Fotos Inéditas e Íntimas da Cena Musical de Memphis de Dan Ball

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Fotos Inéditas e Íntimas da Cena Musical de Memphis de Dan Ball

O fotógrafo fotografou os músicos mais influentes que tocaram nos clubes alternativos da cidade.

Three 6 Mafia tocando no New Daisy em Beale, 1996. Todas as fotos por Dan Ball.

Todo mundo que era de alguma banda que tocava num dos muitos clubes de Memphis desde os anos 90, quem frequentava essas baladas na época ou foi a um show na cidade provavelmente viu Dan Ball posicionado no gargarejo com sua câmera.

Ball, cuja família está em Memphis há três gerações, fotografa bandas há 30 anos – no palco, nos bastidores ou em qualquer lugar onde eles estejam sentados para tirar um retrato. Algumas fotos acabaram no material publicitário das bandas ou apareceram numa revista alternativa ou em outra, mas a maioria acabou arquivada na casa de Ball. Quando o encontrei, ele estava organizando e digitalizando as últimas décadas de seu trabalho. Sentamos por horas na sala dele, com as persianas fechadas contra o calor de agosto, enquanto ele me contava como passou de estudante de cinema e fotografia na Universidade de Memphis para fotógrafo de alguns dos músicos mais influentes das últimas décadas: Alex Chilton, Jay Reatard, Three 6 Mafia e SonicYouth, só para citar alguns.

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VICE: Como você começou a fotografar artistas? Você só aparecia nos shows?
Dan Ball: Acho que tudo começou por volta de 94. Eu conhecia Tripp Lamkins, o baixista do Grifters, desde a faculdade. Trabalhamos numa loja de discos juntos e trombávamos aqui e ali durante os anos. Eu estava mais voltado para uma coisa artística na época. Eu não estava pensando em fotografar músicos, mas aí eles assinaram com a Sub Pop. Dave Shouse [baterista do Grifters] era meu vizinho na época. A banda sugeriu que eu tirasse algumas fotos deles. Tirei, e elas ficaram muito boas. Aí outras pessoas que eu conhecia de bandas começaram a me pedir para fotografá-las. The Oblivians, Impala (uma banda de surf rock com Scott Bomar e John Stivers). Daí comecei a fotografar bandas que conheci pelo caminho.

Como foi fotografar Jay Reatard nessa época? Você mencionou que o encontrou pela primeira vez na [casa de shows] Barristers em 98.
Sim. Ele já frequentava o lugar. Eric Friedl, da Goner Records, foi quem o incentivou e o fez seguir em frente. Foi através de Eric que ouvi falar dele e fui assistir ao show. Nunca fui muito próximo dele. Acho que ele me intimidava um pouco, porém éramos simpáticos. Acho que havia um respeito mútuo ali. E aí veio o Lost Sounds. AlicjaTrout [cofundadora do Lost Sounds com Jay Reatard] era uma grande amiga, e acabei os fotografando. Por volta de 2007, Jay tinha realmente decolado. Fotografei uma capa para o disco dele Singles 06-07. Nos encontramos para a sessão de fotos, e foi como se fôssemos velhos conhecidos. O círculo tinha se fechado, e éramos amigos.

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Você fotografou a banda na sala da sua casa, certo?
Sim, bem aqui. Muitas dessas bandas iam e vinham, tinham empregos comerciais ou algo assim. Muitas delas, eu fotografei no Barristers, em vários outros lugares da cidade e nos cenários do filme de Mike McCarthy. Foi lá que fotografei gente como o Guitar Wolf.

Jay Reatard durante um show do Lost Sounds, 2002.

Por que Memphis é o lar de tantos tipos diferentes de música na sua opinião?
É uma dessas coisas que não consigo apontar. É por isso que só tiro fotos. Existe uma vibe aqui que começou há muito tempo, muito antes dos anos 60. E acho que as pessoas se sentem atraídas por isso. É mesmo uma coisa de comunidade, em que todo mundo está disposto a ajudar um ao outro. Não sei se isso tem a ver com a mistura de raças ou a comida. Muita gente diz que é a água – temos uma das melhores águas do mundo nesta cidade. Hoje, você vê muita coisa mainstream que gente como eu consegue rastrear de volta para cá. Você não teria Taylor Swift sem passar por Carl Perkins.

Você acha que as pessoas deviam prestar mais atenção ao que acontece aqui?
Sim, mas sou cuidadoso com isso porque não quero estragar as coisas. A coisa que acontece aqui pode não ser comercialmente sustentável, embora talvez seja exatamente isso que torne tudo interessante. Acho que as pessoas vêm para cá a fim de aprender e melhorar, aí acabam indo embora e rodando o mundo. Memphis definitivamente é um caldeirão. Há muitos estúdios de gravação ótimos aqui, estúdios grandes fazendo coisas incríveis. No entanto, grandes nomes não vêm para cá com tanta frequência.

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O Sonic Youth veio em 95 para gravar o Washing Machine no Easley-McCain Recording.
Foi incrível. Infelizmente, eu não tinha acesso fácil a eles. Eles estavam protegendo sua privacidade. Eu não os conhecia e não queria incomodar o Doug [Easley] sobre isso, mas fiquei sabendo que eles iam fazer um show no Barristers; então, fui lá e peguei um lugar bom para fotografar. Estava muito quente. O Barristers nunca foi muito bem ventilado, e havia umas cem pessoas no lugar. Todo mundo ficou sabendo do show; logo, o lugar lotou. Foi um show todo instrumental, basicamente.

E o Antenna Club, como era lá?
O Antenna Club foi o primeiro dos clubes alternativos, aberto em 81. Era só uma salinha aqui em Madison, porém era onde todo mundo tocava até o Barristers abrir. O Antenna era o lugar principal.

Apesar de muitos desses lugares terem fechado, a arquitetura de Memphis continuou praticamente a mesma desde os tempos de Elvis. Como você vê o potencial fotográfico da cidade?
É meio difícil, porque é algo muito pessoal. Nasci nos anos 60; assim, pude ver muitas dessas coisas enquanto elas desapareciam – tipo, chorando toda vez que um desses prédios antigos era derrubado. O Baptist Memorial Hospital, onde Elvis morreu, foi implodido – o que, dez anos atrás? Acho que não havia nada a se fazer sobre isso, mas consegui entrar lá e tirar algumas fotos antes de eles derrubarem o prédio.

Você vê muito disso na fotografia de William Eggleston. Ele foi fundamental para que eu ficasse em Memphis. O descobri quando estava na faculdade. Eu estava cuidado da casa de um piloto da FedEx. Olhando os livros dele, achei uma cópia original do William Eggleston's Guide, da exposição dele no MoMA em 76. Eu já tinha ouvido aquele nome, mas não sabia o que era. Achei que ele era o fotógrafo do jornal The Commercial Appeal ou algo assim. Comecei a folhear o livro, e era como se fosse minha infância em fotografias. Ele dava a ideia de que, não importa onde você esteja, é uma questão de sentir o clima e tentar capturar isso de algum jeito com a câmera. Não sei se outra pessoa poderia ter feito isso para mim porque ele era daqui. Foi aí que desisti de ir a Paris e tentar me juntar à Magnum, uma ideia que estava na minha cabeça na época.

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Há alguma consideração estética quando você está fotografando um show?
Filmes antigos são uma grande influência. Há uma certa crueza nisso que você não vê muito hoje em dia. Tem toda uma geração chegando agora que aprendeu fotografia através do Photoshop, mas eu aprendi isso na sala escura – tudo era meio granulado. Metade da beleza da fotografia vem de suas imperfeições. Agora, todo mundo tenta eliminar todas as imperfeições. Isso se tornou sanitizado como um cardápio do Denny's.

Sonic Youth tocando no Barristers em 1995. Eles estavam na cidade gravando Washing Machine no estúdio Easley-McCain.

Como fotografar o Three 6 Mafia difere de fotografar o Oblivians ou o Jay Reatard?
É um tipo de energia diferente. Quando você está num show de rap, é como um discurso de treinador antes do jogo, enquanto o show do Oblivians era mais como líderes de torcida bêbadas. A energia está ali, mas é algo mais reduzido.

Conte a história por trás da foto de Jeff Buckley.
Conheci o Jeff em janeiro de 97. Eu estava tirando fotos do que Dave Shouse tinha começado a chamar de Those Bastard Souls. A namorada de Jeff Buckley, Joan Wasser, tocava violino. Estávamos num hotel em St. Louis, Jeff veio visitar a Joan e foi aí que o conheci. Ele era muito legal, e nós nos divertimos muito. Um mês depois, Dave me disse que ele estava se mudando para cá e que ia gravar no Easley. Ele estava tentando evitar a mídia; assim, tive muito cuidado ao abordá-lo porque não o conhecia tão bem. Estávamos no mesmo círculo de pessoas; logo, eu sabia que íamos nos conhecer melhor. Achei que minha melhor chance era o deixar em paz e fazer amizade em vez de conseguir alguma coisa estilo paparazzi.

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O vi tocar no Barrister algumas vezes. Era impossível tirar uma foto realmente boa dele porque era muito escuro lá – e eu não podia usar flash sem deixar todo mundo puto. Mas, nessa noite em particular, um dos Grifters falou "Tire uma foto". Eu estava fazendo fotos de longa exposição na época, porém não estava com o meu equipamento; então, só coloquei minha câmera numa mesinha de coquetel e o sentei no loft acima do Barristers, aí peguei emprestado um flash e um pedaço de filtro azul que estava por ali. Montei tudo isso junto, e tentamos fazer fotos de longa exposição, mas era difícil porque tinha gente por todo lado ali. Todo mundo andando. As pessoas estavam fumando maconha, e as fotos ficaram menos legais do que eu gostaria. No entanto, ele gostou muito delas. Ele comentou que íamos fazer mais depois que banda chegasse. Eu disse "OK" e decidi esperar. Aí, no dia em que a banda chegou, ele se afogou. Logo, só tenho essas poucas fotos preciosas da coisa toda.

Ele se afogou porque o Rio Mississippi é muito rápido, certo?
Não sei se alguém disse para ele não nadar ali, porque todo ano alguém se afoga naquele rio. Ele parece calmo e tranquilo, mas no fundo tem todo tipo de coisa acontecendo. Aparentemente, ele estava usando botas.

Tem alguém que você se arrepende de não ter fotografado?
Tentei me aproximar de Isaac Hayes uma vez, porém, por alguma razão, a equipe dele não deixou isso acontecer. Ele morreu logo depois disso.

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O Cadillac Eldorado de Isaac Hayes à venda, 1984.

Mas você fotografou o carro dele.
É. Foi no OrpheumTheatre. Tenho quase certeza que os caras do Orpheum eram os donos do carro. Ele provavelmente comprou isso num leilão e estava vendendo não sei por quê. Quando tirei a foto, eu nem sabia o que era aquilo. Só estacionei e pensei "Cacete, o que é isso?". E tirei uma foto. Eu estava pensando na estátua do Elvis no fundo. Mais tarde, vi que era o carro do Isaac.

Quando foi isso?
Ah, meu Deus. Tirei essa foto na faculdade. Provavelmente, 1984.

Agora, o carro está exposto no Stax Museum of American Soul.
Sim, girando no display.

Veja mais fotos do Dan Ball abaixo e visite o site dele.

Hunter Braithwaite é um escritor que mora em Memphis. Visite o site dele.

Tradução: Marina Schnoor

Snoop Dogg relaxando nos bastidores da Memphis Pyramid, 1997.

Alex Chilton no New Daisy, 1990. Ele estava tocando com uma banda local.

A camiseta do quinto aniversário do Antenna Club listando todas as bandas que tinham tocado lá, 1986.

A fachada do Barristers, 1996.

Cordell Jackson, a Vovó do Rock, tocando no Barristers em 1996.

A demolição do Baptist Memorial Hospital (onde Elvis morreu), 2005.

A banda garage japonesa Guitar Wolf tocando no Barristers, 1996.

Lost Sounds fotografado na sala de Dan Ball, 2002.

O local do antigo escritório de George "Dr. Nick" Nichopoulos em Midtown, onde Elvis assinou seu contrato, 1996.

The Oblivians ao vivo no Barristers, 1995.

O grande guitarrista de blues Junior Kimbrough em sua casa, 1998.

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A Memphis Pyramid em 1992, hoje lar da maior Bass Pro Shop do mundo.

R. L. Burnside na Young Avenue Deli, em Cooper-Young Area.

Memphis também tinha uma cena gótica próspera nos anos 90, como visto nesta foto num clube S&M de Midtown, 1996.