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Discos: R. Stevie Moore

Equações pop para comprovar o génio de R. Stevie Moore.


Advanced
2000 Records

8/10

Colocados lado a lado, os nomes de Muslimgauze e R. Stevie Moore pouco ou nada parecem ter em comum: o primeiro era britânico e passou uma boa parte da sua vida a compor eletrónica inspirada pelo conflito entre Israel e a Palestina; o segundo é um fenómeno norte-americano, que começa por nascer rodeado de instrumentos (o seu pai era um muito solicitado baixista) e que nunca mais os deixou até aos dias de hoje. Mas isso é apenas o que retiramos de um retrato imediato, porque, avaliados mais de perto, Muslimgauze e R. Stevie Moore partilham de características suficientes para alimentar um paralelo. 

Vejamos por exemplo como ambos construíram as suas respectivas lendas através da gravação de dezenas e dezenas de discos (centenas?), quase sempre sem qualquer apoio da indústria e dependendo apenas de um aparato técnico muito artesanal. Nas duas situações, a elevada prolificidade dos músicos esteve também ligada a uma causa bastante pessoal: se a retaliação feita de ruído, nos mil discos de Muslimgauze, não deve ser desassociada da sua fé cega pela resistência da Palestina, as mil canções bem mais doces de R. Stevie Moore estarão de algum modo ligadas ao facto do homem das barbas brancas ser um eterno excluído da música pop. Isto apesar de Moore já ter demonstrado por inúmeras vezes que dispõe de um talento mais que natural para chegar a excelentes canções pop. 

E o disco em mãos, Advanced, está carregadíssimo de equações pop capazes de comprovar o génio de R. Stevie Moore. Além disso, é curioso reparar como a edição deste álbum (limitada a 500 cópias) ficou a cargo da 2000 Records, label sedeada em França – país em que Moore goza de algum culto há vários anos. Um culto que é compreensível visto que os franceses adoram ver os americanos a repetir as suas fórmulas artísticas, desde que, tal como os blues, sejam semelhantes entre si e sempre boas. Advanced não andará distante disso: é um sólido conjunto de canções nem por isso muito inesperadas ou excêntricas, mas surpreendentes pela qualidade e pelo aproveitamento das melhores lições dos Beatles ou Beach Boys. Escutamos “Pop Music ou “Me, Too”, e ficamos esclarecidos de que este pode ser o disco certo para abrir a porta do universo R. Stevie Moore e entrar para não mais sair.