Não se passa nada.
Nos dias que correm, se estás entre os 20 e os 30 anos, a probabilidade de teres um emprego decente (ou, simplesmente, um emprego) é tão escassa como as leis laborais daquele sítio no Bangladesh — onde as tuas sapatilhas aparatosas são confeccionadas por seres humanos com menos de oito anos. Não me fui informar ao INE, mas cheguei a esta conclusão através da análise do estado de todas as pessoas que conheço dentro desta faixa etária e que se inserem nas seguintes categorias:
Os freelancers
Hoje em dia, ser freelancer significa que recebes um trabalho de jeito de dois em dois meses, cuja respectiva remuneração nem chega para sobreviveres condignamente durante um mês (claro que, condignamente, prevê a ida ao sushi pelo menos duas vezes por mês e apanhares uma sarda todos os fins de semana).
Ou seja, no resto do tempo vives do dinheiro dos papás ou de alguém que se convenceu que tem obrigação moral de te patrocinar: se este último for o teu caso, manda para cá uma mensagem a divulgar todas as tuas técnicas manipuladoras ou o link daquele site que ensina a fazer hipnose em 15 etapas para deixar quem te rodeia a lamber-te o rabo.
Os trabalhos temporários
Não há nada mais precário a nível temporal do que isto. Diria mesmo que as únicas idades em que este tipo de trabalhos é suportável encontram-se entre os 17 e 18 anos. Se a partir daí não te sentires estúpido por andar vestido de galinha a entregar amostras de detergente, vai tratar-te.
Hoje vou distribuir uns panfletos para o centro comercial.
Trabalhar em lojas
Até podes estar na FNAC rodeado de gente com onda, mas o diálogo laboral acaba por ser o mesmo do um hipermercado qualquer, tipo: “Oh Leandro, não consigo registar este código de barras!” Ou algo como: “Achas que a Soraia do atendimento ao cliente anda a dar umas com o Zé dos CD’s?”
És freak, preguiçoso ou tens a puta da mania
Neste caso, provavelmente já passaste a fase dos trabalhos temporários e, como agora te achas fixe demais para os fazeres, limitas-te a auferir de rendimentos provenientes da reforma miserável da tua avó e dos teus negócios como pseudo-traficante. Altamente!
Vai praticando com um clister, não vá o diabo tecê-las.
Continua a fazer do Alzheimer um aliado e, em breve, estarás pronto para o teu estágio como traficante de orgãos.
Decidiste que precisas MESMO de ganhar guito e rendes-te a um trabalho monótono enfiado numa espelunca onde a conduta de ar condicionado não é limpa há dez anos
Aqui, vais dar por ti a pensar na procriação de BICS em cima da secretária do teu escritório. É tipo viveiro. Quando dás por ela, de uma nascem 20 e quando precisares de uma já não vês nenhuma — portanto, acabas por utilizar aquele lápis com quatro centímetros que outrora tivera grafite, mas que agora só orienta umas letras semi-transparentes.
São piores que coelhos.
Os momentos áureos do teu aprisionamento
A parte do teu labor que vais apreciar realmente são os intervalos, que, com muita certeza, serão utilizados para ires à casa de banho limpar o pingo no nariz causado pelo puto do ar condicionado que tem mais ácaros que o baú da tua avó (ou pela coca, se fores trader) e para beber um café mesmo chunga — o único que o conas do teu chefe está disponível para patrocinar.
Tais tarefas gratificantes revelar-se-ão como um imenso contributo para aliviar o teu espírito do facto de teres 200 processos em cima da tua mesa que deviam ter sido facturados há uma semana atrás e que tens vindo a ocultar habilidosamente, debaixo do esterco que é a tua secretária.
Como lidar com empregos que nos desapontam
Não desanimes, é improdutivo! Sabes aquelas alturas em que estás a pinar e o gajo se vem mais rápido do que era suposto? Depois, ele fica cheio de auto piedade e tu amuada, em vez de exigires um minete que te ponha a berrar como um vocalista de uma banda screamo ou como a Yoko Ono naquele concerto com a Lady Gaga?
Pensa assim: não interessa o quão desapontantes são as tuas circunstâncias, a chave para o sucesso é ires-te vindo com o que tens. Até conseguires melhor — o que nunca acontece. Não te esqueças de que — no caso de seres Homo Sapiens —, mesmo que estejas cheio de guito com o teu próprio estúdio e que metas nojo a quem te rodeia, a probabilidade de andares a choramingar por qualquer coisa é de 99,9 por cento.
A seguir a isto fecharam contrato com a Halls.
O veredicto
Só te resta tentar ver beleza naquilo que te rodeia. Aprende a admirar aquele colega de trabalho que cheira mal da boca, enquanto ele te explica uma cena qualquer no Excel — já agora, perde a cabeça e tenta apreciar o próprio Excel.
Pensa que a insatisfação são os ossos do ofício do teu estágio evolucional e, caso não estejas interessado em dar um passo atrás, sempre que acordares a sentir-te mesmo satisfeito: vai a correr para frente do espelho e tenta bater o mais mal possível.
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