Meus irmãos cometeram atos violentos, mas eles não são 'animais'
Ilustração por Lia Kantrowitz.
Relato

Meus irmãos cometeram atos violentos, mas eles não são 'animais'

Entendo melhor que a maioria por que não devemos demonizar mesmo as pessoas que cometeram crimes horríveis.
Lia Kantrowitz
ilustração por Lia Kantrowitz
MS
Traduzido por Marina Schnoor
28.8.18

Se tornou rotina para Donald Trump e o Partido Republicano dos EUA manchar a imagem de todos os imigrantes como criminosos, todos os criminosos como monstros, e os democratas como aliados dos monstros. Quando o candidato apoiado por Trump, Brian Kemp, venceu as primárias republicanas para governador na Georgia mês passado, Trump chamou a rival democrata Stacey Abrams como a “oponente amante do crime” de Kemp.

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Trump abriu sua campanha presidencial chamando imigrantes mexicanos de estupradores, instigou o medo com a gangue MS-13, disse que os democratas querem “anarquia, anistia e caos”, além de chamar imigrantes sem documentos de “animais” no começo do ano. Ele e seus simpatizantes insistem que a última declaração era em referência apenas ao MS-13, conhecido por seu ataques sangrentos. Mas quem sabe como a desumanização de um grupo de pessoas se infiltra em outras compreende o perigo da linguagem de Trump. Sei disso por causa dos meus irmãos.

Eles não são imigrantes sem documentos nem membros do MS-13, mas num sentido real, eles são quem Trump estava se referindo quando falou sobre “animais” que fizeram coisas horríveis.

Meus irmãos fizeram coisas monstruosas – mas eles não são monstros.



Essa distinção é importante. Quando não é clara, ela semeia a demonização não só daqueles que cometeram atos horríveis, mas de todos em sua órbita. É por isso que tantos eleitores de Trump estão convencidos que o MS-13 vai afetá-los pessoalmente, mesmo que eles tenham mais chances de serem atingidos por um raio do que por uma ataque da gangue de que Trump não consegue parar de falar. Essa demonização faz crescer medos irracionais que podem ser usados como armas para propósitos políticos. Isso leva a incidentes como o assassinato de Tamir Rice, 12 anos, que foi considerado um ameaça pela polícia por brincar com sua arma de brinquedo. Essa demonização me levou a passar vários anos escrevendo sobre as realidades de raça e crime, porque conheço o verdadeiro mal que pode surgir dessas descaracterizações.

Trinta e seis anos atrás, meu irmão mais velho, que chamamos de Moochie, encarou a pena de morte depois de esfaquear um homem dezenas de vezes. Ele se declarou culpado e cumpriu 32 anos de pena no sistema prisional da Carolina do Sul. Quando encontrei a irmã do homem assassinado quase um quarto de século depois, para me desculpar em meu nome e no nome da minha família, ela ainda tinha pesadelos com a brutalidade do crime e a condição do corpo do irmão.

O filho único do meu irmão mais velho, Albert “Smooch” Harris, que foi criado pela minha mãe como se fosse um dos meus irmãos, cumpre uma sentença de 25 anos por homicídio depois de acidentalmente balear e matar um homem durante uma tentativa de roubo de seus colegas traficantes. Outro irmão meu, James, está cumprindo 16 anos como cúmplice no Lee Corretional Institute na Carolina do Sul, uma prisão passou por uma rebelião semanas atrás onde sete homens morreram e dezenas ficaram feridos. Poucas pessoas se importaram que os carcereiros tenham permitido que as condições naquela prisão se deteriorassem até níveis desumanos, o que levou a níveis de violência desumanos, provavelmente porque esses prisioneiros são considerados pouco mais que animais.

Meu irmão mais novo, Jordan, começou a cumprir sua sentença de 24 anos numa prisão federal verão passado, por seu papel é vários crimes violentos. Sentei no tribunal durante a audiência de sentença. Ouvi um parente da vítima dizer que Jordan vai ser violento para sempre. Ele recontou como Jordan se declarou culpado de um assassinato seis meses antes de invadir um negócio de sua família na nossa cidade pequena com uma arma. A esposa do homem, que pegou sua própria arma e disparou contra Jordan para proteger a si mesma e outros dois membros da família, ainda tinha problemas para dormi anos depois. Ela acordava no meio da noite gritando e teve um ataque de pânico quando um entregador da FedEx apareceu na porta para entregar encomendas nas festas de final de ano.

Não gosto de admitir, mas fico grato pelos períodos em que meus irmãos ficam presos. São as únicas épocas em que me sinto realmente em paz.

Jordan os “aterrorizou”, o homem disse ao juiz. “Nosso senso de segurança foi destruído. Evitamos ir a certos lugares. É uma vergonha se sentir um prisioneiro na sua própria cidade.”

Eu sabia que ele estava dizendo a verdade sobre meu irmão. Sei porque minha família também vem sendo aterrorizada pelas ações de Jordan.

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Passei cinco anos aterrorizado toda vez que o telefone tocava, pensando se não seria a vez em que meus irmãos mais novos tinha sido mortos ou tinham matado.

Passei cinco anos tentando descobrir como manter meus dois filhos seguros em contato com a avó, que ainda mora na cidadezinha onde meus irmãos mais novos estavam causando problemas. Deixar ou não eles visitarem a avó era uma questão que criava tensão no meu casamento. Achei que seria mais seguro quando Jordan e James estavam presos. Não gosto de admitir, mas fico grato pelos períodos em que meus irmãos ficam presos. São as únicas épocas em que me sinto realmente em paz. Minha esposa não tinha certeza se a cidade era segura para nossos filhos mesmo durante esses momentos e tinha dificuldade para confiar no meu julgamento quando seus instintos maternais a diziam que eu estava errado.

E talvez eu estivesse.

Eu não tinha medo que meus irmãos pudessem machucar meus filhos; eles não fariam isso. Eu tinha medo dos rivais deles, que também estavam envolvido com drogas e violência.

Foi quando recebi a tão temida ligação, tarde da noite da minha irmã mais nova, me dizendo que a namorada de Jordan tinha sido morta durante um tiroteio. As balas direcionadas para o meu irmão acabaram atingindo ela e, por milagre, não acertaram também as crianças dormindo no apartamento na hora. Mais tarde, entrei no quarto delas e vi buracos de balas depois de pisar numa pegada de sangue na porta da frente. No último Dia das Mães levamos duas dessas crianças até o túmulo da mãe.

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Então entendo o desejo de reduzir aqueles que cometem coisas monstruosas a monstros, a animais. Porque por mais que eu tente amar meus irmãos, há períodos em que desisto desse instinto. Odiei como eles colocaram a vida da minha mãe em risco. (O cara que matou a namorada de Jordan passou pela casa da minha mãe antes, procurando por ele.) Odiei como eles estavam dividindo nossa família, com alguns de nós felizes por vê-los fora das ruas e não se importando como eles eram tratados pelo sistema criminal, e outros sofrendo para se agarrar ao nosso amor por eles.

Odiei que, por causa eles, minha família se tornou a ovelha negra das ovelhas negras, o tipo de pessoa com que os outros não querem se envolver. Mesmo quem poderia ser um aliado, pessoas que passaram a vida lutando pela reforma da justiça criminal, falam baixo sobre criminosos violentos, se é que falam. Pessoas com quem crescemos ficam relutantes em falar a nosso favor publicamente desde que Moochie foi preso; ativistas com quem falei proclamavam corajosamente a humanidade de criminosos não-violentos, mas não dos violentos. Depois dos comentários sobre “animais” de Trump, sua administração se voltou totalmente para eles, evidentemente achando que ninguém defenderia criminosos violentos.

O rótulo de animal parece estar reservado só para algumas pessoas, não todas, que fizeram coisas horríveis.

“Não acho que o termo é forte o suficiente”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca Sarah Sanders numa entrevista coletiva em maio. “Francamente, acho que o termo animal não vai longe o suficiente, e acho que o presidente deveria continuar a usar sua plataforma e tudo que puder sob a lei para parar essas pessoas horríveis e nojentas.”

Mas se vamos descrevendo humanos como animais, deveríamos pensar sobre quem estamos colocando nessa categoria e quem estamos deixando de fora. Sanders obviamente não considera a diretora da CIA Gina Haspel um animal, mesmo que ela tenha comandado uma prisão secreta onde tortura ocorria. Trump evidentemente não acredita que homens como Thomas Jefferson eram animais, mesmo que Jefferson tenha estuprado repetidamente uma jovem escrava e feito outros escravos serem espancados. O rótulo de animal parece estar reservado só para algumas pessoas, não todas, que fizeram coisas horríveis.

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Algum tempo atrás, falei com Bryan Stevenson, fundador da Equal Justice Initiative, uma organização sem fins lucrativos que defende homens e mulheres no corredor da morte, e criou o primeiro memorial dedicado a mais de 4.400 vítimas documentadas de linchamento dos EUA. Nossa conversa ocorreu algumas semanas antes dos comentários de “animais” de Trump, mas não pude deixar de notar as similaridades do que Stevenson disse sobre como falar em “super-predadores” moldou as políticas públicas dos anos 1990 de maneiras que eventualmente ajudaram a minar famílias como a minha.

“Aquela retórica foi o que fez os estados diminuírem a maioridade penal para julgar crianças como adultos e criar este mundo onde temos milhares de crianças em prisões de adultos”, me disse Stevenson. “Temos milhares de crianças nascidas em famílias violentas. Essas crianças vivem em bairros violentos; frequentam escolas violentas. Quando têm cinco anos, elas já estão traumatizadas… elas são como veteranos voltando de zonas de guerra. O que deveríamos fazer é ajudar essas crianças a se sentirem seguras, mas em vez disso, o que fazemos quando essas crianças aparecem nas escolas e ameaçá-las… Aí essas crianças, depois de oito ou nove anos, recebem drogas e pela primeira vez em suas vidas, por três horas, não se sentem traumatizadas, e ficamos com raiva quando elas dizem que querem mais dessa droga ou quando alguém, anos depois, diz a elas 'Se junte a minha gangue, vamos te ajudar'. As punimos por isso.”

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Não mostramos um comprometimento com a noção de que todas as crianças são crianças “do mesmo jeito como tratamos crianças privilegiadas, talentosas ou dotadas”, disse Stevenson. “Temos que mostrar nosso comprometimento com crianças problemáticas, traumatizadas, pobres, crianças que cometem erros.”

Sei as coisas horríveis que meus irmãos fizeram e nunca vou perdoar nada disso. Mas também conheço os fatores que os ajudaram a se tornar quem são.

Sei que nascemos de uma mãe que foi obrigada a se casar aos 13 anos com um homem 25 anos mais velho. Se que ela foi obrigada a parar sua educação numa escola numa área que desprezava pele escura. Sei que ela aguentou anos de abuso físico nas mãos do marido. Sei que meu pai abusivo nasceu numa sociedade que exigia que ele tratasse garotos brancos como superiores, mesmo quando eles o chamavam de “crioulo”. Sei que meu irmão mais velho passou anos sendo abusado também.

Sei que precisávamos de vales alimentos e outras assistências do governo para sobreviver, e fomos relegados a escolas que ainda eram segregadas e subfinanciadas quatro décadas depois do Brown v. Board of Education.

Sei que fomos humilhados para ficar em silêncio depois que meu irmão mais velho foi preso, como se fossemos conspiradores de um crime que foi cometido quando eu era um menino de nove anos, James ainda era um feto no útero, e antes de Jordan ser concebido. Não tínhamos direito de falar a verdade sobre Moochie, sobre todas as vezes que ele impediu meu pai de bater na minha mãe, todas as vezes que os cheques de seu curto tempo no exército nos ajudaram a sobreviver – até que ele foi dispensado por suas crises de enxaqueca e surtos violentos, e voltou para nós perturbado.

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Sei que essa vergonha que nos foi imposta – como se não fôssemos vítimas também – tornou impossível receber a ajudar que precisávamos para navegar por um mundo onde um pilar da nossa casa já vulnerável foi removido. Sei que esse silêncio induzido pela vergonha semeou um ciclo de violência que continuou nos meus irmãos mais novos.

Que alguns tenham evitado esse destino não torna menos verdade que crescemos uma situação horrível, e que isso tornou mais ainda difícil evitar finais ruins. Tenho um irmão cujas filhas estão emergindo como estrelas de TV e da música, uma irmã que trabalha na Delta, um irmão que tem academias de ginástica depois de uma carreira como controlador de tráfico aéreo, uma irmã que é especialista em TI e atriz de teatro, um irmão que é pastor e trabalha na indústria, um irmão que tem muito sucesso como vendedor de carros.

E tenho um irmão, Zadoc, que agora é um pai de família com uma nova casa. Houve momentos em que ele também teria sido chamado de “animal” por Trump, Sanders e outros que acreditam que é OK desumanizar pessoas que fizeram coisas horríveis. Ele passou um tempo nas ruas com meus outros irmão antes de encontrar um caminho limpo.

Nem ele nem eu podemos dizer com certeza como evitei as ruas e como ele escapou enquanto meus outros irmãos não conseguiram. Mas sabemos que há uma linha tênue entre o que eles se tornaram e o que nós superamos. Sabemos que se seus irmãos são animais, você também é.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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