humano aceitará o bom e velho carro. Em um estágio de tamanha evolução tecnológica, as próximas gerações devem encontrar alternativas plausíveis às viagens sobre rodas. Pode ser que as crianças do futuro se espantem com as horas que passamos enfurnados em carros enquanto não podemos fazer nada senão dirigir.