Sexo

Vinte e quatro horas no "Red Light District" de Berlim

Rafaela, uma trabalhadora sexual de 52 anos, mostrou-me os bares abafados e os cantos escuros da maior zona de prostituição de Berlim.

Por Christina Hertel; Traduzido por Madalena Maltez
08 Novembro 2018, 11:16am

Todas as fotos por Flora Rüegg.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Alemanha.

Sábado, oito da manhã. Rafaela tem 52 anos, fuma um cigarro e conta-me sobre como é acreditar no amor verdadeiro. A alguns metros, dois ratos lutam num parque de estacionamento. Na noite e dia que passei com ela, Rafaela só fez sexo com um homem, mas diz que, numa noite boa, pode chegar a atender oito ou mais clientes.

Rafaela é uma trabalhadora sexual em Kurfürstenstraße, o maior red light district de Berlim, capital alemã. “O homem dos meus sonhos anda por aí algures”, confidencia. E acrescenta: “E, quando nos encontrarmos, vou sentir calor, mesmo se estiverem menos 25 graus lá fora – percebes o que digo?”. Rafaela ri alto e com frequência. Às vezes parece que está a tossir. Diz-se optimista, “apesar de isso não ajudar muito”.

Nesta altura, Rafaela e eu conhecíamo-nos há cerca de 24 horas. Ela não dormiu durante todo esse tempo – mantendo-se acordada com café, vodka e cerveja enquanto passa o tempo de folga a jogar nas slot machines dos bares locais.

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Rafaela

Para compreender melhor esta zona de Berlim, Rafaela e algumas das suas colegas trabalhadoras sexuais concordaram em deixar-me passar um dia e uma noite com elas, a andar pelo "distrito da luz vermelha". Durante essas horas, conheci uma mulher que trabalha aqui desde que tinha 12 anos; um líder paroquial a tentar oferecer uma saída para as trabalhadoras sexuais; um homem de 78 anos que fica sentado numa cadeia desdobrável o dia inteiro só a olhar para as mulheres que passam e, claro, Rafaela.

8h00

Quando começo o dia, às oito da manhã de sábado, apenas uma trabalhadora sexual já começou a trabalhar – uma mulher de uns 50 anos num vestido preto curto. Conheço Rafaela um pouco depois, sentada à frente do café Bistro Adler. Começa por me explicar que começou a trabalhar como prostituta aos 18 anos, mas só recentemente voltou para as ruas. Nos últimos sete anos trabalhou como varredora em Berlim, o que, segundo ela, era o seu trabalho de sonho. No entanto, diz que se apaixonou por um especialista em IT que, com o tempo, lhe foi pedindo mais e mais dinheiro – para coisas como um casaco, depois uma aparelhagem. “Achei que se voltasse a trabalhar nas ruas poderia juntar dinheiro mais rapidamente”, explica. Rafaela, eventualmente, foi morar com o homem, mas depois ele admitiu que, na verdade, não tinha um emprego e ela viu-se sem tecto.


Vê: "As profissionais do sexo na região alemã de Saarland"


Dentro do Bistro Adler, uma mulher coloca moeda atrás de moeda na slot machine, enquanto outra dorme encolhida numa cadeira – a sua peruca loira escorregou um pouco, expondo-lhe a cabeça. “Podes ver de tudo”, diz-me um homem que se apresenta como Toni. É cliente aqui há 20 anos – “desde que tinha 18”. Paga por um broche algumas vezes por mês, sempre por 25 euros. Trabalha como empregado de mesa à noite e dorme durante o dia. “Não aguento a luz do sol por muito tempo”, conta. Toni veio para a Alemanha aos 17 anos num navio da Argélia. O pai dele pagou dois ml euros pela viagem.

“O meu hobby é sexo anal”, diz-me quando lhe pergunto do que mais gosta neste estilo de vida. E acrescenta: “Curto muito". Momentos depois, uma mulher de uns 50 anos entra com um esfregão e um balde. “Toda a gente para fora, preciso de limpar isto”.

9h00

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A entrada de uma garagem onde algumas trabalhadoras sexuais atendem os seus clientes

“Vem, vou-te mostrar os cantos mais bonitos”, diz Rafaela. A prostituição é legal na Alemanha, mas os políticos em Berlim estão sempre a ameaçar com a proibição e os habitantes locais reclamam sobre pessoas a fazerem sexo nos seus jardins e no mato. Antes havia estacionamentos onde as trabalhadoras sexuais se encontravam com os seus clientes, mas esses lugares transformaram-se em apartamentos de luxo. Um dos novos prédios residenciais chama-se “Carré Voltaire” e o metro quadrado custa no mínimo cinco mil euros.

Rafaela entra no pátio de um dos prédios antigos remanescentes. Pelo asfalto estão espalhados preservativos, umas cuecas vermelhas, maços de cigarros vazios e fezes humanas. Ela leva-me até uma garagem que cheira ainda pior. Alguém tentou pregar placas de madeira na porta, numa tentativa de impedir a entrada de pessoas, mas as placas foram partidas. “Só miúdas idiotas do Leste Europeu usam garagens, mandam abaixo os preços a toda a gente”, reclama Rafaela. Ela cobra 50 euros pelo sexo e atende os seus clientes em quartos alugados ou carros, enquanto algumas trabalhadoras sexuais, segundo ela, cobram apenas 20 euros – atendendo os homens em sítios como este.

Rafaela conheceu o seu primeiro cliente quando tinha 18 anos e recebeu 150 marcos alemães, o equivalente a 75 euros hoje em dia). Respondeu a um anúncio de jornal que dizia: “Procura-se modelo para visita domiciliária”. Quando ligou para o número de telefone, não demorou muito para perceber que o homem não estava à procura de uma modelo. Mesmo assim, foi até casa dele no dia a seguir. “Fiquei parada à frente da porta por muito tempo, a ganhar coragem para tocar à campainha”. Quando tocou, uma mulher lá dentro levou-a para uma sala onde homens escolhiam entre algumas mulheres. A primeira pessoa a entrar escolheu-a. Ela disse-lhe que era a primeira vez dela, então ele explicou-lhe o que queria. “Fiquei parada como um boneco de peluche o tempo todo”, recorda.

No final daquele primeiro dia, tinha ganho centenas de francos. “Ao regressar a casa, achava que toda a gente conseguia ver o que eu tinha feito. Saí do comboio na estação seguinte e voltei para casa a pé”.

11h00

Uma hora depois, uma mulher leva Tom, de 27 anos, para uma dessas garagens. Sete minutos depois, Tom está sentado à frente de um pub a beber cerveja. Peço-lhe que me descreva a experiência. “Foi bom”, responde. “Eu só queria meter. Só pinar, sem ter que respeitar ninguém”. E ela? “Ela disse-me que tenho uma pila grande”.

Tom pede outra cerveja – a sua décima do dia, diz-me, antes de revelar que nunca teve uma namorada a sério. “Não sei o que é o amor”, diz. E acrescenta: “Venho sempre aqui, mas não é um lugar que te faça feliz”. Cinco horas depois, reparo que Tom ainda está a beber à frente do mesmo pub.

Gerhard Schönborn, o dono de 56 anos do café Neustart não compreende homens como Tom. “Há um violador em todos eles”, garante. No Neustar, as mulheres que trabalham na rua ganham uma salada de macarrão e pedaços de queijo grátis e também conseguem ajuda se quiserem sair das ruas.

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Gerhard Schönborn

Quando me encontro com Gerhard no café, quatro mulheres estão a dormir em poltronas pretas e uma no sofá. Numa pequena lousa atrás delas lê-se um versículo: “Nem a vida nem a morte nos pode separar do amor de Deus”. Há também uma caixa onde as mulheres podem colocar as suas orações.

O objectivo dele não é converter as mulheres, diz Gerhard, só encontrar uma forma de as ajudar. A sua equipa é formada por entre cinco a dez voluntários que trabalham para ajudar as trabalhadoras sexuais a encontrar outro emprego e conseguir um apartamento próprio. “Mas isso raramente acontece”, admite Gerhard.

A igreja dele também fica no red light district. “Quando é isso que vês sempre que sais da missa, precisas de fazer alguma coisa”. Apesar de tudo, Gerhard não quer que a prostituição seja proibida, já que isso “só iria empurrar as trabalhadoras para as periferias da cidade”.

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O café de Gerhard.

Rafaela não se importaria se o comércio da zona desaparecesse. “As coisas só estão a piorar”, diz. Há pouca confiança entre as mulheres. E acrescenta: “Quando pedes um preservativo a alguém, a pessoa abana sempre a cabeça”.

À meia-noite, Rafaela senta-se num banco no Nil, um bar a uns 70 metros do café de Gerhard. Três ou quatro mulheres estão a trabalhar à frente do estabelecimento. Mais tarde, o dono do Nil explica que, geralmente, não deixa as mulheres entrarem, só a Rafaela. O bar é um dos poucos do distrito em que as portas das casas-de-banho podem ser trancadas. Nos outros, as fechaduras foram removidas por medo de que alguém morra de overdose lá dentro.

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O novo prédio da zona, o "Carré Voltaire"

15h30

Sandra sai de casa todos os dias às 15h30 para começar a trabalhar. Tem quase 30 anos e só tem um dente, na gengiva superior. Antes de encontrar o primeiro cliente do dia, compra um gelado. Sandra cresceu em Neustrelitz, uma cidade de 20 mil habitantes em Meckenlenburg-Vorpommen, a norte de Berlim. O pai morreu quando ela era criança e os namorados da mãe eram sempre um problema. Um deles tentou abusar sexualmente dela, conta.

Aos 12 anos fugiu de casa e começou a viver nas ruas, viciando-se rapidamente em drogas. Aos 12, Sandra voltou-se para a prostituição para suportar o vício – apercebendo-se que ganhava o mesmo em 10 minutos do que em 10 horas a pedir esmola. O primeiro cliente queria um broche, mas ela “vomitou-lhe nas calças”. Ele pagou mesmo assim, diz-me ela. Deixando o seu gelado agora derretido no copo, Sandra conta-me que gostaria muito de sair do distrito, mas não tem como se sustentar. Também quer largar a heroína, mas ainda não conseguiu. Um médico prescreveu-lhe um tratamento com opiáceos, mas isso só diminuiu um pouco o problema.

Rafaela está sentada num bar chamado Kurfürsten. Lá dentro há uma bola de espelhos pendurada no tecto. Há três copos com vodka e bebida energética na mesa. Com Rafaela está Claudia, 42 anos, que está a beber vodka com chá gelado. A dupla conversa sobre uma conhecida que morreu recentemente – uma rapariga do Leste Europeu que teve uma overdose perto das garagens na semana passada e, “provavelmente, morreu no meio das latas de lixo”, diz Claudia. E acrescenta: “Toda a gente diz que a viu lá, mas ninguém fez nada. Isso parte-me o coração”.

Alguns momentos depois, um barman coloca um copo de vodka castanho à frente de Rafaela. “Já te disse, põe mais vodka e o mesmo desse xarope castanho”, grita-lhe Rafaela.

Claudia tem uma longa cicatriz na coxa direita. Quando lhe pergunto como aconteceu, Claudia só abana a cabeça. Nenhuma delas anda com spray de gás pimenta ou outra arma na carteira para se defender. “Se eu tiver uma arma, eles também vão ter”, diz Claudia. A polícia registou 2.345 queixas no distrito da luz vermelha no ano passado, incluindo 50 ferimentos graves, 273 roubos a lojas, 49 privações de liberdade e 50 assaltos.

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Quase todos os bares do distrito têm máquinas caça-níquel.

Rafaela também tem uma cicatriz, na sobrancelha, que "recebeu" de um chulo há 20 anos. O mesmo tipo partiu o maxilar a outra trabalhadora sexual, pendurou uma mulher fora da janela pelo pé e ameaçou dar um pontapé a uma grávida na barriga. Rafaela teve que se comprar a si própria por alguns milhares de euros. Até conseguir juntar o dinheiro, tinha que vir para o distrito todos os dias.

20h00

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Horst (esquerda)

Durante umas quatro horas cada tarde, Horst, de 78 anos, observa tudo o que acontece no red light district a partir de uma cadeira desdobrável. “O que mais poderia eu fazer?”, pergunta-me. “Ficar sentado o dia todo à frente da TV?”. Ao lado dele está um tipo bastante mais jovem, de fato de treino branco, a ouvir techno num rádio portátil. Num bloco de cimento ao lado deles há um pacote de biscoitos, uma garrafa de limonada e um saco de plástico cheio de roupas, deixados ali pelas trabalhadoras sexuais. Mais tarde, uma mulher loira aparece, tira um sutiã verde néon da sacola e troca por um branco.

“Aquela, ali”, diz Horst, apontando para uma ruiva num vestido cinzento, “é minha vizinha”. Horst nunca pede dinheiro às mulheres, mas às vezes pede sexo. No entanto, isso pode dar problemas. Recentemente foi ferido por uma mulher com uma faca. Ela roubou-lhe o cartão multibanco e trancou-o no seu apartamento. “Vi-a aqui hoje”, diz-me, aparentemente sem ressentimentos. Ele diz que percebeu que é uma mistura de vício, chulos e pobreza que obriga as mulheres a trabalharem na rua. E salienta: “É um jogo muito triste”.

Então porque é que jogas, pergunto-lhe. Horst sorri. “É verdade, eu jogo o jogo. Mas, trato bem as mulheres”. Horst foi camionista durante 30 anos, casou quatro vezes e tem um filho que não vê há sete. Quando nos despedimos, sussurra de forma conspiratória: “Tem cuidado, este não é um lugar seguro. As pessoas aqui desaparecem”.

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Claudia

22h30

Na esquina, uma mulher de uns 50 anos está sentada ao colo de um homem de cabelo preto ensebado. Estão a fazer sexo. No mesmo quarteirão, dois homens estão a beber cerveja sem prestar atenção ao que acontece perto deles.

Nesta altura, no começo da noite, cerca de 50 trabalhadoras estão a atender. O governo local diz que não sabe quantas mulheres actuam aqui no trabalho sexual. Duas mil registaram-se com a autoridade de saúde pública, como é exigido por lei, mas muitas trabalham ilegalmente. Segundo a Hydra, uma consultoria de trabalho sexual, há cerca de oito mil trabalhadoras sexuais em Berlim.

Rafaela aproxima-se para me dizer que não está muito na onda de trabalhar, por isso só atendeu um cliente esta noite. Depois, começa a reclamar dos homens – sobre como são sujos, têm pilas pequena e como gostam que ela os lamba. “Às vezes, quando o preservativo é grande demais, a ponta entra-me pela garganta”, diz, fazendo um som de engasgo. E garante: “Tento sempre trabalhar o menos possível.”

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O barman do Nil

Às três da manhã voltamos para o Nil, que está vazio e Rafaela conta-me que foi casada com um homem que morreu com 30 e poucos anos. Nunca lhe contou que era trabalhadora sexual, mas nunca dormia com ele nos dias em que atendia clientes.

O sol começa a aparecer. Na televisão, o cantor alemão Udo Jürgens apresenta-se usando um casaco prateado e um laçarote ao pescoço, ao lado de uma mulher com um corte de cabelo tipo anos 80. Cantam “Desejo-te um amor sem sofrimento e que nunca percas a esperança”. Rafaela e o barman cantam em conjunto. “Acreditas que existe isso do amor sem sofrimento?”, pergunta o barman. Rafaela responde com convicção: “Não”.


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