Deixem de chatear a cabeça àqueles de nós que não gostamos de cães

É preciso acabar com a espiral de silêncio à volta desta problemática.

Por Ana Iris Simón; Traduzido por Madalena Maltez
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11 janeiro 2019, 2:02pm

Um clássico cão fofinho. Imagem viaWikimedia Commons / CC BY 2.0

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Não gosto de cães. Também não os odeio, são-me, simplesmente, indiferentes. A sua presença não altera minimamente o meu sistema nervoso, nem para bem nem para mal. Na verdade, não gosto de animais no geral, gosto tão pouco deles que, um dia, decidi deixar de os comer. Mas, parece que, para muita gente, a indiferença para com os cães é mais grave do que para com outros animais. É, aliás, vista quase como um sintoma de psicomania.

Se não gostas de cães e tens a ousadia de o dizer em público, os mais benevolentes lançam-te olhares antipáticos, mas há outros que te bloqueiam como pessoa automaticamente. Quem assume que se não te ris com um vídeo de merda em que os cães perseguem a própria cauda enquanto o dono chora a rir, ou se não sentes a necessidade de cumprimentar o cão dos outros na rua, és escumalha humana. Dizem que quem não gosta de cães não valoriza a fidelidade e até pode ser verdade. No entanto, também é verdade que vocês nos chateiam demasiado com isto.


Vê: "O controverso Festival da Carne de Cão em Yulin"


Eu já quase nunca digo que não gosto de cães e, se não me perguntarem, também não conto que tive um em pequena, o Roly. Era um cachorro e cego de um olho porque, um dia no campo, se aproximou de um rebanho de ovelhas e um pastor atirou-lhe uma pedra. Quando chegou a minha casa, achei-lhe graça. Tinha uns cinco ou seis anos quando a minha avó mo deu. O meu filme preferido na altura era Os 101 Dálmatas e o Roly, apesar de ser rafeiro, era preto e branco. Mas quando Os 101 Dálmatas deixou de ser o meu filme preferido, também deixei de dar atenção ao pobre animal.

Não está em mim, como dizia Dakota, esse amor desmedido e imparável que sentem os outros humanos em relação aos cães. E não sou a única. Para avaliar se escrevia ou não este artigo, se era a única que considerava que os cães eram lobos transformados em idiotas e a única que não lhes sorri quando passam por mim na rua, lancei no stories do Instagram a seguinte pergunta: "Alguém na sala que não goste de cães? Não é preciso que os odeiem, basta que não vos provoquem sentimento algum".

Para minha surpresa, recebi umas 10 respostas afirmativas com as respectivas explicações. Porque, como vocês são tão chatos, aqueles de nós que nos atrevemos a dar um passo em frente com isto de admitir que não gostamos de cães sentimo-nos obrigados a dar explicações, apesar de conscientes de que excusatio non petita accusatio manifesta, por isso talvez seja verdade que não temos alma, sei lá eu.

A questão é que a Jacobo, que tem 25 anos e aparenta ser uma pessoa normal, tirando o facto de usar aquelas misturas de cinco queijos ralados para gratinar, isto também lhe acontece. "No meu caso, acho que o que me acontece é achar que isso de que os cães sintam um amor tão incondicional é sintoma da sua estupidez. É-lhes indiferente quem lhes toque, quem os ame, por isso não vejo neles inteligência", explica.

E acrescenta: "Os gatos parecem-me mais espertos, andam mais na deles e acho mais interessante o seu instinto caçador, o seu olhar e os seus movimentos que os dos cães". Pergunto-lhe se o diz em público e ele responde-me que sim, às vezes, mas que as pessoas o olham de lado. Aliás, ao mesmo tempo que ele me escreve isto, recebo outra resposta a dizer "quem não gosta de cães merece três chapadas" e outra ainda que garante que "só quem não tem alma" é que pode não gostar.

Lúcia, outra pessoa normal de 26 anos, também não é grande fã e tem um bom motivo: "Uma vez em pequena estava a brincar numa praça e, de repente, aparece-me por trás um São Bernardo gigante, que me pôs as patas nos ombros e começou a lamber-me a cabeça. Pus-me a chorar e os meus pais tiveram que me levar para casa para me dar banho, porque aquilo me dava muito nojo, desde pequenina que sou um pouco maníaca da higiene e dos cheiros, sendo que essa é outra das razões pela que não gosto de cães".


Vê: "Um dia com o 'Homem Cão'"


Tal como vocês, amantes dos cães - aparentemente a maioria social e, consequentemente, também a maioria dos nossos leitores certamente indignados com este artigo - não nos compreendem, nós também, muitas vezes, não vos compreendemos. Não percebemos como é que a vossa cabeça funciona quando, por exemplo, dizem que preferem cães a bebés - a sério que ainda se atrevem a dizer que somos nós os insensíveis?!

Ou quando falam com os vossos animais domésticos - porque, tenham isto claro, quando se domestica um animal, a sua condição de animal esvai-se e passa a ser apenas uma vulgar mascote - a acharem que eles vos percebem. Ou quando lhes fazem uma puta de uma conta de Instagram e as pessoas, ainda por cima, a seguem e comentam, ou quando dormem com um ser que vos deixa a cama cheia de pêlos, ou quando deixam que vos lambam a cara apesar de saberem que eles cheiram merda de outros cães assiduamente, ou quando dizem que "é como um filho".

"Algo que não me entra na cabeça são esses seres humanos que têm um amor tão desmedido pelos cães que gostam mais deles do que das próprias pessoas. Parece-me bastante desconcertante e provoca-me alguma repulsa, é demasiado estranho", diz Jocobo.

"Para mim, o mais estranho nas pessoas que gostam muito de cães e, além disso, têm um, é o sexo. Isso de conseguirem fazer sexo tranquilamente à frente do cão. De repente, estás a dar tudo e apercebes-te de que o pobre animal está olhar fixamente para ti. Isso e ao contrário, quando os cães estão a pinar nos parques e os donos se vêem obrigados a falar de receitas de cozinha enquanto eles copulam", salienta Sara, que tem 24 anos e integra a lista de seres humanos cujos sistemas nervosos não reagem à presença de um cão.

Mas, ela também quase nunca o diz. É mais uma vítima desta espiral de silêncio. "Sinceramente, antes até fingia que gostava, porque ouvi várias vezes dizer que quem que não gosta de cães não é de confiança. Agora, quando digo a verdade, as pessoas tendem a olhar-me desconcertadas e dizem-me coisas como 'Mas eles são tão puros e inocentes!'", revela.

Há umas semanas, Juana, que tem cinco anos e os olhos mais curiosos do mundo, confessou-me que não gostava de cães, que gostava era de coelhos. E, isso sim, é ser realmente inocente e puro. Admitir a verdade. Dizer que, caraças, alguns de nós não nos comovemos com compilações de Vines de cachorrinhos. E não faz mal. Não é por isso, ou pelo menos não necessariamente, que somos uns cretinos.


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