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Fotos

Fotografando os Filhos dos Novos-Ricos Russos

A Anna Skladmann tem muitas histórias para contar sobre o tempo que passou em Moscou.
27.2.12

Dá só uma olhada nesse moleque aí em cima. O nome dele é Vladim, e seus pais são muito ricos. Quando a fotógrafa Anna Skladmann foi à casa de Vladim, ele perguntou quantas fotos ela iria tirar. “Não mais que dez”, ela disse enquanto tirava dez rolos de filme da bolsa e começava a trabalhar. Depois de dez cliques, ele saiu confiantemente, foi pro seu quarto, colocou o pijama, sentou na frente da televisão e pediu para a empregada trazer chá.

Nessa época o Vladim tinha cinco anos. Não sei quantos anos ele tem agora, mas imagino que ainda seja facílimo pra ele mandar alguém te apagar.

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A Anna tem muitas histórias parecidas para contar sobre o tempo que passou em Moscou, fotografando as crianças que dentro de alguns anos estarão estrangulando a econômica britânica com petróleo do Ártico. Acho que foi por isso mesmo que ela decidiu transformar seu projeto Little Adults num livro.

Entrei em contato com ela e conversamos sobre isso.

VICE: Oi, Anna. Tudo bem?
Anna Skladmann: Estou de férias em Bali no momento. É lindo e ensolarado, o que é uma mudança bem legal, sair um pouco do clima congelante de Moscou.

Li que você nasceu em Bremen. Como você foi parar em Moscou?
Meus pais são imigrantes russos que viveram 30 anos na Alemanha. Quando eu era criança, passei muito tempo com a minha avó. Ela costumava trabalhar no Teatro Bolshoi antes de imigrar, então me contava muito sobre a cultura russa. Ela falava da música, dos jogos, do balé… Construí esse mundo extremamente colorido e nostálgico da grande Rússia na minha cabeça, mas da primeira vez que visitei Moscou, nas férias do ano 2000, o que eu vi era um pouco diferente do que eu tinha imaginado.

Diferente como?
Eu percebi que tudo era muito cinza do lado de fora, as cores que eu tinha imaginado não estavam nas ruas. Nada acontecia; eram só carros e aquele clima horrível. Mas quando você entra na casa de alguém, é lá dentro que se encontra luz e calor. Então quando me mudei para Rússia para estudar, estava muito interessada em ver como as pessoas viviam. Eu levava minha câmera pra todos os lugares.

Nikita e Alina na Embaixada Italiana de Moscou.

E foi assim que esse projeto começou?
Talvez tenha começado um pouco antes. Na minha primeira viagem a Moscou, eu tinha uns 14 anos e meus pais me levaram a um baile de máscaras. Foi a primeira vez que me encontrei com crianças russas, e me surpreendeu como elas eram diferentes das crianças que eu conheci na Europa. Elas não estavam vestidas do mesmo jeito que crianças se vestem no carnaval, elas estavam vestidas como adultos. E todas agiam como adultos. Elas se sentavam à mesa, conversando e se comportando de uma maneira muito urbana. Eu era muito nova, mas essa impressão ficou comigo. Acho que foi quando comecei a pensar sobre o fenômeno social, colocando as coisas num contexto social.

Você se mudou para a Rússia para trabalhar especificamente nessa primeira impressão?
Não necessariamente, mas já tinha trabalhado durante algum tempo com a Annie Leibovitz em Nova York, e depois disso senti que já era hora de trabalhar nos meus próprios projetos. Então fui a Moscou em 2008, mas nunca tinha morado lá antes, não tinha muitos amigos e acabei saindo bastante com a minha mãe. Um dia, uma amiga de infância dela que se casou com alguém muito, muito rico, nos convidou para um chá. E foi assim que conheci Nastia, a menina de oito anos que basicamente se tornou a musa do meu projeto.

Nastia.

E você documentou tudo isso?
Sim, comecei a fotografá-la naquela hora. Acho que ela gostou tanto quanto eu. Foi quase um diálogo porque ela gostou da atenção, e ela sabia muito bem que eu também precisava dela. Eu estava passando por essa fase, onde não sabia muito bem o que fazer da vida, e ela estava lá sendo incrível. Ela me ligou no outro dia com uma nova ideia para uma sessão de fotos, eu fui até a casa dela e ela já sabia exatamente como queria ser fotografada.

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Quando você pensou que isso podia se tornar toda uma série?
Eu voltei brevemente à Nova York e comecei a imprimir meus trabalhos para tirar o diploma e achei que tinha alguma coisa ali. Há uma geração inteira de crianças nascidas nesse ambiente.

O irmão mais novo da Nastia.

E como era esse ambiente, na época?
Essa é uma sociedade ainda em desenvolvimento, ainda se inspirando numa mistura de fontes. Ainda não é completamente ocidentalizada porque tem uma história muito rica, mas acho que ainda vai levar muito tempo para que tome uma forma distinguível. Tudo é tão novo pra eles, eles são extremamente impressionáveis. Por exemplo, quando eu estava fotografando as crianças, era óbvio que a maioria delas tinha olhado revistas como Tatler e Vogue. Dava pra perceber na maneira como posavam, as coisas que escolhiam usar e as razões que tinham para posar.

Arina.

Algumas poses são um pouco sexualizadas. O que me fez pensar, como os pais reagiram a esse tipo de comportamento? Você diria que eles encorajam isso?
Bom, eles não foram objetificados. Talvez eles não encorajem, mas certamente acolhem. Quer dizer, se você vir o closet dessas crianças — cheio de vestidos e sapatos e maquiagem… Um dia me pediram para fotografar duas garotas na loja de joias da mãe. Eles também tinham uma bebê, que eu implorei para a mãe não trazer porque eu estava trabalhando com luzes fortes. Chegando na sessão, a bebê não só estava ali, como estava usando esse colar enorme e pesado na cabeça!

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Deve ter sido hilário. Como você explica essa necessidade de excesso?
Acho que é porque os pais cresceram em meio à desolação, eles não tiveram uma infância propriamente. Eles estão tentando dar aos filhos uma infância dando tudo que eles não tiveram quando crianças. Mas se perderam um pouco pelo caminho.

Eu acho que é o que se pode chamar de círculo vicioso.
É isso que acontece quando não há tradições para ordenar uma nação. Ela não se controla sozinha. Eles têm que recriar seu próprio entendimento sobre eles mesmos antes de poder manter um estilo de vida sensível. Lembro que visitei um colégio interno na Inglaterra e o oposto acontecia lá. As crianças ricas nunca tinham dinheiro e precisavam pegar o trem ou o ônibus para ir a qualquer lugar. Em Moscou, eles têm uma multidão de servos os seguindo pra todo lado. Motoristas, babás e até guarda-costas.

Alisia.

Que tipo de carreira os pais das crianças que você fotografou tinham?
Eu não fotografei os oligarcas. Fotografei a classe alta recém-formada na Rússia. Muita gente que trabalha com matérias-primas, depois das privatizações dos anos 90. E também da indústria da moda, do ramo de restaurantes, cinema, imóveis, política… Também fotografei parte da intelligentsia, mas não confunda esse pessoal com o “dinheiro velho”. Não havia nenhum dinheiro 20 anos atrás

Mal consigo imaginar como você teve acesso a esse tipo de pessoa e como eles permitiram que você fotografasse os filhos deles.
Teve muita rejeição, mas acho que a razão principal de eu ter conseguido entrar no mundo deles com a minha câmera foi porque eu ainda era muito jovem, então não parecia uma ameaça. Acho que as famílias não me levaram muito a sério como fotógrafa. Eu era mais como uma irmã mais velha, ou uma amiga da família.

E parece que isso funcionou muito bem. Obrigada, Anna!