
Publicidade

Richard: Tudo bem, e você?
Publicidade
Sim, bem, eu na verdade sou de Londres. Stephen [Hackett], o outro editor, é que nasceu na Irlanda do Norte. Ele é o diretor de uma organização comandada por artistas chamada Catalyst, e eu sou o coeditor de uma revista de fotografia chamada Source, ambas com base em Belfast. De alguma maneira, nós nos conhecemos – não lembro como – e começamos a colaborar em vários projetos. Mais tarde, começamos a publicar The Vacuum, em 2003. Eu, na verdade, tinha me mudado para Belfast em 1997. Antes disso, vivia em Paris, mas, por algum motivo, simplesmente me interessei pelo lugar e decidi me mudar para lá.Isso foi um ano antes do acordo da Sexta-Feira Santa. Você não teve problemas?
O fato de eu ser inglês não tinha importância – sempre houve ingleses por lá… Jornalistas e tal. O clima ainda estava meio ruim; tinha havido um surto de tiroteios, e as pessoas se preocupavam mais com a violência e com os conflitos sectários do que hoje em dia. Ainda vou para lá regularmente por causa do trabalho, mas minha família está em Londres, então agora eu passo mais tempo na Inglaterra.Em que a cidade está diferente desde que você chegou?
A transformação mais perceptível foi a do centro da cidade, que foi completamente renovado. Uma das obsessões da The Vacuum é a propaganda rósea que se faz a respeito de Belfast – sua indústria de RP e o controle que o Conselho tem sobre o planejamento da cidade. Houve um bom exemplo disso no ano passado, quando contrataram um artista para criar uma imagem enorme de uma menina sorridente, ocupando acres inteiros de terra baldia perto do cais. Outro caso foi o do "Bairro da Catedral", em tese, desenvolvido para ser o bairro cultural da cidade, mas que ironicamente acabou obrigando as galerias a fechar. Noutras regiões da cidade, shoppings inteiros foram misteriosamente incendiados, e para os empreendedores locais é normal fazer uso de seguranças particulares, para garantir que coisas como aberturas de exposições de arte não "saiam do controle". Em resposta a tudo isso, encomendamos colunas como a intitulada "O que ele está construindo ali?" assim como, por outro lado, textos que são voos inclassificáveis da imaginação.
Publicidade

Ela partiu de um ânimo satírico, mas nós dois estávamos interessados em publicações impressas. É simplesmente fantástico poder produzir alguma coisa a um custo mínimo para um grande público; acho que nosso gasto com a primeira edição ficou em torno de 700 libras (2.600 reais). Outro motivo foi a vontade de discutir as coisas duma maneira que os jornais locais e a BBC da Irlanda do Norte não proporcionam. Nossa primeira edição foi sobre cinema, então entrevistamos cineastas locais e falamos sobre estereótipos. A Irlanda do Norte está soterrada sob uma enorme massa de clichês e queríamos encontrar um meio de sair disso.Como assim?
Um estereótipo comum a respeito das pessoas da Irlanda do Norte é o de que todo mundo tem um senso de humor muito negro, o que não é verdade. Algumas pessoas que conheço certamente têm um senso de humor autodepreciativo, mas não acho que isso deva ser generalizado.

Não, e ainda estamos perplexos com o que aconteceu, então vejamos. Fizemos duas edições: uma foi sobre Deus, a outra, sobre Satanás. Foi uma mistura de artigos cômicos com outros bastante sérios. Por exemplo, na edição "Deus", há um artigo sobre arquitetura de igrejas, e um texto bastante digno, escrito por mim, sobre as imagens de Deus em pinturas clássicas, até a aparição de Jesus numa tortilha.
Publicidade


Bom, espero que sim. Mas num espírito brincalhão, porque a coisa toda foi ridícula demais. Depois do furor da imprensa, recebemos do Conselho uma carta insistindo que nos desculpássemos com os cidadãos de Belfast, o que achamos absurdo, então respondemos na mesma moeda. Conseguimos montar a edição "Desculpa", que explorou o conceito de contrição, e também os diferentes tipos de censura que haviam ocorrido na cidade durante os últimos anos.Também conhecíamos algumas pessoas que estavam a fim de diversão, e assim organizaram alguns eventos satíricos. Um ônibus circulou pela cidade com uma grande placa na lateral contendo a palavra "desculpa", mas o melhor evento foi realizado por um de nossos colaboradores, que se vestiu de "Papai Noel Contrito" numa tenda no centro da cidade, cercada de latas de cerveja amassadas. Era início de dezembro e ele dizia às pessoas que o visitavam que elas não ganhariam presentes porque o Conselho os havia recolhido. Gostei disso. Mas enquanto tudo isso acontecia, eu e o Stephen estávamos ganhando prêmios, e desde então diminuímos um pouco a frequência de publicação do jornal, e fizemos alguns filmes.
Publicidade

Neste momento, nossa próxima edição dará seguimento a um filme que fizemos, chamado "Monster of Ulster", sobre um mundo imaginário no qual a Irlanda do Norte é povoada por monstros, que são tratados basicamente como um estorvo e um motivo de constrangimento. Terminamos também outro filme, chamado "Busby Furball", que será exibido no Belfast Film Festival no final do mês. É difícil explicar qual é o tema, mas o filme inclui cenas de relações sexuais com um fungo enorme e uma máquina de transferência cerebral. É um estilo meio Beckett.Entendi.
De maneira geral, gostamos de colaborar com outras organizações explorando novas ideias. A edição "Ingleses" foi um bom exemplo disso. Fizemos uma exposição na cidade, em uma galeria chamada Belfast Exposed, de fotografias tiradas pelo exército, de suas próprias atividades, fotos que eram essencialmente para uso interno. Havia fotos de pinups usadas para levantar o moral das tropas, e também de jornalistas sendo ensinados a usar armas. Queríamos ter vários ângulos diferentes, mas começando da perspectiva dos ingleses que viveram na Irlanda do Norte, junto com uma discussão sobre a presença do exército – esse tipo de coisa.

Publicidade
Sim, isso é evidente. Aqui na Irlanda do Norte, é preciso que um acontecimento seja muito dramático para merecer sair nos noticiários ou na primeira página dos jornais. Há muita violência de pequena escala na Irlanda do Norte que simplesmente não recebe uma cobertura ampla; e, para ser justo, muita gente aqui provavelmente também não se interessa muito. Até certo ponto, isso é resultado de uma falta de consciência da história da Irlanda e da história da Irlanda do Norte em geral, mas os habitantes de muitos outros países também são assim. Lembro de explicar a uma amiga francesa que eu estava me mudando para Belfast, e ela me disse que achava que o IRA era o Exército Revolucionário Islandês.Há! Por algum motivo, esse nome não parece tão assustador.
Por outro lado, embora essas coisas de fato aconteçam, ainda há uma grande concentração de pessoas talentosas na Irlanda do Norte que estão tentando fugir dessa narrativa. Recentemente, vi aquele site, o Loyalists Against Democracy, satirizando os protestos da bandeira, ocorridos depois que o Conselho Municipal proibiu que a bandeira britânica fosse hasteada em propriedades do Conselho. Não sei bem o que achar da perspectiva deles, porque não li o suficiente. Mas o que com certeza é verdade é que na Irlanda do Norte acontecem coisas tão idiotas que basta apenas publicá-las textualmente para que as pessoas achem graça, e isso parece que vai continuar sendo uma tradição por algum tempo.Valeu, Richard.@HuwNesbittTradução: Marcio Stockler