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Gaming

Há jogadores de "Red Dead Redemption 2" a matar feministas no jogo

A Rockstar Games incluiu um retrato historicamente correcto de mulheres a lutarem pelo direito ao voto, mas há gente a aproveitar isso para o pior.

Por Emanuel Maiberg
06 Novembro 2018, 9:56am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Red Dead Redemption 2 é um game de mundo aberto, passado na fronteira norte-americana e com uma dedicação quase subversiva aos detalhes e realismo. Como os eventos se passam em 1899, 20 anos antes de as mulheres dos EUA conseguirem o direito ao voto, o jogo apresenta as sufragistas, activistas que lutaram pelo direito de votar nas eleições públicas. Parecia uma boa ideia, não? O problema é que a cultura gamer abriga uma misoginia gritante e, para surpresa de quase ninguém, alguns jogadores estão a deleitar-se com a possibilidade de baterem, abusarem e matarem essas personagens do jogo.

Um exemplo: há uma sufragista em Saint Denis - cidade análoga de Nova Orleães no jogo - a fazer campanha pelo seu direito de votar. Ela está numa rua com um cartaz e proclama em voz alta, “Deixem-me votar”. Uma das principais razões para RDR2 ser um jogo tão interessante é que permite abordar e resolver situações de várias maneiras. Os jogadores podem disparar, roubar, falar ou bater em quase todos os personagens que encontram, o que às vezes leva a resultados surpreendentes. Este design permitiu que um YouTuber chamado Shirrako publicasse um vídeo dele a caminhar até junto dessa sufragista e a dar-lhe um soco, fazendo-a desmaiar. O vídeo, intitulado “ Red Dead Redemption 2 – Bater na feminista chata”, foi postado a 28 de Outubro último e tem já mais de um milhão de visualizações.


Vê: "O videojogo que permite aos jogadores serem tudo o que quiserem"


Ao ver a popularidade do vídeo, Shirrako, fez outro onde tenta atirar a sufragista para junto de um crocodilo e outro em que deixa a mulher na linha do comboio para ser atropelada. Os comentários nestes vídeos, como já era de se esperar, são horríveis. Alguns utilizadores acharam hilariante, outros dizem que é isso que todas as feministas merecem, enquanto outros reclamam sobre como as leis favorecem as mulheres e dão eco a outros pontos de discussão dos “direitos dos homens”.

“Eu também matei essa mulher”, escreveu o utilizador Joker Productions, dono de um canal com 120 mil assinantes. “Sempre que ia ao alfaiate, tinha de a ouvir gritar. Fartei-me e levei-a a almoçar... só que a única coisa que lhe servi foi chumbo grosso”. “Podiam pegar nessa parte, fazer um jogo do tamanho de um AAA normal, cobrar 60 dólares que eu ia encomendar no momento que saísse”, escreveu um outro utilizador chamado Silly Goose.

Questionei Shirrako sobre porque é que ele achava que o vídeo fez tanto sucesso e sobre os comentários que está a receber. “Sei que, provavelmente, estás à espera de alguma resposta política, mas a verdade é que, simplesmente, é um momento engraçado de um dos meus streams, que decidi publicar como um vídeo separado”, explica. E acrescenta: “Não sei se foi intencional, mas a Rockstar Games fez com que essa NPC seja bastante irritante. Quando tentas parar para comprar roupas no jogo, o teu diálogo com o dono da loja é permanentemente interrompido pelos seus gritos e eu queria fazer compras em paz; sei que, como gamer, estás familiarizado com essas situações de NPCs chatos”.

Shirrako diz ainda que entende que a maioria das pessoas sabe que o vídeo é uma brincadeira e que tem consciência que houve quem publicasse comentários tóxicos, enquanto outros ficaram profundamente ofendidos com o vídeo. “Claro que não concordo com os comentários machistas, mas não há muito que eu possa fazer sobre isso, não gosto de censurar as opiniões das pessoas, independentemente de gostar delas ou não”, justifica.

Os developers da Rockstar sempre tiveram que lidar com polémicas sobre as coisas que os jogadores podem fazer nos seus mundos abertos e intrincados. Grand Theft Auto III, o primeiro jogo 3D da série e cartilha para o estilo de jogo de mundo aberto tão dominante na indústria hoje em dia, tornou-se infame por deixar os jogadores pinarem com trabalhadoras sexuais, para depois as matarem e ficarem com o dinheiro.

Isso não quer dizer que a Rockstar aprove este tipo de comportamentos, nem que Red Dead Redemption 2 defenda que se deve esmurrar feministas, mas vale a pena pensar no que esses mundos abertos deixam os jogadores fazerem, porquê e como essas coisas correspondem ao que está a acontecer no mundo real.

É importante apontar que, apesar de RDR2 dar aos jogadores muitas opções sobre como abordar as situações e muitas actividades para levar a cabo (caçar, jogar póquer, pescar), não deixa as pessoas fazer qualquer coisa, nem as deixa evitar certas acções. Arthur Morgan, o protagonista, não pode simplesmente reformar-se e transformar-se em professor numa cidade remota da fronteira. O jogador não pode decidir, por exemplo, jogar o jogo enquanto um aspirante a pianista. É um jogo sobre foras-da-lei e o jogador pode decidir se quer ser um bandido de bom coração em conflito ou um psicopata de corpo inteiro, mas, seja como for, vais ter ter que roubar e disparar sobre pessoas.


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Isso significa que, apesar de qualquer ideia que a Rockstar possa ter sobre o vídeo de Shirrako, poder esmurrar e matar uma sufragista em Red Dead Redemption 2 é algo que o estúdio escolheu colocar deliberadamente no jogo. Os jogadores, pelo que sei, não podem pinar com as trabalhadoras sexuais, mesmo quando elas oferecem os seus serviços. A Rockstar também escolheu não incluir a capacidade de matar crianças em RDR2, apesar de isso não ser realista. São escolhas conscientes, que limitam o que os jogadores podem fazer.

Também é importante apontar que a sufragista não é retratada de maneira neutra. A Rockstar também escolheu isso. Como Red Dead Redemption 2 permite que os jogadores explorem o jogo como quiserem, encontrei as sufragistas num sítio totalmente diferente desse mundo. Numa cidade pequena chamada Rhodes, onde o neto de um dono de uma quinta tem um romance proibido com a filha de uma família rival. O interesse romântico é uma sufragista e ele pede-me que a acompanhe durante um protesto para que ela fique segura. É uma preocupação legítima e historicamente correcta, já que as sufragistas eram espancadas em público, atacadas sexualmente, presas e alimentadas à força.

Achei que esta era uma missão paralela muito interessante e foi inteligente da parte da Rockstar destacar algumas das desigualdades horríveis que definiam a fronteira americana tanto como os chapéus de cowboy e os revólveres, mas também sinto que isso foi incluído para dar mais sabor. O jogo não diz que as sufragistas eram boas ou más, apenas que existiram.

Como os jogadores se deveriam se sentir com isto? Os jogadores acham que a sufragista de Saint Denis é irritante, porque essa é a bagagem que levam para o jogo, ou porque ela é retratada como alguém com quem é difícil simpatizar?

Quando o jogador aborda a sufragista em Saint Denis, ela pergunta-lhe o que Arthur acha do sufrágio feminino e do seu direito de votar e ele responde “Claro, porque não”. Depois diz: “Qualquer um que seja suficientemente idiota para votar, deveria poder”, que é o nível de sofisticação e comentário político que eu esperava de um desenvolvedor cujo jogo de estreia Grand Theft Auto foi celebrado por ter um botão de peido.

Ainda não o terminei, mas duvido que Red Dead Redemption 2 tenha algo profundo a dizer sobre direitos das mulheres e duvido que eles defendam esse tipo de comportamento no jogo. Só sei que permitiram fazer isto, enquanto não permitiram outras coisas. Não acredito que os videogames sejam culpados por violência no mundo real, mas existe uma parte da nossa infraestrutura cultural que deixa que alguém que interpreta um assassino de feministas (um problema real, que acontece no mundo de agora) publique um vídeo sobre isso para ganhar likes e permita que outros usem o vídeo como ponto de encontro para discutirem sobre o quanto odeiam mulheres na vida real.


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