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Identidade

Usar um strap-on mudou a maneira como vejo o sexo

"O strap-on é o domador definitivo dos homens... É como teres uma arma nuclear no teu arsenal”.

Por Nichi Hodgson; Como contado a Sirin Kale; Traduzido por Madalena Maltez
31 Maio 2019, 8:48am

Ilustração por Niallycat.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

My First Time é uma coluna e podcast que explora sexualidade, género e fetiches com os olhos atentos de uma virgem. Toda a gente sabe que a “primeira vez” engloba muito mais do que perder a virgindade. Desde experimentar o kink a apenas tentar algo novo e emocionante, todos nós passamos por milhares de primeiras vezes na cama – é assim que o sexo continua divertido, certo?

Aqui, falámos com a blogger de sexo e relações Nichi Hodgson sobre a sua primeira vez a usar um strap-on em alguém. Ouve My First Time no Acast, Google Play, Apple Podcasts, Stitcher ou em qualquer que seja a tua plataforma preferida de podcasts.

Era estagiária numa revista erótica, agora extinta, quando conheci a nossa dominatrix residente na festa de fim de ano da fempresa. Ela perguntou-me se eu queria ser a sua assistente e, como de qualquer forma não recebia nada na publicação, pensei: “Não perco nada em tentar”.

Na altura, não sabia nada sobre strap-ons e pegging – nunca sequer tinha visto nada do género em porno. Na época, o pessoal chamava à prática de, simplesmente, strap-on [o termo pegging foi cunhado pelo colunista de sexo Dan Savage em 2001]. Ela teve que me ensinar tudo. Mostrou-me o seu equipamento: um arnês de couro feito à medida, vários vibradores de diferentes cores, grossuras e formatos.


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Via-a a comer outras pessoas e vi o prazer que os homens tinham – há muitos homens no mundo desesperados para experimentar pegging. A visão de uma bela mulher vestida de cabedal a usar um strap-on é maravilhosa! É um triunfo. Toda a gente deveria ver isto pelo menos uma vez na vida.

Uma vez, um homem agendou uma sessão de strap-on com a dominatrix. O sonho dele era ser penetrado por duas mulheres diferentes. A coisa começava com uma sessão de spanking e humilhação de pénis pequeno, depois a dominatrix fazia o homem adorar o pénis dela. Passado um tempo, ela diz-lhe: “Chega disto, está na hora de seres fodido”. Pô-lo de quatro, colocou um preservativo no vibrador, muito lubrificante e começou a usar os dedos para o abrir. Depois, enfiou-o nele, primeiro devagar, depois foi aumentando o ritmo e a profundidade, com ele a masturbar-se ao mesmo tempo. Ele veio-se e, depois de descansar um pouco, ela disse-me “Jamie” – o meu nome de trabalho na altura – “é hoje que vais perder a tua virgindade de strap-on”.

Ela tinha-me levado a comprar o meu próprio strap-on uma semana antes; o dildo tinha uns 15 centímetros e uma boa grossura. Lembro-me de gostar muito do efeito geral quando me vi ao espelho. A dominatrix pôs-me um preservativo, lubrificante e mostrou-me o que fazer. O tipo já estava bem aberto nesta altura, por isso não precisei de muitos preliminares – limitei-me a penetrá-lo. Lembro-me claramente da cena: foi hipnótico.

Penetrar aquele homem mudou a minha perspectiva sobre a sexualidade. Tornei-me mais empática com os homens. Comer alguém, fisicamente, dá bastante trabalho. Quando era mais nova, não fazia muito esforço quando estava a pinar, em termos da penetração e de mudar de posições. Para além disso, quando alguém abre o teu corpo para ti, está a pôr-se numa posição bastante vulnerável – tens muito mais poder. Nunca tinha pensado sobre o sexo assim, porque nunca me senti fisicamente vulnerável da mesma maneira. Não estava excitada, mas a experiência foi psicologicamente interessante. O strap-on é o domador definitiva dos homens. Eles adoram. É como teres uma arma nuclear no teu arsenal.

Continuei a trabalhar como dominatrix, a atender os meus próprios clientes. Muitas vezes, precisas de decepcionar um cliente que viu porno hardcore e quer ser penetrado com toda a força logo de caras. Mas, se não se tem muita experiência, não podes ser penetrado assim. Quando começas a sentir a resistência no corpo de alguém, é preciso parar, se não vais magoar a pessoa. Por isso, a fantasia nem sempre combina com a realidade.

É difícil para mim penetrar alguém por quem estou apaixonada. Há uma troca de energia – para quase todos os homens, a seguir vão surgir sentimentos perturbadores. Mesmo que sonhem com submeterem-se a uma mulher, eles temem perder alguma coisa no processo do pegging. Os homens podem sentir-se depreciados, constrangidos ou arrependerem-se posteriormente – o que é interessante, porque as mulheres são penetradas o tempo todo, mas não se sentem subjugadas.

Quando parei de trabalhar como dominatrix, nas minhas relações românticas tornei-me bastante cautelosa em relação a penetrar homens. Mesmo com tipos que diziam que gostavam, sentia que estavam a ver a dominatrix, não a pessoa. No entanto, conheci um parceiro que gostava mesmo muito de pegging e senti orgulho nele por ser honesto sobre os seus desejos. Usei o strap-on com ele algumas vezes ao longo de um ano. Lembro-me que a primeira vez que fizemos ele estava deitado de costas, a olhar para mim, para nos podermos beijar. Foi mais íntimo – menos uma questão de ser comido e mais de ele a entregar-se a mim. Um homem ceder assim é muito sexy.

Penetrei-o durante uns 15 minutos. Foi uma experiência sexual muito saudável; estávamos envolvidos e presentes. Foi uma coisa sensual e carinhosa, não uma questão de humilhação. Essa é uma coisa fantástica do strap-on - a experiência pode ser como tu quiseres, o limite é a tua imaginação.


Vê o primeiro episódio da segunda temporada de "Slutever"


Um strap-on tem que parecer uma extensão do teu corpo para realmente sentires que o controlas. O melhor é comprar um arnês e dildos separados de diferentes tamanhos, já que assim costumam ter uma qualidade melhor e podes ir trabalhando com o teu parceiro com vários tamanhos.

Muitos homens ficam apreensivos ao experimentar coisas novas, o que os impede de relaxar e desfrutar da penetração. Se conheces alguém curioso em relação ao pegging, leva-o para o banho e ensaboa-o para o ajudar a relaxar. Não lhe faças um enema – isso só deixa mais água no corpo, criando mais caos. Vais precisar de muito lubrificante.Toda a gente pode fazer pegging. O que é preciso é trabalhar nisso gradualmente e o homem tem de estar realmente interessado em experimentar. Acho que há por aí um número surpreendente de homens interessados na prática. E muitas mulheres ganhariam mais confiança sexual ao usarem um strap-on.

Quando percebi que podia usar um pénis e dominar alguém dessa forma, o jogo virou. Penetrar homens ajudou-me a não ter medo da sexualidade masculina. E mostrou-me como homens podem ser vulneráveis – se forem suficientemente abertos.


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