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Pagode, Tretas, Curtição e Parada Cardíaca de Menor no Fluxo da Virada Cultural 2015

Fomos até a Virada Funk Na Zona Norte de SP para acompanhar a programação periférica do principal evento oficial de cultura da cidade.
Guilherme Santana

Nota da edição: O lança-perfume voltou à pauta do dia. Depois que nossos bróders do Motherboard falaram sobre o assunto, o Fantástico reavivou a polêmica ao trazer uma matéria apontando alguns dos componentes da droga — entre as substâncias encontradas no loló está o removedor de pingo de solda, por exemplo — e relacionando algumas mortes ao consumo do volátil. A equipe do THUMP esteve na Virada Cultural Funk SP na Zona Norte de São Paulo, no último sábado (20), e viu que a droga é consumida por muitos dos que frequentam o rolê. E ainda com o apoio da prefeitura, a Virada Funk teve suas tretas, com o registro de um atropelamento e o atendimento de um menor que sofreu uma parada cardíaca. A colaboradora Larissa Zaidan e o fotógrafo Guilherme Santana relatam em texto e fotos o que viram por lá.

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Leia: Quão Legal É o Fluxo Legal?

Um atraso de cinco horas marcou o início da Virada Cultural Funk SP, no bairro Cachoeirinha, na Zona Norte de São Paulo. Entre as atrações escaladas, os mais esperados eram o cantor Belo e a banda Raça Negra. Marcado para as 16h, o primeiro show da programação só começou por volta das 21h. Escoltado por uma equipe reforçada de produtores e seguranças, Belo estava blindado e os fãs não tiveram a mínima chance de chegar perto do seu ídolo. Gabriela Duarte, 18, que trabalhava em uma das barracas de venda de bebidas do evento, contou que estava esperando pela chegada do artista desde as 10h da manhã. "Eu vou ficar aqui até o final do fluxo, às 5h", disse ela enquanto tentava, sem muito sucesso, uma credencial para tirar foto com o ídolo.

Todas as fotos por Guilherme Santana

Gritaria e chororô. Era o que se via na plateia massivamente feminina do show do Belo. Quase todas as minas no front stage choravam e imploravam por uma toalha, objeto que o cantor sempre beijava e em seguida jogava para o público.

A curtição, porém, deu lugar a um clima pesadão logo que o Raça Negra começou a tocar, lá pelas 23h. Bem em frente ao palco, pudemos ver dois grupos de minas se atracarem a ponto de uma garota cair no chão enquanto outras a chutavam. A briga só parou quando outras pessoas resolveram intervir. Assim que o show chegou ao fim, o mestre de cerimônias da noite mandou um papo reto: "Briga é fácil de resolver. Pega o amigo do lado e dá um abraço". O MC também deu um salve para a banda: "Queria agradecer o Raça Negra, é a primeira vez que a gente recebe eles [sic] aqui na comunidade", enquanto lembrava o público que a atração era uma espécie de presente pra comunidade: "E [esse show] é pra vocês, pro povo preto, pro povo excluído".

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Depois do acontecido, outras atrações como Carica e Banda Caricatura e Projeto Vinil se apresentaram até a 1h. Assim que as luzes do palco se apagaram, os porta-malas dos carros foram abertos e os paredões ligados. Tinha começado o fluxo. A estimativa da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial é de que tenham passado pelo evento cerca de quatro mil pessoas — foi o calor humano da molecada que ajudou a amenizar o frio que fazia.

Em busca de entender por que os novinhos lotaram o primeiro palco descentralizado em 11 anos de Virada Cultural, conversamos com uma rapaziada. Entre eles, o estudante Willano Henrique, 15, nos contou que, mesmo com vontade, nunca tinha ido à Virada Cultural no Centro. "Só não vou porque não tenho o dinheiro da passagem". As gêmeas Paola e Paloma Castilho, de 15 anos, falaram não ter muita vontade de colar no show das atrações mais afastadas da Zona Norte. Quando perguntamos até que horas pretendiam ficar, as irmãs contaram rindo: "Até a hora que Deus quiser".

No início da madrugada, avistamos um carro do Corpo de Bombeiros na esquina de onde acontecia o fluxo. Chegando mais perto a cena era: um garoto que não devia ter mais de 12 anos estava com os pés muito machucados e outro menor estava desacordado no chão. Por alguns instantes, os bombeiros tentaram reanimá-lo enquanto fomos informados que o garoto havia tido uma parada cardíaca.

Enquanto o garoto com o pé machucado permanecia esperando por atendimento, William de Socorro, 25, nos informou que foi ele o responsável por chamar ajuda ligando para o 192. "Um carro passou por cima do pé dele e quando fomos pedir ajuda para a base comunitária da Polícia Militar, nos informaram que não podiam fazer nada e saíram fora. Fui eu que tive que ligar para os bombeiros", diz William.

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Um dos socorristas que atendia o menor desacordado afirmou durante o atendimento que a parada cardíaca poderia ser decorrente do abuso de drogas. "Ele provavelmente baforou, cheirou e ingeriu bebida alcoólica", disse o bombeiro. O crescente número de mortes causadas depois do consumo do loló, motivou a criação da ONG Rolezinho – A Voz do Brasil. Em contato com hospitais da periferia de São Paulo, a organização aponta que a cada 100 jovens que dão entrada em pronto-socorros públicos de periferia da capital nos fins de semana, 20 apresentam algum quadro clínico decorrente do uso do lança-perfume — e quatro morrem. "Antigamente, nos bailes de rua, de cada dez jovens, três usavam lança. Hoje, na mesma rodinha de amigos, oito usam a droga", diz Darlan Mendes, diretor da associação e idealizador da campanha "Lança mata".

Tensa, a situação de uma criança sendo reanimada não impediu que uma mulher se aproximasse dos bombeiros em busca de uma foto. Os profissionais rapidamente negaram o pedido da mulher e por 15 minutos tentaram reanimar o menor desacordado. Sem RG ou qualquer outra identificação, a criança acabou sendo encaminhada para o hospital em uma ambulância do GRAU.

A estudante Tainá Santos, 18, que acompanhava o socorro com suas amigas, disse conhecer o garoto, mas afirmou saber apenas que o primeiro nome dele era Guilherme. Por diversas vezes, tentei entrar em contato com Tainá para saber mais informações sobre o garoto. Ela, no entanto, disse que não poderia falar sobre o acontecido: "A única coisa que eu posso te dizer é que ele está vivo e continua internado".

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Depois da saída da ambulância, o fluxo continuou — ainda pudemos ver algumas garotas mandando xavecos para os bombeiros que responderam com beijos a distância. Foi aí que decidimos que era hora de ir embora. O que pensar do rolê? Descentralizar a Virada Cultural pode sim ser muito legal. Mas esse fluxo, ó, não estava nenhuma uva.

Leia: O Fluxo do Dia do Trabalhador no Único Parque do Último Bairro da Zona Norte de São Paulo

A Virada Cultural Funk SP na Zona Norte também foi daora. Veja mais fotos do Guilherme Santana: