O corpo humano é capaz de coisas surpreendentes. Feitos de resistência tão grandes que inspiram filmes, livros, músicas e se tornam lendas. Trucidar bestas. Circunavegar o globo. Vencer a corrida de trenós Iditarod. Assistir um filme do Adam Sandler por dia durante um ano inteiro.
Para alguns, um ano inteiro de maratona da obra considerável de Sandler levanta questões: Por quê? Como? Mas para Eloy Lugo, um editor musical de Los Angeles e grande fã de Sandler, esse foi simplesmente o #YearOfSandler, uma jornada de honra cujo propósito era homenagear seu herói e talvez encorajar uma reavaliação do extenso corpo de trabalho do Billy Madison. Essa não é a primeira vez que Lugo prestou homenagem a Sandler: em janeiro ele organizou a terceira SandlerCon, uma maratona de 24 horas de filmes com direito a cosplay e cardápio temático, que foi muito elogiada no Twitter por membros do Universo Sandler.
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A peregrinação cinematográfica de um ano de Lugo começou no dia mais sagrado, 9 de setembro (aniversário de Sandler) de 2017, e foi concluída com uma exibição lotada do subestimado (segundo Lugo) Um Diabo Diferente, no cinema Downtown Independent de LA exatamente um ano depois.
Conversei com Lugo para me maravilhar com seu feito e simplesmente perguntar em que diabos ele estava pensando. Para minha surpresa, me vi reavaliando o cara que fez Cada Um Tem a Gêmea que Merece e os filmes Gente Grande 1 e 2. Bom, como Eloy mencionou, se Paul Thomas Anderson adora o cara, talvez a gente esteja mesmo perdendo alguma coisa.

VICE: Você é casado e fico imaginando como um ano de Sandler afetou sua vida doméstica. Coitada da sua mulher.
Eloy: Ela também é fã dele, mas acho que ninguém além de mim tentaria algo assim. Geralmente chego em casa antes dela, então tentava assistir um filme assim que chegava, mas se chegávamos juntos, a gente assistia o filme que ela quisesse.
Há um método nessa loucura? Como você consumiu esses filmes?
Um parâmetro que coloquei foi que eu assistiria qualquer filme que eu quisesse, em vez de assistir todos na ordem de novo e de novo. Mas de vez em quando eu trocava essa ordem. No começo do ano, assisti a filmografia dele na ordem. Durante o Hanukkah, assisti Oito Noites de Loucura de Adam Sandler oito vezes. Fiz uma semana de Lá Vêm os Pais [The Week of] quando o filme saiu, esse tipo de coisa. Mas assisti principalmente o que dava na telha.
Parece que depois de um tempo, a resposta para a perguntar “o que você quer assistir?” seria “nenhum desses”.
Sim, olha, provavelmente assisti A Herança de Mr. Deeds umas 30 vezes. Assisti Oito Noites de Loucura várias vezes porque só tem uma hora e 15 minutos, então era o mais curto… mas eu adoro Oito Noites de Loucura de Adam Sandler mesmo.
Você sabe qual o filme dele você assistiu mais vezes?
Ah, cara. Acho que é Cada um tem a Gêmea que Merece ou Gente Grande 2, que são os mais divertidos de assistir de novo porque são muito bobos. Gente Grande 2 é insano.
Qual o valor de assistir de novo Cada um tem a Gêmea que Merece para você?
Bom, acho que ele está incrível em Cada um tem a Gêmea que Merece. Sei que não é o consenso, mas especialmente a interpretação dele da Jill no filme. Nas mãos de qualquer outro essa personagem seria impossível de gostar e irritante, porque ela é a convidada indesejada por excelência, mas ele investe tanto em interpretar esses personagens, mesmo sendo totalmente desagradáveis, que, no final, você acaba torcendo por eles.
Fale um pouco sobre a SandlerCon.
A primeira coisa que fizemos foi montar um cardápio baseado nas coisas dos filmes. Tivemos almôndegas servidas direto na sua mão de Afinado no Amor, sloppy joes [sanduíche de carne moída] de Billy Madison, um Herdeiro Bobalhão, spam com waffle de Como se Fosse a Primeira Vez, frango frito Popeye’s de Um Diabo Diferente, e um monte de pizza da Town Pizza – que virou a patrocinadora oficial da SandlerCon – de A Herança de Mr. Deeds.
Defender Sandler é tipo uma batalha contínua pra você?
Jesus. É uma postura que tenho que deixar clara sempre, especialmente com a maratona e a SandlerCon. Tipo: “Não, ele é muito bom ator, e não só em Embriagado de Amor!”. Ele tem um certo charme, uma qualidade de astro de cinema, especialmente no final dos anos 90.
Fiquei surpreso de você não ter se baseado mais em material dramático, considerando que o consenso é que ele está ótimo em Embriagado de Amor. Isso te surpreende?
Sim, algumas coisas dele já foram muito elogiadas pela crítica. Acho que o consenso é que ele estava muito bom em Tá Rindo do Que? e ótimo em Reine Sobre Mim.
Ele está muito bem em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe.
Ah, sim. Acho que talvez seja o melhor papel dele.
E ele tem sua própria turma de colaboradores com que ele sempre filma, apesar de saber que quase que com certeza eles vão ser arrasados pela crítica.
Ele é quase fiel demais. Tipo “Por que você continua carregando o Rob Schneider nas costas? Ele é muito ruim!”. Mas é a turma dele.
Quando Sandler é elogiado você se sente vingado?
Sim. É muito bom. Logo antes de Meyerowitz sair, li matérias no AV Club e acho que no The Ringer dizendo que finalmente era hora de reavaliar se ele era um bom ator. E sempre que essas coisas acontecem, eu e uma galera pensamos “Sim, finalmente!”. Paul Thomas Anderson é um dos maiores defensores dele. Acho que ele estava no podcast do Bill Simmons recentemente e rasgou muita seda pro Sandler.
Enquanto ele envelhece, será que ele vai passar por uma coisa Jerry Lewis, tipo ser realmente reverenciado mais tarde na carreira?
É uma ótima comparação, porque os dois entram totalmente nos personagens, mesmo se eles são desagradáveis ou estúpidos. Acho que Sandler dá tudo de si em todo papel – muita gente diz que ele é exagerado às vezes – mas acho que ele se compromete com o papel. E não tem mais ninguém, fora, sei lá, o Woody Allen talvez, que fez um filme por ano desde 1998.
Falando nisso, você ficou feliz por ele ter lançado três filmes durante seu ano de maratona?
Foi maravilhoso. Foi muito legal poder sair de casa e ir ao cinema. Um cinema aqui em LA passou Meyerowitz em 35mm e assisti duas vezes. Vi Hotel Transilvânia três vezes no cinema.
Sobre seu compromisso com essa história, lembro de ler no Twitter uns seis meses atrás que você tinha chegado no limite.
Ah, sim. Definitivamente foi meu momento mais baixo do ano, chegar nos seis meses. Parecia que eu estava nessa há muito tempo, e a ideia de passar por tudo de novo era muito tensa e estressante. Pensei em desistir todo dia por um tempo ali. Eu pensava Ah, chega. Esse é o último que vou assistir. Não vou conseguir. Mas aí eu sentia que seria um desperdício parar depois de seis meses, então segui em frente.
Falando com você e pensando no trabalho dele, sendo uma pessoa de trinta e poucos anos como eu e você, que cresceu com Sandler, já vimos muita coisa dele. Quer dizer, ele era do Saturday Night Live .
Sim. SNL e os discos também. Assisti a gravação do novo especial dele e é 80% músicas, todas incríveis.
As pessoas esquecem que o diferencial dele era a música no começo.
É, foi o que levou ele para o Weekend Update. E vários filmes dele têm músicas que ele escreveu – Meyerowitz tem canções que ele compôs com Randy Newman.
E você nunca tinha se encontrado com ele antes, mas cruzou com ele duas vezes desde que começou a maratona, certo?
Duas vezes indo para apresentações dele. A segunda vez foi no encerramento do especial dele e ele estava casualmente jantando com o [Paul Thomas] Anderson e o Judd Apatow na frente do clube em que ele ia tocar horas depois. Entrei na fila e quando ele terminou de jantar, ele veio até a fila, agradeceu as pessoas pela presença e tirou foto com todo mundo. Ele me pareceu um cara muito legal mesmo. A primeira vez que o encontrei, contei que minha esposa e eu fizemos nossa dança do casamento com a música “Grow Old With You” de Afinado no Amor, e ele disse “Cara, muito legal! Fala que mandei um oi pra sua esposa”. Quem faz isso, sabe?
Por que você escolheu Um Diabo Diferente para a exibição de encerramento do #YearOfSandler?
Um Diabo Diferente é um filme superdivertido que as pessoas não revisitam porque foi o primeiro fiasco dele – mas também é um filme altamente conceitual. São muitas participações especiais bizarras: Harvey Keitel, Reese Witherspoon, Ozzy Osbourne, Quentin Tarantino e Harlem Globetrotters aparecem por um minuto. Acho também que é o primeiro filme com personagens recorrentes: o Chubbs de Um Maluco no Golfe, Whitey de Oito Noites de Loucura – ah, e o cara do “Você consegue!”
Você recebeu vário tuítes de “Você consegue!”
Cara, foi o que me fez continuar. Toda vez que pensava em desistir, eu recebia tantos tuítes de “Você consegue!” que tive que continuar.
Quer dizer, por uns cinco anos da minha juventude, qualquer um podia entrar numa sala e gritar “Você consegue!” e todo mundo sabia o que estava acontecendo.
É. E tem várias coisas desse tipo com o Sandler.
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