Apesar de evidências convincentes que indicam a eficácia da maconha no tratamento do transtorno do estresse pós-traumático, o governo federal norte-americano continua a impedir o andamento de pesquisas aprovadas pela FDA (departamento responsável por narcóticos e alimentos nos EUA) do uso de cannabis como possível alternativa aos medicamentos viciantes, perigosos e em maior parte ineficazes prescritos atualmente para pacientes de TEPT.
Então não é absurdo que haja tão poucos estudos sérios quanto às características afrodisíacas da maconha. Afinal, se os federais acham mesmo que a erva é perigosa demais para ser oferecida à veteranos de guerra que vivem em agonia, quais as chances de deixarem alguém usá-la em busca de maior prazer sexual?
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Enquanto isso, um artigo de 2010 na Psychology Today notava a limitação de informações disponíveis, e também determinava que ao passo que “os efeitos sexuais de qualquer droga alteradora de humor – álcool, anfetaminas, antidepressivos, cocaína, narcóticos – são bem documentados, relativamente consistentes, e não exatamente controversos… Estranhamente, os efeitos da maconha no sexo são altamente imprevisíveis, indo de um forte inibidor a forte estimulante”.
O que compõe essa grande diferença entre quem fuma unzinho e fica excitado e aqueles que fazem a mesma coisa e sentem sono? Condições e local, por exemplo, além de oportunidade, dosagem, bioquímica, e talvez o mais importante: as intenções do usuário.
De acordo com um relatório de 1963 do Escritório sobre Drogas e Crimes das Nações Unidas intitulado The Cannabis Habit, “os resultados do consumo de cannabis são consideravelmente influenciados pelas expectativas do indivíduo ou pelo cenário social ou cultural” – um fenômeno que pode ser especialmente verdadeiro em termos de trepar ou não.
De forma mais confiável, com base no punhado de estudos que levam o assunto à sério, a maconha parece reforçar qualquer nível de interesse sexual que o usuário já esteja sentindo, seja uma excitação imediata e intensa, ou um desejo fervoroso de continuar quietinho em vez de se engatar num ménage-a-trois enquanto assiste TV.
É COMPLICADO IDENTIFICAR VERDADES UNIVERSAIS QUANDO SE TRATA DE CANNABIS E PRAZER.
“Se está rolando uma festa e todo mundo fuma maconha, haverão algumas pessoas que ficarão mais introspectivas e não se sentirão nada sensuais”, disse a mim a expert em sexo de longa data Susie Bright . “Outros podem se sentir mais abertos ao flerte, abertos à sugestões. Então é complicado identificar verdades universais quando se trata de cannabis e prazer.”
O mesmo indivíduo pode ter reações completamente diferentes à maconha em diferentes contextos, de acordo com Bright, conhecida por ter cofundado a On Our Backs, a primeira revista sobre sexo voltada para mulheres, atuando como uma das primeiras feministas com atitude positiva ao sexo nos EUA. Agora, apresentadora de um popular podcast, ela explica que em sua vasta experiência – incluindo uma memorável “orgia com brownie de maconha” – a erva funciona melhor como afrodisíaco em doses pequenas a moderadas. Do contrário, você arrisca exagerar na dose, ficar lerdo ou boladaço.
Ela deu uma sugestão bem útil recentemente, porém, para evitar estes problemas: “Sempre que alguém me pergunta ‘Qual a melhor combinação de drogas para o sexo?’ respondo, ‘cannabis e um café expresso’”.

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“Quando escrevi Marijuana Reconsidered em 1967, não existia muita literatura sobre o assunto [da cannabis enquanto afrodisíaco] e ainda não existe”, disse Lester Grinspoon, professor emérito de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Harvard, em entrevista à High Times em 2001.
“No final, concluí que a maconha melhora em muito a experiência sexual para muitas pessoas, já que não restam dúvidas de sob a influência da erva, elas são mais suscetíveis às suas sensações e desejos sexuais”, continuou Grinspoon. “Então, neste sentido, pode sim considerar-se um afrodisíaco. Mas não no sentido de que causaria uma ereção ou qualquer outra manifestação de excitação… A maconha aumenta o prazer sexual, mas ao falarmos da definição de outra pessoa [do que é afrodisíaco] que incluiria aí o início do encontro sexual, é terreno mais incerto.”
Entretanto, os diversos estereótipos negativos empregados para rebaixar os usuários de maconha no decorrer do último século apenas exasperaram nossa esquizofrenia cultural quando se fala de sexo chapado, desde a declaração de Harry Anslinger da época de Reefer Madness (filme de propaganda norte-americano sobre os malefícios da maconha) de que umas tragadinhas de leve levam minorias a estuprar e também com que brancas “desejem relações sexuais com negros”, a afirmações tão absurdas quanto de que a erva causa impotência, infertilidade, ou que acaba com a libido.
Até mesmo hoje, aos olhos do público em geral, o consumo de cannabis segue amplamente associado com tudo que é tipo de depravação ou, inversamente, ao fim da libido, apesar dos recentes passos que nossa sociedade deu à liberação da maconha. Isso se deve provavelmente ao fato de que o establishment médico ocidental nunca se deu ao trabalho de associar maconha e sexualidade de forma que não fosse assustadoramente negativa. Mas e se pararmos para analisar o assunto mais profundamente?
Milhares de anos atrás, na Índia antiga, os primeiros praticantes de sexo tântrico certamente tinham uma visão melhor da relação entre o consumo da erva e a cópula do que nós agora. De fato, após consumirem doses psicoativas de THC ao ingerirem uma bebida sagrada conhecida como bhang – composta de uma mistura de maconha, leite, nozes e especiarias – esses sensualistas pioneiros buscavam obter a iluminação total ao tocarem a energia sexual mais profunda do corpo. De acordo com um artigo de 1998 da Cannabis Culture, os rituais tântricos á base de bhang eram “intensos, complexos e difíceis”.
Rituais tântricos envolvendo a maconha datam de no mínimo 700 A.C., e grupos de adoradores “purificados” femininos e masculinos praticavam jejum, orações, purificações cerimoniais, Kundalini yoga, e união sexual, sujeitando corpo e espírito à provações excruciantes e extasiantes. Concentração, consagração e transformação eram os objetivos destes rituais, conduzidos em templos decorados com milhares de flores, nuvens de incenso, e candeeiros cintilantes… Os sistemas medicinais Ayurvédico e Unani Tibbi usavam a cannabis para aumentar a libido, superar a impotência, curar diversas doenças, obtenção de ereções duradouras, atrasar a ejaculação, facilitar a lubrificação e livrar-se de inibições.
Agora a ciência moderna pode finalmente estar correndo atrás do prejuízo, com a recente chegada do Foria, “o primeiro óleo de melhoria sexual 100% natural” que mistura óleo de coco e de cannabis em um spray criado para uso vaginal. Com a promessa de mais orgasmos, orgasmos mais intensos, orgasmos múltiplos, lubrificação natural e prazer aumentado, o produto deveras hypado tem como alvo mulheres com alguma disfunção sexual, ou que buscam melhorar algo que já é bom.
Desenvolvido para uso tópico e oral, o Foria pode ser aplicado diretamente no clitóris, lábios e vagina, e/ou ingerido. Usuárias tópicas não ficarão chapadas, mas o spray é forte o bastante para produzir efeitos psicoativos quando ingerido em altas doses. Muitas matérias descreveram o Foria erroneamente como um lubrificante, quando na verdade é um produto pré-lubrificante que dever ser aplicado na vagina ao menos 30 minutos antes da atividade sexual. Cada borrifada contém aproximadamente 2 mg de THC, com um número de seis borrifadas como dose recomendada pelo fabricante.
Até o momento, o produto só se encontra disponível em pouquíssimas farmácias de maconha medicinal na Califórnia, mas a ideia é expandir no futuro próximo. “Nosso produto só este disponível durante 60 dias e já temos uma grande clientela de clientes recorrentes”, disse o fundador do Foria, Matthew Gerson. “Mulheres que gostaram do produto logo quiseram compartilhá-lo com outras mulheres em suas vidas que estavam passando pelos mesmos problemas”.
Quando Mish Way recentemente experimentou o Foria lá na VICE, voltou com resultados bastante positivos:
Decidi borrifar minha vagina com o Foria religiosamente por uma semana. Toda manhã eu dava quatro borrifadas e mais quatro no meio da tarde. Meu namorado e eu fizemos muito sexo e monitoramos como as coisas estavam mudando. O sexo foi intenso. Notei que certas coisas eram diferentes e os orgasmos eram mais longos, muito mais loucos e pareciam mais fortes. Quando estávamos simplesmente transando no modo clássico, eu sentia isso por dentro de maneira mais focada, como se tudo estivesse funcionando de dentro para fora. Quer dizer, sem querer parece muito hippie aqui, foi muito bacana mesmo, e eu não sei se foi por causa do Foria entre as minhas pernas ou na minha boca.
Sites como Cosmo e The Bold Italic publicaram elogios ao Foria com base de experiências “em primeira mão”, enquanto as publicações Elite Daily, Refinery 29 e The Frisky foram mais comedidos. Os melhores resultados supostamente vindos de uma combinação cuidadosamente dosada de ingestão de THC via oral e vaginal.
Ou seja, se sabemos de algo, é que dá pra usar a maconha como lubrificante. Independente se ela se encaixa ou não na sua definição de afrodisíaco.
Tradução: Thiago “Índio” Silva