Isto de ser estrela de música pode resultar numa carrada de trabalhos. A maior parte das pessoas não imagina todas as obrigações contratuais, indicações das editoras a seguir, calendários de promoção a cumprir, aparições obrigatórias, paparazzi, etc. Mas isto, em Portugal, normalmente só acontece se fores um produto de mercado — daqueles que são importados e adaptados como a Floribela — ou um fenómeno juvenil como qualquer banda do estilo D’ZRT. Tendo em conta este panorama, recupero a minha fé na humanidade sempre que vejo alguém que admiro pelos seus dotes musicais, sem autotune nem vocoders, mandar a editora à merda e dizer: “This is the future of music!”
Amanda Fucking Palmer era um dos elementos do duo The Dresden Dolls. Mas, depois de levar na cabeça e de ficar farta da ausência de ligação entre ela e os seus fãs, decidiu que não estava para aí virada e resolveu fazer algumas coisas por si mesma. Começou por montar um grupo através do Twitter, onde, através da hashtag #LOFNOTC (Loosers of Friday Night On Their Computers — o que traduzido seria algo como os falhados que passam as noites de sexta-feira no computador), falava directamente com os seus seguidores e lhes perguntava o que queriam ouvir, enquanto os deliciava com medleys de músicas suas, fundidos com outras canções insólitas como a “Baby one more time”, da Britney Spears.
Depois de varias pessoas terem sugerido que ela criasse um projecto no Kickstarter, uma página onde as pessoas podem contribuir em troca de recompensas, Amanda lançou o projecto para a magia da internet. Seriam necessários 100 mil dólares para lançar o álbum (que custava um dólar na sua página do KS). Em menos de duas semanas, ela estava sem palavras por ter largamente ultrapassado o seu objectivo. No final do projecto, Palmer tinha aproximadamente 1.200.000 (se não consegues ler o número é UM MILHÃO E DUZENTOS MIL DÓLARES!!!).
A primeira vez que tive o prazer de a ouvir foi em Famalicão, a segunda foi no Platoon Kunsthalle, em Berlim, onde deu um concerto com a Grand Theft Orchestra. O que começou como um exercício sobre intimidade e a capacidade imersiva — nas suas palavras — transformou-se num tributo aos livres espíritos que são humildes o suficiente para perceber que não existem diferenças de estatuto e que todos somos humanos: temos pêlos nas axilas. Como já sabem, tenho super poderes e, quando as pessoas estão à minha volta, muitas coisas alucinantes acontecem. Mas confesso que até eu fiquei surpreendido quando a Amanda se despiu e convidou todos os presentes a assinar o seu corpo.
Aqui ficam as imagens (e alguns vídeos manhosos) do concerto de Amanda Fucking Palmer. Este texto tem um propósito, pois, com a Capital da Cultura a chegar ao fim, fica a sugestão para a programação da Plataforma das Artes do próximo ano…