cinema

A mulher que redefiniu o que significa ser trabalhadora sexual

Escritora, poeta e activista, Grisélidis Réal foi pioneira na ideia de que trabalho sexual poderia ser uma escolha, não exploração. Conversámos com a realizadora responsável por um novo filme sobre a vida da suíça.

Por Sirin Kale
29 Novembro 2016, 2:00pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Uma imagem ficou-me na memória depois de ver o filme da realizadora belga Marie-Eve De Grave sobre Grisélidis Réal, a famosa trabalhadora sexual, activista e escritora suíça. Réal está a dançar na sala de um apartamento de aparência boémia. Tem uma bebida numa mão, eyeliner preto perfeitamente traçado e o cabelo preso, curto, brincos enormes a balançarem, enquanto ela ri lascivamente para a câmera. Atrás dela, os amigos aplaudem. É um lembrete potente da personalidade exuberante e dominante de Réal.

Ainda agora - mais de uma década depois da sua morte, em 2005, devido a um cancro - a vida de Réal divide opiniões. É uma protegida no mundo literário: uma enfant terrible cujos diários indiscretos sobre a vida como trabalhadora sexual escandalizaram a sociedade burguesa de Paris. É, também, um ícone feminista: sem dúvida uma pioneira da ideia de que o trabalho sexual pode ser uma escolha numa perspectiva de emancipação e não de exploração. Mas, no filme, é também criticada - com razão - por não ser uma boa mãe, com as suas longas ausências e a sinceridade sobre o seu trabalho a dificultarem a vida dos filhos enquanto cresciam. E a sua visão fetichista da sexualidade masculina negra é igualmente problemática (adiante falo mais sobre este aspecto).

O filme de Grave, Belle de Nuit , traça a vida de Réal, desde o seu crescimento numa respeitável família de classe média suíça - filha de professores - até aos seus últimos dias em Genebra e Paris. A decisão de Réal de se tornar uma trabalhadora sexual é retratada de maneira bastante directa: desesperada para alimentar os filhos (na época vivia na Alemanha com o amante), aceita a proposta lançada de um carro que passa por ela. Para Réal, a decisão de cruzar o limite é absoluta: daquele ponto em diante ela torna-se uma trabalhadora sexual - inicialmente para alimentar os filhos, mais tarde por vontade própria.

A vida de Réal poderia cair no esquecimento, assim como a de muitas trabalhadoras sexuais, se não fosse pelos seus diários. Como o filme torna claro, a impressão que ela deixava nas pessoas era tão absoluta que ainda perdura na memória daqueles que a conheceram bastante tempo depois da sua morte, com ou sem livros. Mas, com a publicação do seu primeiro romance, Le noir est une couleur , em 1974, Réal tornou-se conhecida por um público mais alargado. Nele, conta a realidade do trabalho sexual, com um olhar bem-humorado e humanista.

Seguiram-se mais livros, mas, apesar do sucesso literário, Réal não desistiu do trabalho sexual até pouco antes da sua morte. Tornou-se uma activista e defensora dos direitos dos trabalhadores sexuais. Uma auto-intitulada "puta revolucionária". Para ela, trabalho sexual era um tipo de ciência humanista, uma forma de entender a natureza humana e um estilo de vida que existe, independentemente de estruturas de poder neutralizantes, em vez de ser visto como exploração e opressão nas mãos de proxenetas. Trabalhou para criar um grupo de apoio para trabalhadoras sexuais de Paris e um banco de dados internacional sobre trabalho sexual - provavelmente o primeiro do Mundo - em Genebra.

De Grave filmou Réal pouco antes da sua morte em 2005 e essas cenas são profundamente emocionantes: uma Réal claramente doente, mas ainda cheia de força de viver, lê o seu poema, Morte de uma Prostituta, numa cama de hospital, cercada por cabos e monitores. Outras partes do filme chocam: Réal falou sempre abertamente sobre o seu amor e paixão sexual por homens negros e escreveu sobre isso extensivamente nos seus diários. De Grave ilustra essas cenas com filmagens de homens negros de tronco nu. Uma decisão duvidosa, que fetichiza a sexualidade negra de uma maneira que podia ser culturalmente aceite nos anos 60, mas não o é hoje.

Para saber mais sobre a vida extraordinária de Réal, conversei com De Grave em Bruxelas, onde Belle de Nuit estava em exibição na 15º edição do Pink Screens, um festival de cinema queer, que acontece anualmente na cidade. Abaixo podes ler uma transcrição da nossa conversa, que foi editada para maior clareza.

Todas as fotos cortesia Pink Screens

VICE: Olá, Marie-Eve. Como é que acabaste a realizar Belle de Nuit?
Marie-Eve De Grave: Li o seu primeiro livro, Le noir est une couleur, e fiquei com uma forte impressão. Pensei: "Isto é uma coisa incrível!". Posteriormente, acompanhei Réal em 2005, durante a sua última viagem a Paris e filmei-a. Mas ela estava doente, já no fim da vida e isso marcou-me. Fiquei profundamente tocada por ela.

Como foi filmar Réal no hospital, mesmo antes de ela morrer?
Sinceramente, não me dei conta de que ela estava a morrer. Mas pude filmar o seu último poema, Morte de uma Prostituta , o que foi um presente maravilhoso. Ela morreu duas ou três semanas depois e eu pensei: "O que é que vou fazer com este presente?".

Porque é que achas que Réal não é tão famosa internacionalmente?
Quando o seu livro foi lançado em 1974, foi editado de uma certa forma e as pessoas que o publicaram não se aperceberam do poder que tinha. Viram só uma prostituta. Mas Grisélidis não era apenas isso. Demorou algum tempo e um editor que estava disposto a reler os livros e a dar-lhes uma segunda vida.

A percepção que as pessoas tinham dela, enquanto trabalhadora sexual que se transformou em escritora, limitou o seu sucesso artístico?
O facto de ela ser uma prostituta seguia-a como uma sombra. Sim, ela era uma prostituta, mas é uma vergonha que tenha sido definida só por isso. Grisélidis era também uma artista.

Como era ela pessoalmente?
Quando a conheci, tive essa sensação de familiaridade, como se já a conhecesse. Era muito sincera. Tinha uma personalidade enorme. Olhava para a sociedade com grande humanidade. Fiquei impressionada com a sua inteligência.

Porque é que depois de todo este tempo, as pessoas continuam a ver o trabalho sexual como exploração por definição?
Acho que estamos num período muito estranho e retrógrado. Tudo aquilo pelo que as nossas mães lutaram - liberdade, igualdade, liberdade sexual - parece esfumar-se e parece que estamos a voltar à Idade Média. Claro que ser prostituta é horrível quando és explorada ou traficada. Mas há tipos diferentes de trabalho sexual. As prostitutas que conheço são muito inteligentes e conhecem profundamente a humanidade. Elas já viram de tudo.

Como tem sido a reacção ao filme?
Tenho conhecido mulheres que se identificam como feministas e que odiaram. Opõem-se ao retrato do trabalho sexual. Sinto que a nossa sociedade não lida muito bem com o sexo. Sexo é tudo, mas temos medo dele. Grisélidis sabia disso, entendia esse tipo de alienação. Mas, a realidade é que o trabalho sexual é muito mais complexo e complicado. Era isso que ela estava a dizer.

Mostraste o filme a alguma trabalhadora sexual? O que é que essas pessoas acharam?
Muitas pessoas que conheciam Grisélidis viram o filme e ficaram emocionadas com a complexidade que o filme lhe confere.

Réal contradizia dois grandes tabus da sociedade: era uma mãe não-convencional (alguns diriam uma má mãe) e trabalhava abertamente na indústria do sexo. Foi difícil representar isso?
Não posso dizer que foi fácil para os seus filhos, terem uma mãe como Grisélidis. Mas, agora são livres, são artistas, assistentes sociais e pintores. Fazem o que querem e não são conformistas.

Para mim, Grisélidis era uma mulher cheia de paradoxos. Como todos nós. És mãe, mas às vezes não queres ver os teus filhos, és esposa, mas às vezes não queres ver o teu marido. Acho que se fôssemos honestos com nós próprios, aceitaríamos que ser humano é difícil. É um trabalho muito duro!