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Marco Rasmy, ativista de Sohag, uma cidade na margem oeste do Nilo: Às 8h30, [membros da Irmandade Muçulmana] estavam reunidos na Al Thaqafa, a principal praça de Sohag, ponto de encontro deles na cidade – também é lá que fica a igreja Mar Guirguis. Às 9h, vi um ônibus da igreja ser atacado e queimado pelos manifestantes enquanto eles gritavam “Islameya! Islameya!” [Estado islâmico] e amaldiçoavam os coptas. Como eles não conseguiram invadir a igreja por causa da porta de ferro, eles quebraram as placas de sinalização em frente e arrombaram a porta do anexo da igreja. Então, eles começaram a atacar todas as lojas ao redor da praça, incluindo a farmácia do Dr. Mounir, que ficava bem ao lado. Eles incendiaram carros, depois invadiram prédios, incluindo um prédio de apartamentos bem em frente à igreja – as pessoas estavam correndo e tentando escapar. Isso continuou até às 11h30, quando os veículos blindados do Ministério do Interior chegaram e dispararam gás lacrimogêneo. Eles lutaram até às 13h.
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Tenho certeza porque tenho frequentado os protestos desde novembro de 2011, e sei muito bem quem são [os membros da Irmandade] e como eles agem. Muitos deles estavam usando a faixa verde na cabeça e carregavam bandeiras verdes [da Irmandade Muçulmana]. E o ponto perto da igreja onde tudo começou é o lugar onde os manifestantes da Irmandade Muçulmana sempre se encontram.Em sua opinião, qual a razão desses ataques?
Eles sempre odiaram os coptas. Eles gritavam contra nós na Praça Al Theqafa, incitando a violência desde 30 de junho [quando os protestos contra o presidente Morsi começaram]. Há mais de um mês, eles estão provocando as pessoas – além disso, eles sabem que tentar atacar o exército é uma batalha perdida. É mais fácil nos atacar. Eles acreditam que os cristãos são os responsáveis pelo que aconteceu no dia 30 de junho, mesmo que outras pessoas também tenham participado do protesto – como o Xeique el Azhar [um proeminente líder muçulmano]. Mas de jeito nenhum eles atacariam pessoas assim.
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Andei pela área depois do ataque – muitas pessoas estão com medo e querem fugir, outros são mais estoicos. Há uma sensação de tristeza reprimida. Sohang nunca ficou nesse estado antes. No entanto, muitas pessoas agradecem a Deus por ninguém ter morrido. No final das contas, prédios podem ser reconstruídos, mas não se pode ressuscitar os mortos.O que você acha da resposta do governo e do exército aos ataques? Você acha que eles estão fazendo o possível para proteger as igrejas e os lares cristãos?
Acho que o exército não se precaveu de forma apropriada. Eles não calcularam o desfecho da Rabaa e a resposta deles foi incrivelmente lenta. O ataque aconteceu das 9h às 11h30 e não havia um único policial ou soldado lá. Qual é a desculpa deles para não interferir antes?Você teme que isso possa continuar?
Honestamente, a comunidade cristã não pode fazer nada. Mais ataques estão acontecendo hoje e nada tem sido feito sobre isso. Além disso, o que podemos fazer? As pessoas lutam para ter o que comer, elas não vão usar o dinheiro da comida e para comprar armas. Isso não faz sentido. ***Por que você acha que os cristãos se tornaram alvos? Não faria mais sentido a Irmandade Muçulmana atacar o exército ou prédios do governo?
Bispo Kirollos Gendi de Faiyum, uma cidade ao sul do Cairo: Não sei. Sempre fomos vizinhos e amigos. Nunca houve nenhum indicador de que algo assim pudesse acontecer. Estou verdadeiramente chocado; não sei o que dizer nem o porquê desses ataques em particular. Isso não faz sentido.
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Todo mundo está triste e aterrorizado, especialmente os muçulmanos moderados que sentem que esses incidentes estão difamando sua religião.Se isso continuar, como a comunidade cristã vai reagir?
Agora, estamos somente tentando proteger a igreja e as pessoas estão tentando salvar o que podem. Fora isso, não tenho como lhe dizer.***Como a comunidade cristã de sua área se sente sobre o que aconteceu?
Bispo Weissa Sobhi, da cidade de Deir Mawas: Todo mundo está aterrorizado. A Irmandade Muçulmana está andando nas ruas com metralhadoras. Ninguém está saindo de casa.Sei que a Igreja Copta está pedindo que seus seguidores não retaliem, mas você acha que há alguma chance de alguém tentar resolver a questão com as próprias mãos?
Não é típico de nossa religião retaliar ou procurar por vingança, além do mais, isso só aumentaria a violência, então, qual seria o sentido disso?O que você acha da resposta do exército ao que aconteceu? Eles estavam preparados para isso?
O exército está concentrado nas cidades maiores, não está sequer pensando em outras cidades e vilas.Como vocês planejam reconstruir sua igreja? A comunidade fará isso ou vocês dependem do governo?
Ainda preciso me encontrar com os chefes da Igreja e decidir essa questão.Se isso continuar, como a comunidade cristã vai reagir?
Vamos aguentar da melhor maneira que pudermos, mas estou preocupado que as pessoas comecem a deixar o Egito por temerem por suas vidas.
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