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Entrevista mediúnica com Yuri Gagarin e Neil Armstrong

Se calhar, é melhor aproveitar para falar com as pessoas enquanto elas ainda vivem.



Apesar de não ter grande experiência em espiritismo, tabuleiros ouija, jogos do copo ou mau-olhado por via de boca de sapo cozida, decidi ser pró-activo e visitar o wikiHow para descobrir que tipo de tecnologia paranormal me sairia mais em conta para falar com o Neil Armstrong e o Yuri Gagarin.

Acabei por me entusiasmar pelo maravilhoso mundo mediúnico de Alan Kardec, que até então julgava ser apenas um mau ponta-de-lança do Benfica. Assim, após uma leitura sucinta, mas suficientemente objectiva do Livro dos Médiuns, acabei por pedir à minha mãe e avó para me darem uma mãozinha no ritual mediúnico. Coisa que aceitaram de bom grado quando lhes disse que, se ainda desse tempo, iriam poder falar com o Tony de Matos. Uma mentira em nome do bom jornalismo — quem nunca o fez que atire a primeira pedra.

Pouco tempo depois de termos dado as mãos e encetado o ritual, o candeeiro da sala começou a abanar, os naperons a cair de tudo quanto era mobília e as paredes da cozinha a jorrar sangue negro como breu. Até ver, tudo corria às mil maravilhas. Portanto, de imediato, fiz a saudação mediúnica, como mandam as regras do Livro dos Médiuns.

VICE: Gostaríamos de pedir aos benfeitores que nos assistem, que escolhessem um dos médiuns em condições de passividade, para nos transmitir algumas palavras instrutivas, ou destinadas a orientar as actividades.

[Assim que proferi estas palavras, a minha avó virou azul e levitou de olhos revirados enquanto um fiozinho de plasma verde fluorescente lhe escorria pela boca. A minha mãe entrou em histeria e avisou-me que a minha avó já não tinha idade para aquelas coisas, mas eu chamei-a à razão com o argumento de que “lhe ia fazer bem à circulação”. Ânimos serenados, pudemos prosseguir. Foi então que a Entidade do Além comunicou através da minha avó flutuante.]

Entidade do Além (por via da minha avó): ‘Tou! Quem é?

É o Álvaro. Desculpe estar a incomodar. Estou a falar com quem?
A tua tia morta.

Tia Eugénia?
‘Tou na tanga. Sou o Baal. Diz!

É possível falar com Neil Armstrong e Yuri Gagarin?
Só um momento, vou chamar.

[Aproveitei o momento para ir à casa de banho.]

Yuri Gagarin (por via da minha avó): ‘Tou?

Ah! Olá! Yuri? Neil?
Yuri.

Fala português?
No Além toda a gente fala português.

A sério?
Diz logo, tenho pouco tempo.

Gostava de fazer uma pequena entrevista consigo e com o Neil.
O Neil morreu.

Eu sei. É por isso que estou a falar para o Além.
Achas que sabes tudo, não é?

[Silêncio constrangedor.]

Gostava de falar com os dois, enquanto representantes máximos da exploração espacial. Era importante que…
Ok.

Pode ir chamar então?
A tua avó é das cenas mais desconfortáveis em que já estive.

É melhor ligar noutra altura.
Calma, rapazinho. Ele está aqui comigo. Tens de aprender a relaxar e a dar valor às pequenas coisas da vida.

Que eu saiba, o Yuri é astronauta e não psicólogo.
Queres ver a tua avó a fazer striptease?

Ok, já chega. Podemos tentar recomeçar esta entrevista como gente grande? Como quiseres. Só queria fazer uma ou duas perguntinhas…
Quantos campeonatos ganhou o CSKA de Moscovo desde que eu morri?

Não sei, mas olhe…
Vou passar a tua avó ao Neil, não me apetece falar.



Yuri?
Neil Armstrong (por via da minha avó): Boas.

Neil? É um orgulho estar a falar consigo!
Devias ter mostrado mais respeito pelo Yuri.

Ele é que começou a dizer que ia fazer coisas com a minha avó.
Tens de perceber que ele sempre se sentiu em segundo plano.

Juro que fui o mais correcto possível com ele.
Ok, diz lá.

Primeiro de tudo, queria saber qual a sensação de pisar a Lua.
Nunca pisei a Lua.

Então as teorias de conspiração são verdadeiras?
Não estou a dizer isso.

O Neil é que acabou de dizer que nunca tinha pisado a Lua.
Estás a querer levar a entrevista para onde te interessa, não é?

Eu só…
Metes-me nojo.

Por amor de Deus, eu só estava a…

[Ainda ia a meio da frase quando a minha avó, desconectada do Além, se esparramou no chão. Tinham-me desligado a avó na cara. Ajudei a minha mãe a levantar a minha querida avozinha, que entre meia dúzia de “ais” e “uis”, perguntou se já tínhamos falado com o Tony de Matos. Eu disse que sim, que era muito simpático e que lhe tinha mandado um beijinho.]

Quanto a mim, cheguei à conclusão que devemos aproveitar para estar e falar com as pessoas que admirámos em vida, porque no Além, não há quem as ature. Até qualquer dia. Em vida, de preferência.


Ilustração por Mother Volcano