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A desconfortável história das dietas modinha

Da “dieta do vinagre” do Lord Byron até os waist trainers popularizados pelas Kardashians, há séculos as pessoas vêm tentando perder peso de maneiras bizarras — e geralmente ineficazes.
14.3.16

Imagem via usuário do Flickr Jamie.

As dietas da moda normalmente cumprem três exigências: prometem resultados impressionantes, requerem mudanças dramáticas na dieta e estilo de vida, e ganham um baita popularidade. Um quarto parâmetro muitas vezes entra em jogo, com essas dietas mais tarde sendo declaradas fraudulentas, perigosas e completamente infundadas.

Como muitas mulheres, acreditei em várias dietas, suplementos e tratamentos da moda. Eu mesma já inventei algumas dietas, como no primeiro ano de colegial, quando eu só comia cápsulas de chá-verde e peru defumado. Já tentei queimar gordura localizada com infravermelho no salão de bronzeamento. Já comprei creme redutor de celulite, sucos verdes de $15 e refeições prontas de 100 calorias. Aos 17 anos, fiz a Dieta da Limonada. Já substituí refeições por "shakes de proteína". Tentei ser vegan depois de ler Skinny Bitch . Mesmo nunca tendo feito a dieta da sopa de repolho, experimentei uma dieta de sopa similar na faculdade, vivendo de alho-poró, pimenta caiena, água e só. Aí veio o verão em que tentei Vyvanse e Cardio Barre, o que resultou num ataque de ansiedade que me mandou pro hospital.

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Tenho que admitir que as dietas da moda me atraem principalmente porque dou mais valor para uma clavícula ossuda que para saúde, felicidade e sanidade. Mas métodos extremos e pílulas questionáveis também me seduzem porque prometem resultados rápidos e visíveis. E não estou sozinha nessa: nos últimos dois séculos, dietas da moda (e os autores, nutricionistas, empreendedores e celebridades que as popularizam) vêm arrebatando a atenção das pessoas preocupadas com a saúde ou só com aparência mesmo. Da dieta do Lord Byron até a dieta do sabão, que "lavava" a gordura do corpo, aqui vai uma breve história das dietas da moda.

1800: Dieta da Fome

A anorexia nervosa só foi designada como um termo médico em 1870, mas emagrecimento voluntário (ou jejum) não era um fenômeno novo na época. Como Joan Brumberg explica em seu livro Fasting Girls: The History of Anorexia Nervosa , as "jejuadoras" na Europa Medieval eram rotuladas com "anorexia mirabilis" (ou "falta milagrosa de apetite"); essas mulheres supostamente sobreviviam apenas de devoção espiritual. Na Era Vitoriana, "jejuadoras" eram celebridades. As pessoas faziam peregrinações para deixar oferendas a elas na esperança de conseguir favores celestes.

1820: A Dieta do Vinagre

Alguns historiadores acreditam que o poeta inglês Lord Byron (1788-1824) sofria de uma dismorfia corporal extrema, que se manifestava em anorexia e bulimia. Ele escreveu extensivamente em seus diários sobre seus esforços para perder peso, detalhando sua dieta e regimes de exercício, seus objetivos e seus fracassos. Ele bebia grandes quantidade de vinagre de maçã como supressor de apetite, popularizando assim a "dieta do vinagre". Segundo a historiadora Louise Foxcroft, Lord Byron foi um dos primeiros ícones das dietas, e "ajudou a iniciar a obsessão do público por como as celebridades perdem peso".

Lord Byron. Foto via Wikipédia.

1829: Dieta das Fibras de Graham

O reverendo Sylvester Graham (1794-1851), um pastor presbiteriano dos EUA e criador dos biscoitos graham, pregava o valor da moderação, vegetarianismo, contenção sexual, banhos frequentes e a importância da farinha de trigo integral. Seus seguidores chamavam a si mesmos de "Grahamites" e lotavam suas palestras. Graham garantia a seus seguidores que uma dieta vegetariana livre de temperos, açúcar e farinha processada refreava impulsos libidinosos e, portanto, acabavam com a masturbação, que ele acreditava levar à insanidade e cegueira.

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1863: Dieta de Banting

William Banting (1796-1878) era um agente funerário inglês e ex-obeso que foi o primeiro a popularizar a dieta de baixo carboidrato. Em " Letter on Corpulence", uma carta aberta e panfleto distribuído em massa, Banting detalhava seu caminho para a magreza. O panfleto se tornou tão popular que o verbo "to Bant" entrou no léxico inglês; pessoas de dieta perguntavam umas às outras como sua "Banting" estava indo. Banting, na prática, ainda é considerado um precursor de Atkins, mas alguns salientam que a dieta Banting era de alta gordura e vegetais, não uma dieta de alta proteína.

1903: Fletcherismo

O Fletcherismo é definido como "a prática de comer pequenas porções, apenas quando se está com fome, e mastigar muito bem cada alimento". O homem que batizou a prática, Horace Fletcher (1849-1919), era um nutricionista americano que passou a maior parte da vida sofrendo de indigestão e obesidade. Em 1895, ele começou a trabalhar para encontrar a chave da boa saúde. O conjunto de princípios que ele desenvolveu e promoveu inclui: só coma quando estiver com fome e nunca quando estiver ansioso, deprimido ou preocupado; mastigue cada bocado de comida exatamente 32 vezes, e "aprecie a comida".

Final dos anos 20: 'Pegue um Lucky em Vez de um Doce'

A ideia de que fumar diminui o apetite continua até hoje, mas geralmente é acompanhada de alguma desculpa depreciativa ou, pelo menos, um pouco do bom e velho niilismo. Mas, em 1929, a marca de cigarros Lucky Strike lançou uma campanha publicitária provocando mulheres de queixo duplo e os maiôs inconvenientes que assombravam seu futuro. "ESSA É VOCÊ DAQUI CINCO ANOS?", a propagando perguntava, ameaçadoramente. "Fume um Lucky em vez disso." As propagandas invariavelmente terminavam com duas coisas: testemunhos de médicos sobre como o tabaco torrado do Lucky era delicioso, suave para a garganta e diminuía o apetite, e um lembrete para fazer tudo com moderação.

Uma propaganda do Lucky Strike de 1928. Imagem via usuário do Flickr dok1.

Anos 30: A Dieta da Toranja

Essa dieta, que ressurgiria duas décadas depois como a dieta de Hollywood, prometia a perda de peso com a adição de uma toranja em cada refeição. Acreditava-se que a toranja continha uma enzima especial que queimava gordura. Apesar de o mito ter sido amplamente desmentido, o alto conteúdo de água da fruta pode fazer dela um supressor de apetite natural.

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Começo dos anos 30: "Sabão Emagrecedor"

Afirmando que "Gordura é uma Tolice", o La Parle Obesity Soup dizia reduzir a gordura "sem dieta ou ginástica". Infelizmente, o sabão La Parle era só sabão mesmo, feito com cloreto de potássio e outros ingredientes básicos.

Propaganda La Parle. Imagem via Wikipédia.

Anos 50: Dieta da Sopa de Repolho

A dieta da sopa de repolho se originou nos anos 50, mas ainda épopular hoje em dia. Basicamente, a pessoa "pode" comer quanta sopa de repolho aguentar, além de outros alimentos limitados como frutas, geralmente pelo período de uma semana. Os efeitos colaterais incluem gases, inchaço, tontura e letargia. Uma delícia.

Anos 50: Cinta Vibradora

Menos uma dieta e mais uma massagem, essas cintas eram vendidas nos anos 50 como uma solução milagrosa para perder peso. Os supostos benefícios incluíam melhora no metabolismo, redução de peso, aumento de energia, relaxamento dos músculos, aumento da oxigenação celular e estimulação do sistema nervoso simpático. Há razões para acreditar que as vibrações aumentam a circulação sanguínea, mas nenhum dos outros benefícios foi comprovado.

Anos 60: Dieta Macrobiótica

Desenvolvida pelo filósofo japonês George Ohsawa, a Macrobiótica é considerada por seus seguidores "uma filosofia espiritual e social de vida e alimentação". A dieta seria um equilíbrio entre alimentos yin e yang; "yin" sendo alimentos como vegetais, grãos, feijão e algas; e "yang" alimentos como sal, peixe e aves, assim como produtos de origem animal. A divisão dos grupos de alimentos é extremamente específica: 50 a 60% de calorias em grãos integrais, 25 a 30% em vegetais, e 5 a 10% de tofu, tempeh ou outros produtos de soja. O tempo de cozimento também é limitado. A Macrobiótica ganhou fama nos anos 60 e geralmente é associada à cultura hippie.

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1963: Vigilantes do Peso

Fundado em 1963 por Jean Nidetch, que se descrevia como "uma dona de casa acima do peso obcecada por cookies", o Vigilantes do Peso se tornou um dos programas de perda de peso mais populares do mundo. (Oprah Winfrey é a porta-voz da empresa hoje.) Os membros comparecem a reuniões onde compartilham seus sucessos e fracassos, além de fornecer apoio emocional durante as pesagens públicas. Os alimentos são contados num sistema de pontos, e só uma certa quantidade de pontos é permitida por dia. Em 2014, o Vigilantes do Peso lucrou $1,4 bilhões.

Anos 70: Dieta da Bela Adormecida

Popularizada por ninguém menos que Elvis Presley, a Dieta da Bela Adormecida envolve tomar sedativos pesados por vários dias. Os defensores da dieta dizem que os participantes podem "perder peso dormindo" com um regime severo de tranquilizantes. Infelizmente, essas drogas são altamente viciantes e esse estilo de vida é incrivelmente insustentável.

1977: Slim-Fast

O Slim-Fast foi inventado em 1977 pelo empresário americano Sim Daniel Abraham, dono da Thompson Medical. (A Thompson Medical também é a empresa do polêmico remédio de dieta Dexatrim.) O programa, descrito como "um shake no café da manhã, um shake no almoço e um jantar leve", ajuda a perder peso restringindo o consumo de calorias e garantindo a ingestão de vitaminas e minerais necessários para a sobrevivência. Nos últimos anos, a marca Slim-Fast expandiu para lanches prontos e barras de refeição, além dos icônicos shakes.

1981: Dieta de Beverly Hills

A Dieta de Beverly Hills , um livro de memórias/plano de dieta de Judy Mazel, vendeu quase um milhão de cópias durante as 30 semanas em que ficou na lista de best-sellers do New York Times. O programa de seis semanas de Mazel exigia comer apenas certas frutas numa ordem específica nos primeiros 10 dias. Ela enfatizava a importância de como cada fruta devia ser consumida, quando e em que combinação. Em 1981, o Journal of American Medical Association criticou a dieta por propagar equívocos médicos, dizendo: "Não há evidências científicas que apoiem esse plano de dieta, e ela também contradiz conhecimentos estabelecidos sobre nutrição". O artigo também alertava que a dieta era associada a baixos níveis de sal e grande perda de água por diarreia, o que resultava em febre, fraqueza muscular e um "sentimento de desgraça iminente".

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1985: Dieta do Homem das Cavenas

A Dieta do Homem das Cavernas, que ressurgiu recentemente como a Dieta Paleolítica, postula que os seres humanos do século 20 (e 21) deveriam voltar às raízes de seus ancestrais da caverna, fazendo uma dieta só de alimentos que estavam disponíveis durante a Era Paleolítica — resumindo: muitas frutas, vegetais, castanhas, raízes e carne, e nada de alimentos processados como laticínios, grãos, açúcar, legumes, óleos, sal, álcool ou café. Hoje, essa é a dieta semioficial do CrossFit. A Associação Inglesa de Nutricionistas diz que isso é uma "dieta desequilibrada, que consome tempo e isola socialmente", e um "ótimo jeito de desenvolver deficiência de nutrientes".

Anos 90: Dieta de Baixa Gordura

Começando no final dos anos 80, quando o colesterol foi ligado a doenças cardíacas e a TIME publicou uma matéria chamada "Desculpe, mas é verdade. O colesterol é mesmo um assassino" , a dieta de baixa gordura e alto carboidrato varreu os EUA. Logo no começo dos anos 90, as empresas de alimentos estavam investindo pesado na moda, divulgando versões "de baixar gordura", "gordura reduzida" ou "light" de alimentos populares. Infelizmente, reduzir a gordura resulta numa comida sem gosto, então as empresas compensavam acrescentando açúcar, xarope de milho e sal nas receitas. Como a NPR colocou: "Na tentativa de abordar um problema — doenças cardíacas — cortando a gordura, muitos especialistas concordam que os objetivos dessa dieta ajudaram a abastecer outros problemas, como diabetes e obesidade".

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1996: Dieta do Tipo Sanguíneo

A Dieta do Tipo Sanguíneo nasceu do livro de Peter J. D'Adamo Eat Right for Your Type , onde o suposto "médico naturopata" encorajava as pessoas a fazerem certas dietas para cada tipo de sangue. A dieta dizia melhorar a saúde e diminuir o risco de doenças. Acreditando na dieta, uma vez tentei segui-la, achando que eu era tipo O. Mais tarde descobri que eu era tipo A. A dieta do tipo sanguíneo foi desmentida recentemente.

2002: Dieta Atkins

A Atikins Nutritional Approach TM era uma dieta de baixo carboidrato popularizada pelo autor de best-sellers do New York Times Dr. Robert C. Atkins. Apesar de seu primeiro livro, A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins, ter sido lançado em 1972, foi seu segundo livro, A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins , lançado 30 anos depois, que gerou toda a fama do médico. A Dieta Atkins ganhou popularidade global em 2003 e 2004. No auge de sua popularidade, um em cada onze americanos dizia estar seguindo a dieta de baixo carboidrato. Em 2005, apenas 2% dos americanos estavam na dieta de baixo carboidrato, e a empresa entrou com o pedido de falência.

Screenshot via YouTube.

Anos 2000: Dieta da Comida Crua

Num episódio de 2003 de Sex and the City , Samantha arrasta Carrie, Miranda e Charlotte para um restaurante chamado Raw, onde (na voz de Carrie Bradshaw) a comida era servida fria mas um certo garçom era muito quente. Na época, essa era a moda. Mesmo com a tendência estando por aí desde os anos 80, ela ganhou popularidade no novo milênio. A dieta é baseada na crença de que alimentos não cozidos são mais saudáveis para o corpo. Celebridades que entraram na onda incluem Demi Moore e Scarlett Johansson. Algumas pessoas em Los Angeles levaram isso longe demais, claro.

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2004: Master Cleanse

Também conhecida como "Dieta da Limonada", ela já estava por aí há algum tempo até ser repopularizada pelo livro Lose Weight, Have More Energy & Be Happier in 10 Days de Peter Glickman. Master Cleanse é uma dieta líquida consistindo de uma mistura de água, suco de limão, xarope de boldo e pimenta caiena. Em 2006, Beyoncé admitiu estar usando o Master Cleanse para perder 9 quilos para Dreamgirls. Tentei isso em casa e desenvolvi uma película esbranquiçada sobre a língua.

Anos 2010: Detox de Suco

Vou admitir aqui, já fiz detox de suco. Admito que comprei sucos de detox com desconto pela internet. Eu sabia que o preço era escandaloso; e agora percebo que essa é uma ideia idiota e nada saudável.

2013: Plano Daniel

Na Bíblia, Daniel é um homem extremamente piedoso que oferece conselhos e interpretações de sonhos para os reis. Ele também é jogado na cova dos leões e salvo por um anjo. Ele também teve quatro visões do apocalipse. E também comia principalmente vegetais. Foi essa última parte que interessou Rick Warren, pastor de uma megaigreja no Sul da Califórnia, que percebeu durante uma maratona de batismos que ele e sua congregação tinham ficado grandes demais para suas batas sagradas. Então ele recrutou dois médicos e escreveu um livro, Plano Daniel, que casa dicas óbvias de dieta (coma menos, se exercite mais) com uma abordagem holística para perder peso. Infelizmente, há poucos dados sobre os resultados e sua relação com o fim dos tempos.

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2013: Dieta da Bola de Algodão

A dieta apareceu nas salas de bate-papo da internet e fezmuitagentesurtar. A ideia era molhar bolas de algodão em suco e comê-las para se sentir artificialmente satisfeito. Como a ABC astutamente apontou: "A menos que você esteja jantando alguma marca orgânica supercara, a maioria das bolas de algodão não são feitas de algodão, e sim de fibras de poliéster com alvejante, contendo um monte de substâncias químicas".

2015: Waist Trainer

Muito popular nos Instagrams das celebridades, o Waist Trainer é basicamente um espartilho moderno. Comprando um da marca Waist Gang Society — a preferida de gente como Kim, Khloe e Kourtney Kardashian, Amber Rose e Nicki Minaj — ela sai por uns 120 dólares. Mas nem todo mundo da família E! pulou nesse barco. O Dr. Paul Nassif, do programa Botched da E!, disse ao canal: "Me preocupo com os efeitos disso nos intestinos, já que a cinta empurra os conteúdos para a região pélvica […] isso pode comprimir os órgãos internos e causar problemas renais, gastrointestinais e pulmonares".

2015: Detox de Chá

Ainda é cedo para dizer se os programas de "Teatox" vão se mostrar perigosos e ineficientes, mas algumas marcas de detox já investiram pesado em marketing. Celebridades como Amber Rose, Scott Disick, Kourtney e Khloe Kardashian, Kylie Jenner, Nicki Minaj, Britney Spears, Lindsay Lohan, Snooki e Vanessa Hudgens já postaram selfies promovendo vários produtos Teatox, e revistas populares já lançaram suas análisessobre os produtos. A autora da Broadly Tara Evans escreveu sobre o Teatox, que basicamente são laxantes a base de chá que podem atrasar sua menstruação, causar dor de estômago, diarreia e atrapalhar o funcionamento do seu anticoncepcional. Sexy.

Tradução: Marina Schnoor

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