"Jilmar, Não Faz a Loka"

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"Jilmar, Não Faz a Loka"

Como foi o encontro público do Movimento Passe Livre com o secretário de transportes Jilmar Tatto.
21.2.14

Sentados em cadeiras de plástico e usando um sistema de som meio improvisado, nesta quinta-feira (20), o pessoal do Movimento Passe Livre se reuniu ao ar livre e em frente ao prédio da Prefeitura de São Paulo com o secretário de transportes da cidade Jilmar Tatto.

Inicialmente, a ideia do MPL era fazer um ato em protesto contra os cortes e alterações em várias linhas de ônibus municipais que a SPTrans fez nos últimos meses (segundo Tatto, foram cerca de 70 linhas). Essa tática vem sendo aplicada pela prefeitura desde que a poeira das Jornadas de Junho baixou. E é lógico que o sempre atento MPL vem criticando esse projeto desde o ano passado.

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Em novembro, em entrevista ao R7, o secretário rebateu as críticas sobre os cortes e ainda aproveitou para provocar o MPL. “Esse debate [sobre a reorganização do transporte público] eu faço com eles a hora que eles quiserem, não tem problema”, afirmou Tatto. Quando a notícia do ato chegou aos ouvidos da gestão, o excelentíssimo secretario reativou a ideia e convidou o MPL para o debate. As condições foram dadas pelo movimento: encontro a céu aberto, com participação da população, para abrir o jogo. E o secretário aceitou.

A impressão era de que, com o debate, a situação poderia rumar para dois caminhos:

A) Black blocs, Anonymous-BR e/ou massas de manobra afins colam no rolê, o secretário não comparece, o bicho pega e lá vamos nós inalar gás lacrimogêneo de novo. Com isso, a Prefeitura se queima, volta o clima de revolta e repressão policial, tudo se mistura com o NÃO VAI TER COPA e o angu azeda.

B) O secretário comparece, senta com a rapaziada, escuta e fala. O MPL põe as pautas na mesa, fala o que tem que falar na cara dele e, já que o secretário teve a hombridade de chegar nas condições que o movimento colocou, o lance vai ter pouquíssima chance de virar um pandemônio. A Prefeitura ouve e atende as reivindicações locais na medida do possível e, evitando uma escalada de manifestações violentas, se preserva. Ano de eleição, né? Tem que ficar esperto.

Como você não viu o Facebook pegando fogo de ontem para hoje, você poderia facilmente supor que o ocorrido foi a segunda opção. O debate atrasou um pouco, teve uma apresentação do rapper militante da zona sul Robsoul com a música “Descatraca”. O secretário aguardou tudo isso pacientemente e de bom humor. Abriu a fala já metendo muita ficha, falando que o prefeito Fernando Haddad homologa neste sábado uma auditoria no transporte público da cidade, que começa em março. Também disse que a licitação que ocorreria este ano para as concessões de operações dos ônibus e linhas foi cancelada e os atuais contratos foram prorrogados até o fim da auditoria, que deve acabar em julho.

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Ok. Uns lances legais até. A impressão que dá é que a gestão até está a fim de tentar reorganizar e reestruturar o sistema de transporte público. Pelo menos, a consciência de que “do jeito que está, num dá” está presente e muita dessa vontade política foi posta em movimento pelo furdunço que o MPL agitou nos últimos anos.

Porém, quando o secretário passou a explicar o projeto de reestruturação, algumas coisas, justamente pelo esforço dele em tornar a situação difusa, ficaram claras. Em resumo, o argumento da Prefeitura é de que sim, existe um projeto amplo para criar um sistema estrutural de transporte com ônibus menores dentro dos bairros que levam a terminais locais e desses ao centro da cidade, em grandes terminais, através de corredores. A ideia na real não é novidade nenhuma e vem desde a gestão da Marta Suplicy (2001-2005). Tanto que o Bilhete Único foi implantado como primeiro passo desse esquema. E outras zilhões de cidades pelo mundo adotaram esse sistema nas últimas décadas. Beleza, campeão. O problema, diz o secretário, é que a cidade é muito grande e caótica, e esse projeto é simultaneamente pensado e implantado, daí a justificativa para as cagadas nos cortes de linhas de ônibus importantes, que servem as comunidades há anos sem grandes alterações. E se, eventualmente, uma dessas mudanças resulta em significativa piora na qualidade de vida da população, bem, vamos conversar, aí a gente resolve caso a caso. E é isso, a mudança é necessária. Nisso, MPL, Prefeitura e população concordam e o plano é criar um sistema estrutural. Conforme os problemas forem surgindo, vão sendo ajustados com a bola rolando, não tem tempo técnico.

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No fim do rolê, conseguimos trocar uma ideia direta com o Tatto. “É preciso reconhecer se errarmos. Se for para mudar e voltar atrás, não tem problema. Ninguém é dono da verdade e por isso que é bom o debate, a democracia, e assim podemos errar menos”, disse ele sobre a dinâmica de planejamento (risos) de reforma do sistema de transportes.

O toque de classe desse argumento vem quando o secretário aponta que, na real, o verdadeiro problema para a implantação dessas ideias aí é o empresariado, que controla as linhas e os ônibus. Segundo o secretário, essa sempre foi a grande treta em São Paulo: as empresas se acham “donas do transporte público” da cidade e, por não querer perder a boquinha, fazem de tudo um pouco para atrapalhar a transição, e, com isso, jogar a responsabilidade das zicas nas costas da Prefeitura. Porém, se tem alguém que está atento à esse "passa ou repassa", esse alguém é o MPL.

Para evidenciar isso, os caras chamaram uma rapaziada das comunidades que foram diretamente afetadas pelos cortes de linhas para dar um testemunho ali no ato. Vila Gomes e Vila Indiana (na zona oeste), Jardim Santo André, São Mateus e Cidade Tirandentes (zona leste) e Pirituba (zona norte). O discurso era o mesmo: já era ruim, agora tá pior. Não tem muito o que acrescentar. Todo mundo colocou ali os problemas pontuais, o secretario ouviu, anotou, abaixo-assinados foram entregues, aquela coisa toda. Para a população, não importa se é secretaria, Prefeitura, empresariado, tecnocratas, o Tião Macalé ou Nietzsche; se o busão está uma bosta, alguém tem que resolver essa porra. É isso e acabou.

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“A questão é que os empresários são sim, responsáveis. Não há contradição entre a Secretaria de Transporte e o empresariado. Os gestores e os capitalistas estão juntos na organização desse transporte, na exploração à custa da humilhação do povo que depende do serviço diariamente. Se há um jeito de intervir nisso, ficou claro que a forma que vamos responder é com organização e luta em cada bairro da cidade”, explica o integrante e, uhn, persona pública do MPL Caio Martins.

Em uma livre manobra de manipulação editorial, perguntamos para o Caio por que o secretário usou pouco a carta da “falta de linhas de Metrô na cidade”, já que ele acabou citando isso muito rapidamente durante o debate (e foi o suficiente para tomar uma das poucas vaias que rolaram durante o encontro). “[Hoje] há uma aproximação maior entre os governos do Estado e municipal. O aumento da tarifa [em junho de 2013] foi feito em conjunto pelo prefeito e pelo governador, assim como a revogação da mesma. Então, não surpreende que o secretário não tenha jogado mais a culpa para o governo do Estado.”

É aí que o MPL se ganha e sabe operar como poucos fazem na atual política brasileira. Com trabalho de base verdadeiro, ouvindo e agilizando a rapaziada do bairro, entendendo os problemas de forma local e indo aos poucos acumulando força para subir o gás das instâncias superiores.

Com isso, no debate, o MPL conseguiu que o Tatto prometesse algumas coisinhas. Pequenas vitórias, porém, significativas, sendo a principal: "O seccionamento está congelado e qualquer mudança que venha a ser feita será com ampla divulgação e informação ao cidadão", afirmou o secretário. Quanto à reivindicação da volta das inúmeras linhas canceladas pela SPTrans, serão feitas reuniões, comissões e estudos de caso para rever o que é possível fazer ou não.

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“Certamente [haverá outros debates como este]. É evidente que eu gostaria de estar em um lugar fechado para explicar os detalhes do plano e o que nós estamos fazendo sob o ponto de vista macro da cidade, da organização do transporte, do ponto de vista da região e das linhas. Não dá, mas faz parte. Preciso respeitar o ponto de vista deles [MPL]. De todo modo, achei interessante. Para mim, isso é inédito isso”, explica o secretário. É possível perceber bem o quão à vontade ele ficou na situação, porém, aceitou os termos do MPL.

No fim das contas, esse jogo adquire alguns contornos claros. A Prefeitura, dando a cara e abrindo as cartas na mesa, tira sua bunda da reta dos molotovs e sacos de lixo pegando fogo, e, no fim do dia, ainda atende às pequenas (porém, importantes, lógico) reivindicações locais. Com isso, ela vai aos poucos cozinhando a população no fogo morno do Grande Plano de Implantação do Sistema Estrutural do Transporte Público Paulistano, na conversa dos 150km de corredores de ônibus, etc. Afirmou o secretário: “No dia em que tivermos medo do povo, dos estudantes e da galera, é porque alguma coisa está errada”. Bem, certo nós sabemos que não está, não é mesmo?

Mas esse canal de diálogo entre as partes só existe hoje por que o MPL fez o que fez nos últimos anos. A molecada, como dito anteriormente, pensa e age politicamente com muita astúcia, mas nunca de forma covarde ou imoral. As reivindicações são sempre claras e, pelo menos aparentemente, eles têm uma boa ideia de como os mecanismos políticos operam, especialmente no caso de São Paulo, onde os interesses econômicos e eleitorais são disputados a ferro e fogo, porém, com espessa camada envernizadora de demagogia publicitária.

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Como a VICE vem documentando, o MPL é efetivamente uma vanguarda política não só da cidade, mas do Brasil. Quando foi necessário arrepiar, arrepiou-se e o pau comeu como nunca antes na história deste país. Hoje, parece que para o Passe Livre, a tática certa não é essa. E podemos dizer que já está claro que rojões e blogs progressistas/mídia alternativa não são a melhor maneira de enfrentar os verdadeiros problemas políticos.

Apesar de acreditar no contrário, tomo a liberdade de afirmar que o governo, de uma forma geral, convive com o fantasma da violência das manifestações e, por isso, hoje topa se reunir a céu aberto e de cara limpa com a juventude da faculdade para debater. Ou pelo menos é esse o espectro que ronda os preâmbulos da eleição e Copa do Mundo deste ano. “[O secretário] disse que ia explicar por que os cortes de linhas são bons e como eles beneficiam a população, não só os empresários, mas, no final, parece que isso não ficou muito claro”, avalia o Caio do MPL. “O Secretário está disposto a se reunir com os moradores e discutir a volta das linhas que foram cortadas, mas isso só aconteceu com os bairros que se mobilizaram, protestaram e vieram aqui hoje [ontem]. É por meio da luta que as linhas podem voltar.”

Como disse uma integrante do Passe Livre no lúdico ato de encerramento do debate. Enquanto eles entregavam o 2º Troféu Catraca “pelos serviços prestados aos empresários de transporte”, uma das militantes falou para o secretário, “como dizem na noite: Jilmar, não faz a loka. Ouve o que estamos falando”. Esse tipo de achaque direto é, por si só, uma imensa vitória do MPL, que estabeleceu um canal direto com os poderes na base da porra-louquice consciente. E, tipo, eles nem terminaram a faculdade ainda, hein. Imagina só os doutorados?

No fim, quando paramos para conversar tête-à-tête com o Caio, no fim da conversa, ele mesmo sugeriu uma pergunta, levantando uma ótima bola sobre a triangulação política entre governo, blogs progressistas (que muitos costumam taxar de “governistas”) e imprensa tradicional. Acho que é o caso de transcrevermos o diálogo:

VICE: O Luis Nassif fez um post sobre o aumento da tarifa do ônibus da EMTU e aproveitou a situação para cobrar uma posição do MPL. O que vocês acharam disso?
Caio Martins: Essa postagem é absurda porquê, primeiro, associa na mesma linha o MPL, black bloc e FIESP como se houvesse algum tipo de relação com a mobilização popular do mês de junho com a FIESP. Não sei que tipo de teoria da conspiração é essa. Mas a questão é que há um erro nessa notícia. O aumento não foi no EMTU, mas sim, nas linhas interurbanas, que são essas que saem da Rodoviária do Tietê para o interior, etc. Olha, cobrar o passe livre entre as cidades é uma proposta avançada. Nós, inclusive, a defendemos também e, a longo prazo, até o passe livre nos aviões, mas nós temos uma estratégia de luta, que, no momento é fortalecer a luta em cada bairro e em cada escola, local de trabalho. Se existisse um MPL em Sorocaba, por exemplo, e a população se manifestasse contra, digamos, o aumento na passagem do ônibus que vai de Sorocaba até Votorantim, nós até nos manifestaríamos. Mas aqui em São Paulo não há nem que faça isso. Cobrar isso do MPL revela que essa galera não anda de ônibus.

Você acha que estão tentando usar a causa do MPL como jogada política?
Sim. Fica claro que não é só a grande imprensa corporativa que manipula, mas também outros veículos midiáticos. Nós não vamos nos pautar pela agenda da Prefeitura ou de veículos de imprensa para nossas lutas, mas sim, pela agenda da população.

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