Viagens

Como era o Brooklyn realmente nos anos 70 e 80

“As rendas eram tão baratas que podias trabalhar e ter uma vida decente sem um diploma universitário”.

Por Seth Ferranti; fotos por Larry Racioppo
06 Novembro 2018, 12:01pm

Todas as fotos por Larry Racioppo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Antes de ser uma marca global, o Brooklyn era apenas um sítio dos EUA onde moravam pessoas. De Bensonhurst a Park Slope, de Bedford-Stuyvesant a Greenpoint, o distrito mais populoso de Nova Iorque era, também, o mais diverso.

E não faltam homenagens da cultura pop ao rico passado cultural da área, dos filmes de Spike Lee – ele próprio um crítico mais ou menos imperfeito da gentrificação – a romances de Jonathan Lethem e Jennifer Egan. Nos últimos anos, escritores como Adelle Waldman e cineastas como Noah Baumbach têm tentado captar a paisagem metropolitana em mutação (e o que isso significa, não só do ponto de vista das rendas e preços de imóveis, mas também para o amor e para a cultura) e como foi crescer, digamos, na Park Slope moderna antes de o local se tornar apenas uma piada sobre yuppies ricos a passear carrinhos de bebé.


Vê: "Nova Iorque dentro de um táxi"


É no contexto do hype obsceno do Brooklyn que o fotógrafo e nativo de South Brooklyn, Larry Racioppo, lança o livro Brooklyn Before: Photographs, 1971 – 1983, que inclui ensaios do famoso escritor do Village Voice, Tom Robbins, e da crítica de arte, Julia Van Haaften. A VICE encontrou-se com Racioppo para tentar descobrir como é que ele decidiu começar a fotografar quando era jovem, o que realmente significa dizer que o Brooklyn era um lugar diferente naquela época e como é que as suas comunidades interligadas mudaram – e às vezes se recusaram a mudar – desde que ele era miúdo.

Abaixo, numa transcrição editada da nossa conversa, Racioppo conta o que pensa de tudo isto, enquanto detalha as histórias por detrás de algumas fotos marcantes do seu livro.


1537205121525-fig0029
George a mostrar a sua tatuagem na 36th Street, em 1977

Este é um tio meu. Combateu na Segunda Guerra Mundial e voltou traumatizado. Nunca mais trabalhou. Morava com a minha tia e era muito quieto, mas, de vez em quando, eu conseguia falar com ele. Perguntei-lhe sobre a tatuagem e ele mostrou-ma, dizendo que a tinha feito numa festa num quintal. Achei muito engraçado e tão simples quando comparado com a arte extrema da tatuagem de hoje em dia – uma tatuagem tão básica da Segunda Guerra Mundial.

Um amigo tinha uma câmara e emprestou-ma. Tirei o meu primeiro rolo de filme a andar pela cidade e a conversar com as pessoas, gostei muito e foi uma coisa que me marcou. Caminhava da 2nd ou 3rd Street para o Cemitério Greenwood até casa dos meus amigos em Sunset Park, a fotografar pelo caminho. Encontrava pessoas e crianças. Praticamente só usava rolos a preto e branco de 35 milímetros. Só tive acesso a rolos a cores muitos anos depois.

O trabalho neste livro é muito específico dos anos 1971 a 1983. Tinha essa câmara barata de 35 milímetros com que fotografei durante anos. Ainda acho que o Brooklyn é um óptimo lugar para viver. A diversidade é tremenda. Mas, fora Park Slope, a maioria dos bairros não eram tão integrados, como sabemos. Eu tinha um trabalho muito interessante na cidade, para o departamento de habitação, o chamado HPD, e andei pela cidade ao longo de 20 anos, a fotografar tudo. Vi quase todos os bairros da cidade. E via que as pessoas se davam bem no trabalho, mas quando iam para casa, era uma coisa muito separada.

1537205506525-fig0043
Pessoas a tocar congas na 7th Avenue, em 1977

Isto era na esquina de minha casa, que agora é um sítio muito diferente. Este tipos estão à frente de uma loja de bebidas que tinha aquela protecção de plástico dos anos 70. Hoje, é uma loja de bebidas muito chique. Já não vemos pessoas a tocar nas ruas desta forma. É um lugar muito mais calmo. Naquela época, os irlandeses estavam até certo ponto a sair do bairro. Os italianos moravam lá e os porto-riquenhos estavam a chegar. Agora há mais pessoas da América Central e do Sul.

Para mim, o Brooklyn tem a ver com mudança, com imigração. Se não gostas de mudança, o Brooklyn não é um bom lugar para viveres. Na maior parte do tempo, não havia lutas sérias entre gangs. Não era uma coisa grande, que te fizesse sentir medo. Vias os outros. Trabalhavas com os outros. Mas, também sabias quem eras. Sabias a diferença. Era um bairro de classe trabalhadora. Eram irlandeses, italianos e porto-riquenhos. E o que unia os grupos [na zona] era o catolicismo. As pessoas sabiam que havia tensão, mas nada realmente horrível. As pessoas davam-se bem.

1537205685788-fig0057
Um jovem com uma boombox na 18th Street, em 1980

Clássica Nova Iorque dos anos 80. Vi muitas "boomboxes". A dele era relativamente pequena – o que era parte da mudança. Estava à frente de uma mercearia italiana. A minha avó e duas tias moravam neste prédio. Agora há ali uma taberna dominicana. O bairro foi mudando lentamente de italiano para mais hispânico. Perguntei-lhe se podia tirar a foto. Ele disse “Sim”, mas percebe-se que está cauteloso. Parecia estar tenso em relação a mim. Ele não sabia o que eu estava a fazer. Na época, o hip hop não estava realmente a acontecer ali. Era mais uma cena punk e de rock. Quem eu conhecia frequentava o CBGB e o Mudd Club. Depois, o local ficou muito diferente.

As rendas eram tão baratas que podias trabalhar e ter uma vida decente sem um diploma universitário. Tudo era barato. A maioria dos gajos do bairro não tinha sequer terminado o liceu. Alguns nem o ensino obrigatório. No entanto, viviam bem e podiam sustentar uma família. Muito disso já não acontece. É muito difícil. Muitas pessoas estão a ser expulsas, há uma questão real de gentrificação. Isso é bom para alguns e mau para outros. Depende de onde estás na vida. É difícil hoje em dia, com a forma como as rendas subiram no Brooklyn e em Nova Iorque. Eu arrendava uma lojinha por 35 dólares por mês na época. Tinha lá uma cama e uma sala escura. Conseguia comprar o papel, os químicos e bandejas para trabalhar. Tirava algumas fotos, revelava os rolos e fazia mais impressões.

1537205759513-fig0060
Miúdos a jogar basebol num terreno baldio na 20th Street, em 1974

Quando era miúdo, tudo acontecia na rua. Voltavas da escola, saías para brincar, depois a tua mãe chamava-te quando escurecia. No dia seguinte, a mesma coisa. Nos fins-de-semana, íamos para o Prospect Park jogar em terrenos baldios. Isso mudou totalmente. Nós, sei lá, atirávamos tijolos. Fazíamos armas que atiravam pedaços duros de linóleo com elásticos. Passavas a vida a correr pelas ruas a jogar a tudo – basebol, basquete e futebol americano.

Se jogavas à bola, jogavas à bola com toda a gente. O quarterback dizia ao receptor “Corre uns três metros, entre aquele Cadillac e o Chevy”. E a primeira pessoa que chegasse àquele espaço apanhava a bola. Havia várias brincadeiras de rua. Os meus netos nunca brincaram na rua. Vão ao parque. Estão em equipas organizadas. Têm aulas. É muito diferente. As coisas são mais organizadas. Os pais saem com os filhos.

De certa forma, as coisas já não são seguras como eram. Tudo é mais controlado. Mas, a coisa das crianças a brincar na rua é muito diferente.

1537205961293-fig0064
Garotos com armas de brincar na 18th Street, em 1971

Isto foi no Natal, junto a uma árvore cortada na casa da minha tia. Fui visitar a minha tia e o meu primo mais novo apareceu. Estes são os seus amigos. Eles subiram ao que restava da árvore e eu fiquei em baixo, com a câmara apontada para cima. Eles rodearam-me. Esta foto faz-me sempre rir.

Agora é totalmente diferente. A cultura de armas é terrível. Quando trabalhava na cidade, cheguei a tirar uma foto à Bíblia de uma mulher furada por uma bala; a bala entrou pela janela, passou por ela de raspão e acertou a Bíblia. Era uma época diferente. As pessoas não tinham armas.

Se acontecia uma querela, o máximo que vias era um taco de basebol. A sério, os adolescentes não tinham armas. Não havia o nível de crime de 10 anos depois. Isso mudou. E, agora, é uma coisa grande; os meus amigos politizados, que ainda moram em Park Slope, nunca deixariam os filhos brincar com armas. As crianças gostam de brincar com essas coisas. Já vi nos videojogos que os meus netos jogam. São muito violentos – mas eles já não têm armas de plástico nas mãos.

1537206131125-fig0072
John e Michael na 16th Street, em 1980

São dois primos meus mais novos e ambos tiveram uma vida difícil. Eram rapazes bonitos que eram fixes comigo, mas eram putos de rua durões. Esse era o estilo do Brooklyn, uma coisa meio John Travolta em Febre de Sábado à Noite. Era um pouco cliché. Vestiam-se como na época do filme. Em algumas fotos do livro, vês “Rock sucks. Disco sucks” ppintados e cruzados nos muros do Brooklyn. Quem gostava de rock não gostava de disco e vice-versa.

1537206240009-fig0103
Crianças no intervalo do culto da Igreja Pentecostal da 7th Avenue, em 1979

Eu vivia na 10th Street entre a 7th e 8th Avenue e esta igreja era logo na esquina. Tocavam música às sextas e nas noites de sábado. Era uma igreja haitiana. Era lindo. Mas, as crianças ficavam na igreja durante horas. Não sei se foste criado como católico, mas a missa católica demora uns 45 minutos e no Verão cortavam para 15 minutos. No entanto, em alguns destes eventos baptistas, as pessoas ficam três, quatro horas na igreja só a aquecerem. Portanto, estas crianças ficavam lá o dia inteiro. Quando as encontrava no intervalo, pedia sempre para tirar fotos. Fizeram esta fila sozinhas. Fizeram a pose e ficaram paradas para a fotografia. Aquela zona agora é muito cara, já não dá para ter uma igreja pentecostal na 7th Avenue. A renda seria impossível.

É interessante para mim agora ir a Bed-Stuy ou Bushwick e ver quase só crianças brancas. Quando trabalhava, não vias nenhuma. Vias pessoas latinas ou negras. E o bairro realmente abriu-se. Um grande factor na época era que as moradias não eram caras. Alugámos um loft grande na 12th Street e 7th Avenue. Ttinha 280 metros quadrados e pagávamos 100 dólares por mês. Quando me mudei para o meu primeiro apartamento, a renda era de 120 dólares. Os meus pais acharam um escândalo. Pagavam 50 dólares. Pensavam “Como é que alguém pode cobrar 120?”. Hoje, o mesmo apartamento deve custar mil ou dois mil dólares, no mínimo. Uma renda mais baixa permitia-te fazeres arte, fazeres o teu trabalho.

1537206319291-fig0122
Uma "vítima" e um "bandido" numa festa de Halloween na 21st Street, em 1980

No Dia das Bruxas, saía sempre por volta das 15, 16 horas depois das aulas e andava até ficar demasiado escuro para fotografar. Não tinha flash – só uma câmara de mão. Houve um ano em que a igreja local deu uma festa de Halloween e eu tinha acabado de comprar uma máquina maior e um flash. Fui à festa para ver se conseguia boas fotos. Coloquei um pedaço de madeira como fundo. Fiz umas fotos tipo de estúdio. Fotografei um vampiro, o Batman, depois esres dois meninos apareceram e perguntei-lhes “Vocês são o quê?”. O rapaz levantou os braços e disse “Sou uma vítima”. O outro disse “Sou um bandido” e sacou uma arma de plástico.

Acho que isso resume bem a época. As pessoas estavam a começar a ganhar consciência das mudanças. A cidade estava a ficar mais difícil e as crianças pensaram nisso como uma máscara. Achei bastante incrível.

A rapaziada atirava ovos ou creme de barbear uns aos outros. Fizemos tudo isso e comecei a fotografar as crianças à frente da minha casa no Halloween em 1973. Há um livro muito famoso chamado Zen: The Art of Photography que saiu na altura e isso tornou-se uma forma de pensar no Mundo e sobre mim. Pode parecer estranho, mas essa parte espiritual era o que eu estava a procurar. Anos depois, troquei para rolos a cores, para uma câmara maior, a fotografar negativos de quatro por cinco e oito por dez polegadas. Mas, sou sempre atraído por essa coisa de revisitar os meus primeiros dias de fotografia no Brooklyn.


Sabe mais sobre o livro de Racioppo aqui.

Segue o Seth Ferranti no Twitter e Instagram.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.